terça-feira, 25 de julho de 2017

Nem toda viagem é boa

O fato de, em 2013, ter sido resgatada pela Alemanha de um tenebroso período psicológico e emocional vivido nos anos antes acabou por convencer meu inconsciente de que uma viagem para lá é capaz de resolver todos os meus problemas. Só que não (vamos trazer os meses modernos pra esse blog esquecido). Mas vamos por partes. Passei boa parte do ano passado pensando sobre a necessidade de fazer um intensivo de alemão na Alemanha para, depois de duas tentativas fracassadas, passar na proficiência de nível B2. Por mais que eu tenha certeza que não sou a pior professora de alemão do universo, parar de fracassar na proficiência me deixaria mais tranquila para os meus próximos passos profissionais (sejam eles quais forem - meus queridos amigos de Publicidade já estão fundando uma escola pra mim, praticamente, como logo, página no Facebook e cartõezinhos). Com o aumento absurdo do Euro, acabei deixando essa ideia apenas como uma ideia, até receber um e-mail muito querido do pessoal da Alemanha, o qual me convenceu a olhar os preços das passagens. Não só estava barato (menos da metade do preço que paguei das outras vezes), como o preço também diminui uns 100 reais durante a semana que enrolei para comprar. Além de tudo, meu irmão, ainda mais falido que eu, estava disposto a me emprestar dinheiro e me pedia diariamente se eu já tinha comprado a passagem. Até que comprei. Isso era outubro. O curso só reservei no fim de janeiro (depois de arrombar minha poupança) e os salários seguintes foram gastos em Euros para não morrer de fome durante as cinco semanas que eu passaria em Berlin. 

Em fevereiro meu pai faleceu e, por mais que eu estivesse preparada para isso, me surpreendi com o cansaço que se apossou do meu corpo nos meses seguintes. Eu, a pessoa que sempre arruma algo com o qual se ocupar. Com a morte do meu pai, veio a parte burocrática para sanar a vontade de alguns para a abertura do inventário, enquanto eu tinha que espantar 'amigos' que adoravam visitar/ligar para a minha mãe dando palpite no inventário, criticando o fato do meu pai ter sido cremado (ao que parece o fato de ser um desejo dele não torna isso menos horrível) ou mesmo dispostos a convencer toda a família de que minha mãe não está psicologicamente bem (porque é impossível, para alguns, que ela não esteja passando as noites em claro chorando). Enfim, eu realmente estava com esperança de que a Alemanha restabelecesse minhas energias. A bem da verdade, passei semanas sem pensar na viagem, mas em algum momento tive que encara-la e conclui que talvez tivesse sido bom tê-la programado. Mas talvez não tenha sido.

Quando cheguei lá, tudo ok, encontrei só amigos e nem tive tempo para pensar direito. Mas aí eu fui para Berlin, para o apartamento que eu ia dividir com duas gurias, sendo que uma delas dividiria o quarto comigo. Tudo certo também. No dia seguinte teria o teste de nivelamento e, óbvio, eu almejava o nível final do B2 para realmente me preparar para a proficiência. Fiz a prova e, pela primeira vez na minha história de estudante, não estive entre as primeiras a terminar. Fiz tudo tranquilamente. De noite, quando peguei o resultado, meu nome não estava no nível que eu queria, mas conversei com algumas funcionárias da escola e elas me disseram para falar com o coordenador. Ok. Fui no outro dia cedo e conversei com ele. Muito simpático, apesar de ter criticado de forma meio humilhante meu texto, disse que eu deveria frequentar o nível B2.1 por dois dias e depois ele conversaria com os professores. Ok. 

Cheguei na turma e fui a maior tagarela de todos os tempos, não só porque eu estava tranquila quanto ao meu nível de conhecimento, mas também porque os outros falavam menos. Passaram-se os dois dias e o professor veio falar comigo ao fim da aula, ele não estava completamente convencido de que eu podia passar de nível. E, por mais que ele falasse isso simpaticamente, ao mesmo tempo que dizia que poderia aprovar a mudança de nível se eu me comprometesse a estudar em casa, quando me dei por conta eu estava chorando como uma condenada. Era simplesmente a gota d'água. E quando eu vi estava falando da morte do meu pai, de como não tinha conseguido me preparar para o curso como tinha planejado e sabe-se lá o que mais. Eu simplesmente não conseguia parar de chorar! Me despedi do professor e fui ao banheiro lavar o rosto. Na saída, encontrei o coordenador e quando eu vi recomecei a chorar (na verdade nem sei se eu tinha parado). Fomos para uma sala e expliquei que, na verdade, eu não sabia porque estava chorando, não tinha relação nenhuma com o curso, até porque eu iria para o nível que eu queria. O coordenador, coitado, não sabia o que dizer. Tentei justificar, dizer que talvez fosse porque pela primeira vez eu estava sozinha e, perto do meu irmão e da minha mãe, eu tentei me manter sob controle (em algum momento da minha vida, convenci a família toda de que eu resolvo tudo e aguento tudo - prova disso é que, no meu período de au pair, enquanto todos os alemães estavam apavorador por eu viajar sozinha, meus pais não estavam nem aí, achando a coisa mais normal do mundo). Aí o coordenador me disse: "Esse tempo ruim de Berlin também não ajuda, mas vá passear, conversar com pessoas". E eu tive que esclarecer que o problema não era Berlin, eu amo Berlin. Se havia um problema com Berlin talvez fosse que, inconscientemente, ela me lembrava meu pai e toda a minha infância ouvindo-o sonhar com a cidade e com a família alemã (ambas as coisas ele conheceu em 2013). Mas o problema mesmo, provavelmente, eu disse, era que eu não tinha me dado tempo para estar triste e o coordenador me disse uma coisa que, por mais óbvia que fosse, me aliviou por uns dias: "Você também é uma pessoa, não é de gelo."

