sábado, 24 de outubro de 2009

Um caminho

Como havia sido tolo. Tolo, não, essa era uma palavra bela e meiga demais para ser aplicada a ele. Tinha sido um fraco, um idiota. Como pudera ter caído em uma coisa tão comentada, com conseqüências tão conhecidas? Como? Em um período de fraqueza, colocou toda sua vida no lixo, e era tarde para se arrepender.
Lembrava exatamente de como tudo havia acontecido, jamais esqueceu aquele dia. O dia em que ele pensou que lhe dava a liberdade e que agora percebia que tinha, na verdade, lhe colocado numa suja e solitária prisão. Como odiava-se por ter sido tão fraco naquele dia! Será que não era inteligente o suficiente para encontrar outro caminho? Ou, pelo menos, esperto o suficiente para não escolher justamente aquele caminho?
Sérgio, foi ele quem lhe ofereceu, porém não podia culpá-lo, afinal ele não o tinha obrigado a se drogar, o máximo que fez foi insistir. Insistir. Tinha recusado nas primeiras vezes, mas, a insistência de Sérgio combinada com o mal dia que tivera, o fez aceitar, na esperança de que esquecesse tudo e todos, até mesmo Lúcia.
“Você é um completo idiota”, foi o que ela disse naquele dia, quando eles terminaram o namoro de dois anos. Por quê? Porque ele havia sido realmente idiota e ido atrás da conversa dos amigos, duvidado da sinceridade e lealdade de Lúcia que, em nenhum momento, deu espaço para desconfiança. Na época, sofreu muito com o modo como as coisas acabaram entre Lúcia e ele, mas agora já não se importava, afinal Lúcia estava certa, ele era um idiota, caso contrário jamais teria tentado amenizar seu sofrimento com as drogas.
Onde estaria Lúcia agora? Já tinha outro? Há quanto tempo não se viam? Já não sabia mais. As drogas lhe tinham tirado o tempo, cada novo dia era igual ao anterior, cheio de torturas e lamentos. Não tinha noção de mais nada, sua única rotina era conseguir dinheiro para as drogas, fora isso nada mais tinha importância. Quanto a Lúcia, esperava que estivesse feliz, mesmo que fosse nos braços de outro, e que jamais se encontrassem, não queria que ela o encontrasse tão miserável. Ela sentiria pena e, quem sabe, até culpa, mas isso não ajudaria nada. Nada podia ajudá-lo e só havia um meio de se libertar. Um só.
Lembrou de seus pais. Como era triste vê-los sofrer por sua causa, um sofrimento que em nada ajudava, pelo contrário. Seus pais tentaram fazer com que ele largasse as drogas, mas o medo de encarar o mundo de cara limpa o fez fraquejar. Ignorar o sumiço de roupas e objetos era tudo que eles faziam desde então, sofrendo calados, olhando-o com dor e pena, fazendo com que se sentisse o mai cruel dos humanos.
Outra pessoa que o fazia odiar a si mesmo por sua fraqueza era Daniel, seu primo mais novo. Daniel sempre o viu como um herói, o idolatrava e eles se davam muito bem. Aos poucos, após começar a se drogar, foram se afastando. No começo, evitava Daniel na tentativa de permanecer em suas fantasias irreais, ficar sossegado. Depois, quando as fantasias se transformaram em tortura, evitou Daniel por vergonha de si mesmo e por medo de lhe causar um sofrimento terrível.
Odiava-se por isso e muito mais. Esquecera seus amigos, os substituiu por traficantes e outros drogados, trocou alegria por sofrimento, companheirismo por solidão, confiança por desprezo. Ódio, esse era o único sentimento que nutria por si mesmo. E o ódio parecia crescer cada vez mais, mesmo quando achava que não podia aumentar. O ódio extremo o fazia pensar num castigo extremo, mas o maior castigo que podia se dar era a libertação, e para ela só existia um caminho.
Pensou em mil maneiras de encontrar tal caminho, mas a covardia o fazia encontrar um defeito que resultaria na sua ineficiência. Não, estava cansado e desanimado consigo mesmo, sabia que era incapaz de preparar tudo previamente. Não, o jeito era fazer no calor da hora, pensar em uma maneira e agir, só assim o seu problema estaria resolvido. O seu problema e todos os outros que ele causara à sua família e amigos. E a Lúcia.
Não podia mais encarar seus pais de frente. Não conseguia mais fugir da vontade de correr e brincar com seu primo, coisa impossível. Não tinha coragem de pensar em Lúcia. Não tinha forças para tentar voltar à viver. Não encontrava mais espaço dentro de si para o ódio que sentia. Não tinha e nem podia mais nada. Era apenas mais um ser humano sofrendo e causando sofrimento. Isso tudo tinha que acabar.
Ele já não vivia mais, portanto tudo o que faria era adiantar a morte. Em vez do sentimento de perda, traria à todos a paz de espírito. Não podia prolongar tudo aquilo por mais tempo. Foi até a gaveta onde guardava a única maneira viável e certa para a sua libertação. Engoliu tudo de uma só vez. Queria dormir e não acordar mais.
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Mais um texto sobre drogas! Caramba, vivo nessas, né? Não, não, não sou nenhuma drogada, mas acho que minha admiração pelo livro sobre a Christiane F., me afeta a cabeça. Se bem que esse foi pedido. O tema era algo com drogas e vida, mas como esse final é trágico (sendo completamente oposto ao tema vida), tive que fazer uma outra versão, mais viva digamos assim. De qualquer modo, gostei mais desse, por isso estou postando-o. O outro ficou sem-graça, na minha opinião, mas vá lá, ele vai ter que servir pro fim pelo qual foi escrito...

Um comentário:

Erica Ferro disse...

Ah, esse ficou massa, só que trágico. Eu gostei tanto quanto gostei do outro.

Beijo.
E você arrasa. ;)