sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Observações

Por alguma razão, resolveu parar ali mesmo. Estava à caminho de alguma reunião importante, mas, então, como se alguém lhe sugerisse ao ouvido, decidiu parar para observar o que acontecia ao seu redor. Caminhava tão depressa e parou tão subitamente que, as pessoas que estavam logo atrás, esbarraram nele e algumas até murmuraram coisas que seriam melhor não serem ouvidas.
Depois de ter se tornado apenas um impecílio no caminho dos transeuntes, uma barreira a ser desviada, finalmente lembrou o que o fizera parar: o desejo de, por um momento, ser apenas um observador do mundo, sem função nem compromisso. Esqueceu-se do prejuízo que o atraso no compromisso lhe traria. Que fossem todos para o espaço! Há quanto tempo não parava de correr de um lado a outro? Há quanto tempo tinha se transformado num desses que se preocupa apenas com o trabalho? Há quanto tempo esquecera de sim mesmo?
Deu uma olhada geral ao seu redor. Estava no centro de uma praça. 'Uma' praça. Parecia não reconhecer nada, parecia tudo indefinido. Não, aquela não era 'uma' praça, aquela era 'a' praça. Lembrou-se de anos atrás, quando ainda cursava a faculdade. Aquela praça fazia parte de sua rota para casa e ali também aconteceram muitas coisas. Coisas que na época pareciam insignificantes, e que agora não só tinham significado mas, muitas delas, ele via agora, eram importantes e faziam parte de sua história.
Procurou com o olhar o banco em que sempre se sentava, sozinho, com os amigos ou com as garotas com quem se envolvia. Demorou algum tempo para localizá-lo, mas finalmente o fez. Por sorte o banco estava vazio, seguiu em diração a ele e sentou. Observou tudo ao seu redor, tentando comparar à sua visão de anos atrás. Parecia tanto tempo, mas na verdade poucos anos haviam se passado. As coisas ali na praça pareciam iguais, mas a sua vida mudara completamente.
Não, não queria pensar no caos que era a sua vida atual. Em vez disso queria olhar os outros, esquecer a si mesmo. Reparou nos outros bancos, grande parte dos ocupantes eram senhores já com alguma idade, provavelmente aposentados, caso contrário dificilmente estariam ali naquela hora do dia. De seu banco tinha uma visão previlegiada da praça. Lembrou-se então que fora justamente por isso que o tinha eleito seu favorito, anos atrás.
Decidiu parar de refletir sobre si mesmo e suas lembranças e fazer o que queria: observar, afinal, por mais que fugisse disso, a verdade é que não poderia esquecer-se por completo de tudo, de seus compromissos, precisava seguir em frente. Dicidiu-se e olhou ao redor. Haviam pessoas apressadas, de um lado a outro, ignorando sua presença e de todos que estavam parados por alguma razão, queriam apenas caminhar o mais rápido possível. Pessoas como ele.
Mas ele não estava ali para isso, precisava se concontrar no seu exterior, outra hora pararia para pensar em si. Nesse momento, um casal passou calmamente em sua frente. Acompanhou, com o olhar, seus passos e os viu sentar em um banco. Há quanto tempo não tinha um encontro com uma mulher fora do trabalho? Ingnorou a si mesmo e continuou a observar. Algumas crianças brincavam, corriam e jogavam bolas para todos os lados. Remeteu-se a sua infância, quantas vezes fizera isso e não deu o valor devido? Ou melhor, em que momento parou de brincar e se divertir?
Desistiu de si mesmo. Levantou calmamente do banco e retomou o caminho que, minutos antes, havia interrompido. Dessa vez, substitui o passo veloz pelo mais lendo que conseguia. Há tanto tempo não caminhava devagar que não sabia mais se realmente estava caminhando devagar ou apenas um pouco mais lentamente do que costumava. Estava cansado daquela vida. Estava cansado de si mesmo. Estava cansado de tudo. Precisava parar. Precisava reiniciar. Precisava ir devagar. Precisava mudar.
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Promessa cumprida, Erica! Espero que tenha ficado como tu esperavas. Ah, sim, e que todos tenham gostado!

2 comentários:

Erica Ferro disse...

"Estava cansado daquela vida. Estava cansado de si mesmo. Estava cansado de tudo. Precisava parar. Precisava reiniciar. Precisava ir devagar. Precisava mudar."

Ah, você só pode ter escrito isso pra mim mesmo!
Obrigada pelo presente, Ana.
Me identifiquei MUITO com esse conto e, principalmente, com esse trecho que destaquei.

Sou tua fã, Seerig.
O conto ficou, simplesmente, ótimo.
Beijo.

Yasmim Lopes disse...

Aninhaaa
amei esse post
acho q muita gente merecia/deveria parar um pouco a correria cotidiana e reparar no bom da vida...
lembrar um pouco do que nós dávamos valor a algum tempo e que podemos voltar a gostar
adorei
bjos