Independentemente do que fosse dito eu continuava a chorar. Tanto é que no trem, de volta pra casa, uma senhora sentou ao meu lado e me deu paninhos de papel dizendo que entendia o que era ter dias assim e que às vezes o melhor era simplesmente chorar. Essa lógica junto com o comentário de uma amiga num post que fiz um dia após o velório do meu pai (ela disse "pare de se preocupar com os outros, se preocupe contigo" e demorei semanas para entender o que ela quis dizer), me fez perceber que o problema era mesmo o fato de eu não ter me dado o tempo que eu precisava para assimilar tudo isso. E quando eu digo 'tudo isso' não falo só da morte do meu pai. Em 2015, fui para a Alemanha visitar um senhor que estava muito doente - e ele faleceu um mês antes de eu chegar lá. No segundo semestre daquele ano, me reaproximei de um amigo virtual (tanto é que ele, o terrorista-mor, admitiu ter medo de mim) que me ajudou no projeto da monografia - e em fevereiro de 2016 ele faleceu. Resolvi visitar a filha dele no Recife e a amiga que me hospedou também perdeu um amigo nos dias que eu estava lá. Tentei consolá-la com minhas próprias perdas, algumas de anos antes, e passei as cinco horas de ida para Maceió chorando feito uma condenada. Pra completar, quando estava voltando para o RS, fiquei sabendo que o meu avô de coração tinha caído e quebrado o fêmur - claro que comecei a chorar feito uma louca e doze horas depois estava no hospital com ele. Tudo se resolveu bem, mas as complicações da Diabetes se ampliaram no fim do ano passado e passei muito tempo no hospital com ele. No fim do ano ainda tive que ouvir de um médico que o meu avô, pai da minha mãe, tinha possibilidade de ter câncer (não confirmamos, já que meu avô tem energia pra se rebelar e se negar a ficar no hospital pra fazer biópsia). Enfim, acho que exigi demais do meu emocional e do meu psicológico nesses últimos anos. O que me faz ter certeza que minha amiga está certa: me ocupo demais dos outros, tentando ajudar e mostrar que tá tudo bem, e me deixo pra depois (um depois que nunca chega). 

Mas aí eu tive quatro horas diárias de aula e elas me deixavam exausta demais para que eu me deixasse pensar sobre isso, que dirá me dar o direito de retomar a choradeira quando ninguém estava olhando. Nos fins de semana encontrei os parentes e me senti uma péssima convidada. Eu realmente estava exausta e, por mais que me esforçasse, não conseguia manter uma conversa sequer. No terceiro fim de semana fugi dos compromissos com parentes e fiquei batendo perna apresentando Berlin à uma amiga. Realmente andarilhar por aí sempre faz bem ao meu psicológico (parei de chorar depois de seguir o conselho do coordenador e passar umas horas andando por Berlin). Passar na prova do curso fez com que eu me sentisse um pouco menos fracassada. Mais de uma vez, durante aquele mês, me perguntei se realmente sou boa o suficiente para continuar dando aula de alemão, apesar dos meus amigos estarem convencidos de que em algum momento vou ter uma escola de alemão fabulosa. Nesses momentos tive que reconhecer que outra coisa me pesa muito: essa mania das pessoas de acreditar que eu sou capaz de tudo e, pior, de que eu sou capaz de fazer tudo otimamente bem. Eu sei, é ridículo, mas também é preocupante ver que os outros acreditam mais em tu do que tu mesma. Devia me animar, mas me assusta. 

Passei o último fim de semana com os parentes e todas as noites dormi umas 10 horas a fio - e mesmo assim continuava exausta. Minha última caminhada por Berlin foi em tom de obrigação para comprar as encomendas da minha mãe e outras coisas mais. Quando vi estava gastando uma nota em livros para dar aula em vez de me realizar comprando uma camiseta do Hertha. Pela terceira vez me prometi em vão fazer isso. E de novo eu investi mais nos outros do que em mim mesma. Também não fui no Museu da DDR, no qual eu tinha me prometido ir. A mulher do meu primo salvou minhas energias ao me levar à Spreewald, uma floresta com trilhas e rios lindos (sem fotos aqui porque esse post é de desabafo mesmo). Minha última parada seria na casa de uma amiga au pair, que tinha ficado na Alemanha e havia acabado de concluir o mestrado ali. Obviamente que esses anos da minha amiga não foram fáceis, mas ali estava ela, direcionada para algum lugar, enquanto eu percebia que estava completamente perdida e me perguntava o que havia feito nesses anos. A bem da verdade, estava ansiosa para voltar ao Brasil, apesar de só ter reencontrado e conhecido pessoas ótimas na Alemanha - como sempre. 

Eu estou de volta e, enquanto tento sorrir e dizer que a viagem foi boa, tento me lembrar do que me prometi fazer: me dar um tempo para fazer nada; parar de ficar correndo atrás de pessoas para marcar encontros e coisas assim; parar de tentar resolver tudo sempre; enfim, parar de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Não está sendo fácil, para não dizer que estou fracassando imensamente nisso. Mas, para não dizer que tudo tá horrível, fiz a prova de proficiência semana passada e acho que dessa vez eu não reprovo (passei a semana anterior à prova estudando como nunca, o curso em si não foi um bom preparativo). Obviamente que esse post não é motivador para ninguém, mas vocês precisam saber que eu preciso parar um pouco e não consigo - me obriguem! Vocês precisam saber que eu não consigo resolver tudo, apesar de querer e tentar. Mas, especialmente, vocês precisam saber que eu não tô na melhor das minhas fases, apesar de teimosa e inconscientemente tentar fazer isso passar batido. 

Não, não foi uma boa viagem, mas talvez uma viagem ruim seja necessária. Para mim foi. Eu só preciso ter a oportunidade de admitir isso - eis a razão desse post. 

P.S.: Talvez esse post devesse estar lá no Blogário, mas não acho legal tirar os posts empolgados da primeira vista, porque tem muita gente que vai lá atrás de orientações sobre au pair (também não sei a razão), então achei menos pior vir chorar as pitangas aqui, já que, por alguma razão, esse buraco na blogosfera ainda existe. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Das minhas aventuras no SUS

Ontem, às 7h, encarei a chuva que parecia ser eterna para, meia hora depois, estar sentada na sala de espera do setor de oncologia do hospital universitário da cidade. Estava ali porque seis meses antes convenci minha mãe contrariar sua própria vontade e a de seu irmão e não tirar meu avô da fila do SUS para uma tomografia. Os dois outros exames haviam mostrado nada e eu disse: Na hora que nos chamarem, vemos se fazemos ou não. No início de dezembro chamaram. Ninguém nem lembrou de questionar a necessidade do exame. Era preciso o número da carteira do SUS. Encarreguei meu tio de trazê-lo pra mim quando fosse visitar meu avô no fim de semana, no interior da cidade. Esqueceu. Minha mãe pediu mais uns dias de espera por telefone. Ok, depois do feriado. Veio o feriado, veio o número da carteira do SUS, fui marcar o exame. Ninguém pediu o número da carteira do SUS, estava na solicitação do exame. Estresse à toa. 

