sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mal-humorados: um guia de conduta para com eles - Maurício Kehrwald

Há pessoas que acordam todo o santo dia de mau humor. Considero tal comportamento irritante e irrito-me muito mais por estar consciente de que sou uma dessas pessoas.
Aliás, para ser mais específico, eu não acordo. Eu regresso de uma breve temporada de hibernação. E coitado do vivente que disser: Bom dia!
Certo. Com o passar das horas vou me tornando menos insuportável - para os outros e para mim mesmo - e, dizem alguns, lá pelas 19 horas até posso ser uma companhia tolerável. Inclusive gostaria de deixar por escrito o meu protesto contra o sujeito que considerou uma ideia plausível os viventes urbanos acordarem antes das 9 horas.
Acontece que sou tão-somente um exemplo de mal-humorado. A casta dos antissociais matutinos tem muitas categorias e subcategorias notáveis.
Eu, por exemplo, conheço gente que há mais de três anos dorme com uma pistola debaixo do travesseiro e faz questão de deixar tal coisa bem às claras para quem quiser - ou não - saber; tem também aquele que ajuda a sustentar a indústria de despertadores de Taiwan, mantendo a média de consumo em 3,25 despertadores/semana; tenho um amigo que é primo de um cara que estudou com a ex-namorada de um sujeito que, reza a lenda, por ser um funcionáro muito eficiente em sua repartição, tinha a regalia de ficar isolado em uma sala, sozinho, até às 11 horas da manhã, com um aviso de 'não-alimente' afixado no cadeado da porta.
Mas o mal-humorado é, na verdade, uma vítima. Sim! Pois não há disposição contrária ao mau humor nos códigos legais brasileiros. Somos antissociais matinais e com todo o direito de sê-lo! E é tão simples lidar conosco... Basta observar os sinais: as expressões corporais, os periféricos e, quando há, as palavras do interlocutor. Se você é um desses que insiste em dialogar com bichos-do-mato, fique atento aos exemplos:

1. Expressões corporais:

a) Acontecimento: o Menezes entra pelo pátio da empresa cuspindo no chão e balançando a cabeça. Dá uma bicuda no cachorro que por ali passa e ignora o cumprimento dos colegas. Ah! Estamos numa segunda-feira e faltam doze minutos para as 8 horas da manhã.

b) O que você faz: chega com um sorriso tosco e tenta contar uma piada de corno pro Menezes.

c) O que acontece: você, com sorte, leva uma cusparada na cara. E só assim desconfia da razão do humor péssimo que assola seu amigo.

d) O que você deveria ter feito: ignorar a entrada do Menezes na sala. Nem que para isso precisasse sumir por uns instantes, refugiando-se no banheiro. Com o passar do dia - ou da semana - o Menezes até vai ter saco pra ouvir uma das suas piadas sem graça.

2. Os periféricos:

a) Acontecimento: seu companheiro de peladas de domingo de manhã, no campo da Vila do Adeus, o Gaguinho, finalmente está em liberdade condicional, após cinco anos de reclusão.
Dizem que o rapaz dedicou muito do tempo na prisão em atividades relacionadas a quebrar pedras, com fins de remissão penal. Gaguinho aparece no campo pra jogar. Ele está exalando um cheiro estranho e, além disso, tem uma pupila muito mais dilatada que a outra, pisca sem parar e está portando um revólver calibre 38. Cano curto, é claro.

b) O que você faz: pra quebrar o 'gelo', é óbvio, você toma a dianteira e vai logo perguntando:
- E aí, Gaguinho... vai jogar só no desarme ou mais preso pelo meio? Ah, não! Hoje você quer jogar com mais liberdade, né? Mas olha só, aqui no time a coisa é pegada. Enquanto descansa tem que quebrar pedra.

c) O que acontece: você é baleado.

d) O que você deveria ter feito: de preferência, ter ficado na sua. Mas é claro que um imbecil do seu naipe não pode ficar quieto. Então, que dissesse:
- E aí, Gaguinho... beleza? Seguinte: eu tô machucado. Tu joga no meu lugar?
Ah, sim! E de preferência vá embora antes que ele comece a atirar em algo.

3. As palavras do interlocutor:

a) Acontecimento: você é daqueles que têm algum tipo de prazer mórbido em acordar cedo no sábado. Desperta antes mesmo que o Sol tenha coragem de fazê-lo. Como não acha ocupação pra sua manhã insone, julga fazer grande coisa indo acordar algum amigo seu.
A vítima é o Felipe, cujo qual você sabe, saiu na noite anterior e deve estar chumbado na cama. O mau humor desse camarada é ponto de referência na cidade. E você, evidentemente, vai até a residência do supracitado moço.
Chegando lá, convence a mãe do sujeito a acordá-lo. Relutante, ela vai:
- Felipe!
- ...
- Felipe, acorda!
- Sai daqui, caralho!
- Felipe!
- Porra, me deixa dormir, pqp!

b) O que você faz: mesmo ouvindo os insultos proferidos à própria mãe, seu 'desconfiômetro' não acusa, e você acaba entrando no quarto do rapaz, puxando as cobertas e abrindo as janelas.

c) O que acontece: o Felipe treina Jiu-jitsu e lhe aplica um double-leg.

d) O que você deveria ter feito: pra começar, seria bom ter morrido no parto. Como se criou e chegou até tal circunstância, deveria ter ido embora epar sua casa e mrgulhado de volta na cama. Não por sono, mas por poupar os outros de aturá-lo acordado.

Como podeis ver, nós, os mal-humorados, atédamos a oportunidade de sermos reconhecidos e não importunados. Entenderam? Sim? Ótimo! Não? Azar o seu, agora me deixe dormir.
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Descobri essa crônica em um livro homônimo que veio parar em minhas mãos. Resolvi ler por distração sem imaginar que fosse tão bom, mas é. Fiquei realmente surpresa. Foi difícil escolher uma crônia pra postar aqui, mas optei pela menor nesse momento. Quem sabe mais adiante eu poste outras, quando tiver tempo disponível para digitá-las... Enquanto lia o livro, fui à cata do autor e encontrei o blog do Maurício Kehrwald. Ainda não pude dar uma boa olhada, mas imagino que seja bom. Espero que tenham gostado da crônica...

6 comentários:

Marcelo Mayer disse...

hahahahahahah
virei seu fã mais ainda depois dessa.
oq diria então de caixas de supermercados?

Jorge Oliveira disse...

kkkkkkkkkkk
Demais, demais!
Sou um desses mau humorados quando acorda.
SOS pra nós rsrsrsr

Erica Ferro disse...

HUAHUHHSAUASHUASH

Caraca, muito boa.
Ri muito!
Esse cara é bom, hein?

Beijo.

Alanzão disse...

ahuah..shoowww..muito legal mesmo..

Ao contrario disso tudo é minha mãe que acorda as 5 da manhã TODO DIA para fazer caminhada, sorrindo, feliz e alegre..o pior não é isso, é que um dia ela me acordou e falou.."vamos?"..

foi um dia...um unico dia e nunca mais...



is we in the tape

Roberto Camilo disse...

Uma pessoa que escreve uma coisa doida dessas não pode ter mau humor, nem quando acorda...haha
Muito bom!

Natália disse...

Acordar de mau humor é o fim do final. Beijos