Chegou o dia do exame. Quando minha mãe chegou na casa do meu avô, ele já tinha ido embora. Antes que ela chegasse no hospital alguém ligava pra ela brigando. Onde já se viu um senhor de 83 anos chegar sozinho pra um exame? Calma, estou chegando. Pensa pelo lado positivo: Quantos senhores de 83 anos saem tranquilamente sozinhos pra ir fazer um exame? Ele nem precisa de mim, isso não é bom? Ânimos acalmados. Exame feito. Duas semanas depois eu vou buscar o exame. Por que a gente foi fazer, disse o doutor quando eu mostrei a ele três dias depois, se não fizéssemos não teríamos encontrado nada. Encontraram um nódulo de três centímetros próximo do pulmão direito. Ele fumava? Parou há mais de 40 anos. Pra mim ele disse que nunca fumou. Sabe-se lá. Pode ser câncer, conversem pra ver se querem mesmo seguir o tratamento, na idade dele tudo é mais difícil. 

Conversamos no Natal. Fala tu pra ele, Ana, tu é mais calma. Eu! Calma! Justo eu que comecei a chorar feito uma desesperada ao saber da possibilidade de câncer. Já não basta a maldição do câncer nos Seerigs? Tem que ter do lado materno também? Mas ok, eu falo. Falei. Vô, pode ser câncer, mas pra termos certeza teremos que fazer uma biópsia. Se tu quiser solicitar a consulta com o especialista, estes são os papéis. Leva no posto de saúde do distrito e manda me ligarem. Tu não vai, vou eu. Entendeu. TU NÃO VAI. Mas pode ser só uma consequência de quando ele quebrou as costelas, disse meu tio. Vamos nos apegar a essa esperança. Vô, tu entendeu que é pra mandar me ligar? Entendeu. 

No dia 2 de janeiro me ligam às 8h. A consulta é dia 10, ele tem que buscar o papel aqui até dia 4. Ok. Vamos ao desafio de avisar ele disso. Maldito telefone celular que nunca pega no meio do mato! Um viva pra tecnologia e pra memória do meu tio. Pede pra Priscila avisar. Pedido feito e respondido via messenger. Resolvido. No dia seguinte viajei e e durante a semana meu vô passou o dia me ligando. Tem certeza que não quer que eu vá? Tu vai mesmo? Sim, vou. É só me mandar o papel pelo tio. Tem certeza? Sim, tenho. E é por isso que eu estava ontem às 7h30 no setor de oncologia do hospital universitário. Já imaginou ele sair de casa às 6h da manhã no meio daquela chuva toda no meio do mato? Espero que tenha dormido por mim. 

Quem é você? Neta. Tem o documento? Tenho os números da identidade, CPF e do cartão do SUS. E o documento com foto? Não tenho. Não sei se vai poder ser atendida, preciso da autorização da coordenação. Aguarde. A coordenadora de enfermagem (que é minha vizinha - não sei se há relação nisso, não pedi nada) liberou. Na próxima tem que trazer o documento dele. Ok, se houver próxima vez ele mesmo virá, pensei. Às 8h30 fui chamada. Ou melhor, o Sebastião foi chamado. Me olharam torto. Expliquei a situação. É meu avô, quero mostrar o exame e saber as alternativas pra explicar pro resto da família. Ok. 

Vieram às perguntas. Fuma? Não, parou há 40 anos (confirmei, ele fumou mesmo e mentiu pro médico). Toma remédios? Pra nada. Sente dor? Não. Fez cirurgia? De catarata, há mais de dez anos. Estado civil? Viúvo. Tem certeza? Tenho. (Nunca conheci minha avó, então sim, acredito que ele seja viúvo, a menos que tenham me mentido a vida toda,) Razão do exame? A enfermeira da Unidade Básica estava há anos preocupada com uma pequena anemia. Depois de ser chamada de louca e chata umas quantas vezes, ela decidiu marcar um especialista. Descobrimos anemia de B12. Tratamento feito e exames pedido. Aí está. Ok. O doutor não chegou. Te chamamos quando ele chegar.

Sebastião. Lá fui eu de novo. Logo entra o doutor seguido de dois, mais as duas gurias que estavam na sala, mais uma que chegou atrasada. O Plantão Médico não era exagerado, afinal de contas. O doutor olha a tomografia depois de ouvir um resumão que a guria que me entrevistou fez. Consultou os universitários (de verdade). Ele não sente dor? Não. Ele tá tão bem que até resolveu plantar milho, sabe-se lá porquê, mas ele resolveu plantar milho! E é por isso que a gente tem receio de tirar ele da vida no campo e meter ele num hospital. Ok, eu não falei assim, mas podia ter sido. E essas lesões? Ele quebrou três costelas em março de 2015 quando subiu no sótão e as madeiras podres cederam. Passou seis meses ruim (e brigando com as pessoas, cá entre nós), mas agora não reclama de dor. Fala o doutor.

Pode ser algo em relação à esse acidente. Só uma biópsia vai mostrar. Se for câncer, está no começo e podemos tirar sem complicações. Como é essa biópsia? Anestesia geral? Sim e ele tem que ficar internado. Na minha opinião, tu tem que trazer esse rapaz pra nós. O procedimento é com laser e blábláblá (não entendi muito mais). Ufa, pode mesmo não ser nada. Ok, obrigada. Levanta-se o doutor e sai com dois da sua comitiva. Era tanta gente saindo que eu me perguntei se tinha que sair junto. Por via das dúvidas fiquei ali mesmo. Três moças agora se encarregavam da ordem. Qual era mesmo o nome do exame? Tomo ou tomate? Definitivamente ele disse tomate (ou algo parecido e mais comprido). Ok. Telefones pra contato? Está mais tranquila? É, pode não ser nada. É rápido pra liberar o exame, questão de dias. É só levar no Postão no segundo andar e... Não é o terceiro? É acho que é. Vai ali na recepção e te explicam e carimbam pra ti. Fui. É só levar no Postão. E o carimbo? Lá eles carimbam. 

Hoje fui no Postão. Não sei que horas cheguei (depois descobri que foi antes das 15h, já que eles só liberavam senhas até essa hora). Me deram a senha 86, estava na 34. Viva o Resende na minha bolsa. Li de pé por falta de lugar pra sentar. "Que é que, querendo, a gente faz na vida? Por mim digo que só fiz o que não quis; e poucas vezes quis o que fiz?", li eu no texto Poeira sonâmbula sobre Rosário Fusco. Quem sou eu pra contradizer Otto Lara Resende? Lá num cantinho eu poderia sentar no chão e ler tranquilamente. Espero mais um pouco. Terminei o texto, postei outra frase bonita do Resende no Facebook e garimpei uma cadeira pra sentar. Pronto, resolvido. Posso esperar os 50 na minha frente serem chamados. 

"Não leia demais aí." Era uma colega do magistério que há tempos não via. Quando vamos tomar uma cerveja? Ora, é só marcar. Todo mundo me cobra, mas ninguém marca. Me chama quer estarei lá. Mais um pouco de Resende. Helena Antipoff, "Conseguiu liberar o exame?" Alguém, em pé, passando pela minha frente, tocava no meu joelho. Era o médico. Aquele mesmo que no dia anterior tinha quatro sombras, opa, cinco sombras quando me atendeu. Como ele lembrou de mim? Mal eu lembrei dele! Antes que eu assimilasse e respondesse que havia 50 na minha frente, ele seguiu uma mulher pra dentro de uma salinha. Foi estranho não ver ninguém seguindo-o. Quase inacreditável na verdade. Mais um pouco de Resende. A sala foi esvaziando. Quase lá. 84. 85. 86. Entrego os papéis. Grampeia aqui, digita ali, preenche uma folhinha. 

Volte dia 18. 

domingo, 6 de novembro de 2016

Sobre a minha solteirice

Faz tempo que penso em escrever sobre isso, mas fui deixando pra lá porque ando meio que de saco cheio do Facebook, onde as pessoas leem o que escrevo e acham que sabe tudo sobre mim sem ao menos se prestarem a falarem comigo de fato. Até poderia postar no Facebook pós-divisão dos amigos em grupos, mas não sei se faria muita diferença. Melhor resgatar o blog pra isso, já que as pessoas parecem ter mais dificuldade de acessar um link do que ler no Facebook mesmo. Enfim, hoje me inspirei pra vir aqui escrever porque a Aleska me mostrou esse post do Buzzfeed. Então vamos lá. 

Quando eu digo que sou solteira, as pessoas tem três reações claras.

1. Tapinha nas costas: "Não se preocupe, uma hora aparece o cara certo pra ti."

2. Solteira convicta: "Tu não tem ninguém porque não quer. Garanto que tem um monte de pretendentes atrás de ti."

3. Tá certo: "Isso aí, tu tem mesmo que se dedicar ao trabalho e aos estudos. Tem a vida inteira pra se incomodar com homem. Boa escolha."

Minhas respostas mentais:

1. "Eu não estou preocupada."

2. "Tô cheia de pretendentes? Onde? Tudo bem que sou péssima em perceber segundas intenções, mas acho que o problema é que vocês acham que meus amigos tem uma queda por mim. Não. Meus amigos são meus amigos, não meus pretendentes."

3. "Não escolhi nada. Não priorizo nada. Só não vivo desesperada atrás de homem/companhia. Não é como se eu tivesse chutando homem a torto e a direito por causa da faculdade. Aliás, eu não dispenso nada por causa da faculdade. Há fases e fases da vida e, se eu tô só trabalhando e estudando sem estar desesperada para arrumar um namorado com quem postar fotos no Facebook é porque simplesmente tenho trabalho, faculdade e nenhum relacionamento em vista. Acaso, não autoimposição."

Como eu gostaria que reagissem quando eu digo que sou solteira? Do mesmo modo que eu reajo quando me dizem que tem namorado ou equivalente: "Hmmmm, tá." e aí passar pra qualquer assunto mais relevante do que o estado civil da pessoa no Facebook. 

Uma forma que encontrei de não me incomodar de fato com essas reações toscas sobre a minha solteirice foi simplesmente avacalhar as pessoas que se desesperam com ela. Por exemplo: aqui na minha não-ditatorial família, meu pai proibiu namoro antes dos 18 anos. Minha excelentíssima irmã mais velha começou a insistir pra mudança de regra aos 15, sem sucesso. Eu fiz 15, fiz 16 e meu pai se preocupou. "Agora que tu tem quase 17 pode namorar". Nada. A única coisa que ele conseguiu foi afinar minha avacalhação com o tema. 

"Quem era no telefone?" "Meu namorado."

"Onde tu estava?" "Me agarrando com o meu namorado."

"Com quem tu vai sair hoje?" "Com um dos meus candidatos a namorado."

"Nossa, que humor é esse? Brigou com o namorado?" "Adivinhou."

"Tu vai passar a noite na casa de quem mesmo?" "Do meu namorado."

"Mas realmente não tem candidato nenhum?" "Não, não encontrei nenhuma vítima merecedora desse carma."

E assim por diante. Ás vezes tem umas conversas tão bizarras em torno do tema que registro no Facebook. Ou pelo menos até alguém entender isso como "desespero, modo de chamar atenção, carência" e blábláblá. 

Eu avacalho esse assunto desde meus 15 anos e agora as pessoas vem me dizer que é maneira de chamar atenção? Até fiquei um bom tempo sem fazer esses registros no Facebook. Mas, ó, se vocês chegarem aqui em casa, vão me ver falando do tema das maneiras mais irônicas possíveis - e todo mundo aqui entende que é ironia. Aliás, tô tão acostumada a cortar o interrogatório alheio com "meu namorado" que tive que me controlar pra não fazer isso na frente de outras pessoas, porque elas realmente levam a sério e não notam que é avacalhação. 

A razão de eu não ter registrado tudo isso antes é, provavelmente, a certeza de que vão achar que é drama desnecessário, mas realmente às vezes fico de saco cheio dessa história. Felizmente as pessoas não começaram a me empurrar pra ninguém e, quando ameaçaram fazer isso, eu ridicularizei tanto a hipótese que deram pra trás. 

Já falei isso antes aqui no blog e nas entrelinhas acima, mas pra deixar claro: não sou solteira convicta, apenas não sou uma solteira desesperada. Fico feliz por ter uma lista de amigos e não de ex-namorados. E não é porque eu não falo aos quatro ventos e mudo status do Facebook que eu não tenho rolos. Mas acabam sendo rolos e, enquanto nenhum deles der certo de fato, não vejo razão pra espalhar pra Deus e o mundo. Aliás, acho que vocês andam se amando e se desamando rápido demais. O que me assusta é vocês acharem que isso é normal e eu que sou problemática. A minha teoria é que vocês mesmos não se aguentam. 

Há uns meses atrás me assustei ao ver que um amigo tava namorando uma guria há alguns meses e praticamente moravam juntos: uma semana na casa dos pais dele, outra semana na casa dos pais dela. Nem um ano e já tinham anel de compromisso. Lindo e maravilhoso na teoria, mas vendo os dois juntos não me convenci nem um pouco. No mesmo dia descobri que um cara que eu jurava que era solteiro no fim do ano passado, casou - sendo que esse sim eu ouvia dizer que era solteiro convicto. Realmente espero que ele esteja feliz, mas não consigo acreditar nisso, já que ele volta e meia ressurge pra conversar comigo (antigo rolo, que, na real, nunca entendi porque não deu certo). Se recém casou, não devia estar se ocupando 24 horas por dia em vez de se ocupar em lembrar da minha existência?

Mas o que me incomoda mortalmente é ver amigas/os sumirem em função de namoro e só aparecerem pra falar comigo quando estão de saco cheio do relacionamento e querem um incentivo pra terminar ou mesmo depois de terminado e querem alguém solteiro com quem 'aproveitar a solteirice' (que não vai durar meio ano, no geral) e beber cerveja. De verdade, nunca me importei de sair com casais, mas às vezes enche o saco ser lembrada apenas para ir no show do namorado e, mais que isso, ver as amigas acharem impossível marcar qualquer coisa sem eles. Menos gente, né?

Aliás, acho que no dia que eu namorar o que eu mais vou evitar fazer é arrastar namorado pra lá e pra cá meramente pra mostrar pra todo mundo que a gente se ama e não vive longe um do outro. Não, né? Cada um com sua vida, seus amigos. Depois o namoro não dá certo e não se sabe o que aconteceu com as amizades. Mas especialmente porque, no dia que eu tiver um relacionamento, quero que ele corra a rota mais natural possível, sem obrigações e expectativas, mas com o mínimo de respeito e confiança pela vida pré-namoro do outro. Sem formalidades e anúncio pra família toda - além do Facebook. 

Ah, enfim, isso tudo é conversa fiada de quem, de novo, tenta entender qual é o grande problema de se estar solteira. Acho que se ocupariam menos de mim se eu tivesse três filhos aos 24 anos, né? Menos, gente, beeem menos.  

domingo, 4 de setembro de 2016

Sobre minha ida ao outro canto do país

Ontem fez um mês que voltei das longínquas terras do Nordeste (sim, atravessar o país não exige tanto tempo quanto atravessar o Atlântico, mas enfim), onde a Jaci me cobrou um post sobre a viagem no Blogário - o qual resolvi manter só pra Alemanha, sem falar que eu a conheci por aqui, então nada mais justo do que colocar as narrativas nesse canto obscuro da blogosfera (meu apelido carinhoso pra esse blog). Pensei mil vezes sobre fazer ou não este post e, num fim de semana úmido de Caxias, resolvi abri a erva argentina traficada de Recife e, ao som de Bowie, escrever sobre meus dias em Recife e Maceió. É algo que fará bem a mim e, espero, às pessoas queridas que lá me receberam. Gurias, entendam em cada palavra daqui o meu muito obrigada por tudo - a vocês e suas famílias. 

Saí às 7h do dia 19/07 de uma Caxias do Sul onde os termômetros marcavam UM GRAU. O efeito cebola ocorreu, claro, já em São Paulo (num aeroporto de Guarulhos onde eles cobram a alma só pra tu sentir o cheiro da comida, que dirá comer), mas ao chegar nO Recife (porque Recife é masculino, apesar das minhas anfitriãs não souberem me confirmar isso assim que cheguei) sai de arrasto até chegar ao carro e começar a tirar meia e todo o mais que fosse possível enfiar na mochila. Estavam DEZENOVE GRAUS e as pessoas queriam que eu acreditasse que era inverno. Aliás, segundo a Jaci era temperatura pra dar banho de água quente nas crianças da creche (ou seja, as crianças do RS jamais tomariam banho se dependesse dela) e mesmo a Alice estava de blusão (!!!!). Obviamente que todo o bullying que eu pratiquei em razão do 'frio' nordestino foi retribuído com 'tu reluz luz de tão branca que é'

Minha estadia em Recife foi dividida pela Alice e pela Jaci, começando por esta segunda. As duas me buscaram no aeroporto e logo de primeira descobri dos tubarões de Boa Vista (que atacam turistas porque os recifenses não os alimentam direito e não porque tenham acabado com o habitat natural dele em prol de um shopping), mas a grande descoberta mesmo foi: Náutico é a palavra-chave para fazer uma torcedora do Santa Cruz e uma torcedora do Sport pararem de discutir. Aliás, em um dia fui abençoada como torcedora do Sport e no outro me levaram às Repúblicas Independentes do Arruda, coroando a visita com uma camiseta que nem a própria torcedora tem - tudo para convocar um novo elemento pra torcida. 

Bom, mas vou tentar ser cronológica - se bem que detalhes em demasia tornarão esse post impossível de ler, então vou me controlar. Minha primeira parada foi na casa da Jaci, onde chegamos após a Alice completar com sucesso o desafio de subir o ponto mais alto de Recife (do qual não tenho foto porque minha anfitriã do morro não se animou a subir a escadaria durante o dia - escadaria fantástica, por sinal) e, assim, conquistar aprovação para vir dirigir em Caxias. A Jaci estava ansiosa para que eu chegasse por uma razão: o pai dela (um querido!) fez todas as reformas possíveis na casa (incluindo pintar de branco uma porta branca e trocar lajotas quebradas do chão que eu nem reparei) porque achou que, sendo eu do Sul, seria uma pessoa muito fina que repararia em cada detalhe. Só que não, claro. A verdade é que eles deviam estar esperando uma Gisele Bündchen e chegou lá uma gaúcha completamente fracassada: não fui nem Rainha da Festa da Uva, nem Garota Verão, nem Miss RS, que dirá Miss Brasil. Em vez disso chegou uma guria que espiritualmente é um guri, mas a Jaci tentou alertar seu pai sobre isso, mas não foi ouvida, o que resultou em mil reformas que quase a enlouqueceram (mas deixaram a mãe dela muito feliz). 

Trafiquei pra lá três garrafas de um litro e meio de suco integral de uva (foi tráfico mesmo, menti descaradamente no aeroporto que não tinha nada de vidro/líquido na minha mala), schmier/chimia, CDs e livros (fiz um kit lindo 'para agauchar pernambucanas', o que soou ofensivo pra Jaci, já que o ego pernambucano é QUASE tão grande quanto o gaúcho), o que serviu pra retribuir um pouco da atenção e ocupação que as pessoas tiveram em me receber. Cheguei à noite e, no dia seguinte, eu e a Jaci fomos no Museu do Homem do Nordeste e no Instituto Ricardo Brennand (que, segundo a Jaci, é o cara que nós duas seríamos se tivéssemos dinheiro - mas com livros, provavelmente). 

No segundo dia fomos na Livraria Cultura pra encontrar a Alice (com quem eu passaria alguns dias). No caminho, no ônibus, eu de mochila e uma sacola com os devidos presentes pra Alice (kit de agauchar e suco de uva). Um rapaz, muito gentil, se oferece pra segurar minha sacola (Recife um, Caxias zero - isso raramente acontece aqui) e, quando a pega, pergunta: "Não tem nada que explode aqui, né?". Podia ser mentira, mas não é. Pura verdade. Minha fama chegou até lá e a Jaci vai contar essa história até o fim dos dias. É a prova máxima, segundo ela, de que sou um ser que promove terror por onde passa. 

Como a nosso ponto de encontro estava fechado, fomos à Capela Dourada e, depois, voltamos à Livraria Cultura, onde não resisti a comprar umas coisitas, enquanto a Jaci jogava na minha cara livros do Dumas de capa dura e tentava tirar fotos minhas pro instagram da Estante, e a Alice me mostrava Bowie por todo lado - elas são muito, muito más. Nos despedimos da Jaci e eu e a Alice demos uma volta por Recife Antigo, fomos ao Marco Zero (que, segundo os recifenses, é onde começa o mundo - mas NÃO, todo mundo sabe que começa no RS) e acabamos assim os dias turísticos que eu tive em Recife. A sexta começou com chimarrão de erva argentina (herança do Tiago), seguida de uma aventura de ônibus a Paulista, na casa da mãe da Alice. De noite, junto com a Suzana, amiga da Alice, fizemos a devida comemoração da minha monografia e da entrada no mestrado da Alice. Como? Cerveja, claro! E batata-frita (que, descobri há pouco que ficou como meu prato de comida registrado em Recife). Não vou entrar em detalhes de quantas cervejas tomamos, do lanche pedido à uma da manhã e do sono eterno das três pra não ficar feio. 

No sábado, voltei a encontrar a Jaci e sua família linda pra irmos a Igarassu, local do primeiro povoado brasileiro (por isso que os pernambucanos acham que o mundo começa lá, mas é pura ilusão), que logo terá a residência oficial da família Clemente. Como a Jaci havia feito no Museu do Homem do Nordeste, ela ficou tri amiga do nosso guia na Igreja de Santo Antônio. (Aliás, entre parênteses, ela ficou tri deprimida por ter conversado pouco com a guia da Capela Dourada.) Definitivamente ela é a evangélica com mais santos de devoção da história da humanidade, mas não divulguem isso pra ninguém, fica só entre nós. Já o domingo foi a minha oportunidade de agauchar a casa da família Clemente (claro, só estava a Jaci em casa, então ficou mais fácil a realização desse plano maquiavélico). Descobri que a Jaci tinha uma erva mate vencida há mais de um ano e fiz ela descobrir a poesia de José Mendes ("Quem apaga o próprio rastro acaba sempre sozinho", de Andarengo), depois disso fomos a Olinda - onde a Jaci também virou BFF do guia e confessou mais alguns santos de devoção. 

(Acabou Bowie e agora estou ao som de José Mendes

Na segunda nos aventuramos pelos memorias de Chico Science e Luiz Gonzaga. No primeiro, fomos atendidas pelo não-guia João (que é amigo da Suzana amiga da Alice, ou seja, Recife é um ovo) e a Jaci trocou figurinhas sobre mangás e quadrinhos, antes dela deduzir que ele era tão sem coração quanto eu. Ou seja, a parte mais legal, de novo, foi os papos dela com o não-guia do memorial. Já no museu do Luiz Gonzaga, eu é que fiquei divagando com o guia, falando sobre como Carlos Imperial trovou o mundo afirmando que os Beatles tinham gravado "Asa branca" e passei as devidas referências a ele, ou seja, a biografia e o documentário sobre Imperial. Depois fomos a algumas igrejas (onde fui confundida com uma alemã por estar usando uma camiseta da DFB), sendo que no meio do caminho surtei pelos LPs a três pila que estavam vendendo na rua, mesmo eu não sendo colecionadora, mas pensando nos amigos colecionadores (Blue, VÁ A RECIFE - e com a mala vazia). 

Na terça acordamos com uma notícia muito ruim. O Renato, amigo-irmão do Júnior, da Jaci e do Rafaela, faleceu no hospital. Me senti sem ação e uma intrusa por estar ali num momento tão difícil pra família. Nunca sabemos o que falar nessas horas, então o que fiz foi afirmar e reafirmar que o importante eram os bons momentos e boas memórias que todos tinham dele. Conversei sobre minhas próprias perdas e o lamento de, na maioria das vezes, não ter tido a chance de usufruir de um momento a mais com muitas pessoas queridas que passaram pelo meu caminho. Era dia de eu embarcar para Maceió e foi inevitável, durante a viagem, pensar no Tiago e admitir o sentimento de vazio por estar ali e não ter a chance de encontrá-lo, muito semelhante ao que senti ano passado ao ir pra Alemanha

Vamos começar do início. Quando conheci a Jaci, ela inúmeras vezes me falou do professor gaúcho dela, o qual, inevitavelmente, me apresentou. Tiago, gaúcho e gremista, foi a razão pra eu tirar fotos de todas as cervejas que bebia na Alemanha ano passado; foi um professor à distância no Facebook (sem saber) e o cara que deu o aval para o meu projeto de monografia (o qual valeu muito mais do que o do meu orientador, não foi à toa que dediquei a ele o resultado final). Além disso, era o cara que mais me dava medo virtualmente e que, pra meu espanto, admitiu ter medo de mim. Infelizmente jamais tivemos chance de nos encontrarmos pessoalmente (apesar de anos de contato virtual) e, quando ele faleceu no início do ano, me senti na obrigação de ir até Recife e me certificar que sua filha (Alice) estava bem. Ou seja, ao contrário do que aconteceu na Alemanha, comprei a passagem sabendo que a capital pernambucana me receberia com uma pessoa a menos, mas isso não fez com que eu sentisse menos essa ausência. Eis algo que não contei, então, para minhas anfitriãs: chorei em boa parte da ida a Maceió. Achei que enganei bem, mas depois a Erica me disse que eu parecia ausente em boa parte da estadia em Maceió. Após a leitura desse post, saberei se isso também foi sentido por minhas anfitriãs em Recife. 

Mas enfim, seguimos adiante. Em Maceió, peguei um mapa assim que cheguei e fui tentar me passar por alagoana pra não ser trovada pelo taxista ao ir encontrar a Erica, que estava aguardando pra ser atendida em uma consulta. Fomos direto pra casa dela, onde fui recebida por sua querida mãe que, como o resto da família, só me chamava de Seerig (o que achei lindo), só a Erica, que lançou essa moda, me chamava de Ana (o que me arrepiava de medo) por puro receio de errar a pronúncia - mas todo mundo tava falando certinho, com aquele sotaque lindo. Na quarta, fomos ao Museu Palácio Floriano Peixoto, onde tinha um pequeno memorial ao Aurélio Buarque de Hollanda, no qual descobriu que ele, na década de 40, estudou a obra do gaúcho João Simões Lopes Neto, ou seja, agora sou devota dele e só compro Aurélio. Depois fomos à praia de Ponta Verde (lugar feíssimo) e comemos um doce de banana frita - que os nordestino adoram (que era ruinsíssimo). Na quinta fomos à Biblioteca Estadual Graciliano Ramos - um lugar lindo - e fomos andar de jangada em Ponta Verde até as piscinas naturais. Na sexta ficamos em casa, já que a Ferro tinha uma dúzia de postais pra escrever aos caxienses que a receberam aqui e dedicatórias a fazer pros livros que eu ia fretar pra Jaci, além dos que ela me deu. Felizmente tinha comprado duas bolsas lá, o que ajudou na missão de traficar tudo pra Pernambuco. De tarde, peguei o ônibus rumo a Recife, mas dessa vez não houve oportunidade de chorar. 

Ao meu lado no ônibus sentou uma guria de uns dez anos, cujo nome era bonito, indígena, mas minha memória não guardou. Em uma hora ela já dizia pra mãe dela que tínhamos muita coisa em comum. Demorei pra entender quais coisas eram mas aos poucos lembrei: ambas ouvimos Rodolfo Abrantes (eu na fase Raimundos, ela na fase de rock gospel) e nenhuma consegue dormir no ônibus, sem falar que ela sabia tudo de gauchês, já que um programa de TV ensinou algumas palavras a ela. Durante a viagem me ofereceu seus lanches e, como fazia cara de ofendida quando eu não aceitava, tive que aceitar. Ela desembarcou no aeroporto de Recife, pedindo a mãe dela porque não podiam me levar junto e lamentando o fato da câmera de celular não funcionar para tirar uma foto comigo, especialmente, acho eu, porque uma das primeiras afirmações dela sobre mim foi: "Gostei de você, você é bonita". Toda essa queridice animou minha longa viagem a Recife. 

Quem me buscou na rodoviária foi a Alice, a qual, no dia seguinte, realizou um "churrasco" (entre aspas, porque né, a intenção foi boa, mas churrasco pra gaúcho é outra coisa) com os amigos dela. Minha colaboração maior foi ajudar a acender e reacender a churrasqueira, ao menos assim eu provei não ser uma gaúcha totalmente fracassada. Só um fato não entendi: a razão da Alice receber o primeiro dos visitantes dela com: "Olha, não compete com essa daí não pra tomar cerveja que tu vai perder. Ela bebe, bebe e não fica bêbada." A única coisa que conclui disso é que realmente consigo esconder bem quando estou bêbada (menos pra Tamara). Outro amigo dela me pediu se eu conhecia Júpiter Maçã e, coitado, teve que ouvir um monólogo de vinte minutos sobre toda a trajetória do Flavio Basso. Fiquei com pena dele, mas não parece ter levado a mal, já que me batizou como torcedora do Sport. 

No domingo fomos mais uma vez visitar a mãe da Alice. Ela queria muito me levar à praia (acho que por causa do meu bronze de alemoa) e acabamos no Mangue Seco (onde o irmão da Jaci disse que eu jamais deveria ir, mas eu sou eternamente do contra e eternamente a favor de ir onde me levam). Segundo a Alice, a experiência mais não-turística de todas, praticamente virei pernambucana. Comemos espetinho de peixe (cujo nome não lembro) e batata-frita (CLARO), enquanto tomávamos o bom e velho Guaraná e víamos a maré subir (uma aventura). À noite, comemos açaí (outra das missões autoimpostas da mãe da Alice) e elas me levaram pra casa da Jaci (ou seja, mais uma vez a Alice provou estar pronta pra dirigir em Caxias). 

Na segunda, o pai da Jaci me levou às Repúblicas Independentes do Arruda, me anunciando como gremista às vésperas de Santa Cruz x Grêmio, ou seja, pedi pra ele não propagar muito isso. O estádio é e-nor-me e quase deu vergonha de ter levado a Jaci ver o Alfredo Jaconi. Depois ela insistiu em me dar uma camiseta do Santa. Como não tinha a 'da fita azul', cuja última do estoque tinha sido vendida mais cedo naquele dia, ela se satisfez em me dar uma do tricampeonato. Como não poderia deixar de ser, vesti a camiseta e tirei a devida foto na frente do estádio - a qual, tenho certeza, a Jaci concordaria que deveria ser transformada em um quadro enorme. 

Na terça a Jaci voltou a trabalhar - depois de eu ajudá-la a bolar alguma ideia maluca pra desenvolver em aula - e eu fiquei em casa difamando ela com o resto da família. À tarde, fomos encontrar o Alexandre, outro colunista da Estante, que também me presenteou com livros lindos, e foi a segunda testemunha do meu quase-ataque-cardíaco por encontrar, na mesma loja, a biografia do Einstein sendo vendida por 50 pila, enquanto um box com a mesma biografia mais a biografia do Chaplin era vendida por 40 - OBVIAMENTE eu fui obrigada a comprar e, ao chegar na casa da Jaci, aumentar o desafio de fazer a mala não pesar 50 kilos (solução: colocar 90% dos livros na mochila - operei um milagre). 

(Voltei a ouvir Bowie, mesmo álbum.)

Na quarta meu voo, SUPOSTAMENTE, era às 6h55, o que exigiu que eu fizesse metade da família acordar às 4h (inclusive a Jaci, o que foi outro milagre realizado por mim). Por problemas técnicos, o voo só saiu às 10h e, como tinha pausa em Salvador, não cheguei em São Paulo antes de 14h30 (que era a hora que eu devia estar chegando em Porto Alegre). Chegando lá, ao entrar em contato com minha mãe pra me certificar que ela e meu pai não estavam me esperando à toa na capital gaúcha, descobri que meu avô de coração, de 81 anos, tinha caído e quebrado o fêmur na segunda e estava em cirurgia. Ou seja, meu emocional voltou a entrar em pane e meu humor e paciência chegaram a zero. Cheguei em Porto Alegre desesperada para chegar na rodoviária e, no meio disso, acabei tornando a Erica, a Jaci e a Tita vítimas de um desabafo emocional terrível - o que fez um terço do grupo ficar ofendido comigo enquanto os outros dois terços sentiram minha angústia e preocupação, agradeço a essa maioria. Fiz uma corrida imensa e bizarra na rodoviária, mas tive sorte de conseguir um ônibus semi-direto para logo. Cheguei em Caxias às 22h30, depois de ter chorado violentamente durante metade da viagem. 

No dia seguinte, às 10h, já estava no hospital com meu avô de coração e, até domingo, quando ele foi liberado, meus dias foram corridos e exaustivos. Demorei algum tempo pra assimilar tudo isso, por isso esse post é tão tardio. Mais uma vez, muitíssimo obrigada a todas as pessoas queridas que encontrei no eixo Recife-Maceió, mas especialmente as minhas magníficas anfitriãs Jaci, Alice e Erica. A cada uma:

Jaci: Obrigada pelo livros (especialmente por Grimms ilustrados com xilogravuras), pelos passeios e por toda a boa recepção da tua família linda. Vocês serão eternamente o exemplo de família tradicional pernambucana e, mais que isso, das gentilezas e boas receptividades do povo daí. Mas especialmente obrigada por me apresentar o Tiago e, consequentemente, a Alice. O mundo virtual é, sem dúvida, um lugar maravilhoso e todos os dias agradeço a ele pelas pessoas que me apresentou. Aguardo teu retorno às geladas terras do sul. 

Alice: Sinto o orgulho do Tiago por ti e não tenho palavras pra agradecer todas as gentilezas tuas para com uma pessoa que tu conhece há tão pouco tempo. É impossível descrever o prazer que foi te conhecer e, mais que isso, receber das tuas mãos livros que estiveram na estante do Tiago. Muito, muito obrigada. Aguardo tu e tua família aqui!

Ferro: Tu é a menos bairrista de todas, já que conhece tanto de Maceió quanto eu - pra não dizer que tu te obrigou a conhecer a cidade por mim. Obrigada por isso! Agradeça a tua mãe e teu irmão pela boa receptividade e relembre eles que, sempre que necessário, podem contar comigo pra te xingar! Obrigada pelos inúmeros livros e pelas dedicatórias. Te manterei informada quanto às minhas leituras. Marque logo a data de volta ao RS pra eu começar a estocar suco de uva! 

Pra fechar (depois de duas horas e meia escrevendo), vamos às fotos como parabenização aos corajosos que chegaram até aqui:

No Museu do Homem do Nordeste

Ego pernambucano faz guardar o apito do milésimo gol do Pelé no museu


Quem está no Brennand: Napoleão,..

... Da Vinci...

.... o Divino Espírito Santo...

... Dom Quixote e...

... o Davi de Michelângelo. 

A partir dessa placa tem tudo, até cervos e gamos, como diz a Jaci. 

Quem entrou numa exposição de arte e correu ao ver a imagem embaçada de RC cantando "Quando" no filme de 68?

O caminho pra Recife Antigo. 

SUPOSTAMENTE, onde o mundo começa

Claro que Chico Science está presente!

Uma das inúmeras pontes de Recife.

Foto obrigatória de duas pessoas que evitam fotos.

Não passei sede. 

Não encontro erva argentina em Caxias, mas em Recife sim (a do fundo veio pra cá!)

Comemorações acadêmicas com Alice e Suzana. 


O primeiro povoado brasileiro. 

Foto péssima, Olinda linda. 

Nas ruas de Olinda.


Onde Alceu toca de graça no carnaval. 

É Julho? Todo dia é dia de ensaiar pro carnaval.

Os presentes que me aguardavam em Maceió.

Foto para não esquecer de qual livro comprar. 

Simões Lopes Neto na linha do tempo do Aurélio.

A entrada do Palácio Floriano Peixoto

Ponta Verde sua feia - de águas que causam inveja aos gaúchos

Seerig e Ferro lindas e charmosas em Ponta Verde


Doce horrível de banana [ironia]





Jangada em Ponta Verde, Maceió. 

Os livros que a Alice me deu da estante do Tiago <3 td="">

Açaí! (Ótimo!)

Selfie no Arruda!

A foto que a Jaci tirou com mais orgulho
Compras literárias e capuccino na companhia do Alexandre. 

Os pais tri queridos da Jaci e eu me levando pro aeroporto de madrugada

Acreditem, todos esses livros estavam na mochila na volta. TODOS!

Os livros que vieram de lá. Só comprei os que estão de pé, o resto foi presente!