segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O esporte é egoísta

Acabei por chegar a essa óbvia (ou talvez não) conclusão enquanto lia 'Retrato de um nadador quando jovem', uma das crônicas de Fernando Sabino. Eis uma parte da crônica: '? Participar de uma disputa a que ninguém no obrigava, despender até o fim e além do fim o que tivéssemos de energia para conquistar alguns décimos de segundo – que ganhávamos com isso? Chegada a nossa vez, caminhávamos para a borda da piscina como condenados para o sacrifício. E no dia seguinte, passada a hora da provação, tudo recomeçava – o esforço minucioso e tenaz para conseguir baixar mais alguns décimos de segundo. Tudo isso para quê? É o que a natação, como esporte, tem de mais trágico: tudo isso para nada.'
E não é só na natação. Pare pra pensar. Todos os esportes fazem com que seus praticantes, profissionais ou amadores, se esforcem cada vez mais, não existe limite, sempre tem o que se melhorar. Mas pra quê? Pra nada. Ou seja, para ser melhor que fulano ou cicrano. Só pra dizer 'Eu ganhei', e de que isso adiantará? Amanhã lá está outra vez querendo se superar.
Peguemos o futebol como exemplo. Ignorando o esforço dos jogadores para melhorar e, consequentemente, aumentar o seu valor no mercado futebolístico, vamos direto às torcidas. De que adianta torcer enlouquecidamente por um time? De que adianta se desesperar por uma derrota e se encher de alegria por uma vitória? Algo vai mudar na tua vida? Não, exceto que o resultado de um jogo acarretará em piadas do arquirival, em caso de derrota, ou piadas para o arquirival, em caso de vitória. Ou seja, pura vaidade e egoísmo.
Quando se vence um campeonato, o torcedor vibra enlouquecidamente, sem importar se é um mundial ou simples estaual. Agora, se o tal arquirival vence, bom, aí a história muda: os adversários foram fáceis, os jogos foram roubados ou o campeonato não tem valor nenhum. Torcida exagerada ou inveja escondida? Que diferença fará você ver ou não um jogo? Reclamar ou não do juiz? Nenhuma, apenas o tornará um bom torcedor, que irá se vangloriar até não poder mais da grande vitória do time e memorizará cada gol feito. Para quê? Apenas para se vangloriar depois.
O desespero sentido num erro de passe e a alegria incontida num gol dentro de um jogo importantíssimo são apenas consequencia da nossa ansia por dizer 'Meu time é o melhor, é campeão!' e tudo mais que, na vida, não fará diferença alguma. Pior são aqueles que perdem o controle de seu próprio fanatismo e acreditam que chutes e socos resolverão alguma coisa. Afinal, qual é o grande problema de perder? Um dia se ganha, no outro se perde. Parece simples, mas nem tanto. Enquanto é fácil e prazeroso rir da derrota alheia, é torturante ouvir os outros debocharem de sua derrota. Ao mesmo tempo que bom, excelente, maravilhoso comemorar uma grande vitória incansavelmente, é ruim, chato, irritante ver alguém comemorando sem parar uma vitória do seu time. Ou seja, egoísmo. Só eu posso rir da derrota alheia e comemorar sem limites uma vitória, os outros, quando fazem tais coisas, estão sendo exibidos e chatos.
Não, não estou aqui criticando isso, já que já tive fases terríveis de torcedora, sendo extrema nas vitórias e nas derrotas do Grêmio. Hoje já estou mais tranquila, mas isso não me impede de ser incrivelmente contra o Inter. Ou melhor, acredito que estou no nivel normal da torcida da dupla GreNal que, pelo que dizem, é a mais disputada. Vejam por exemplo o fim do Brasileirão 2009. Flamengo x Grêmio. Os torcedores de São Paulo, Palmeiras e, especialmente, Inter, torciam pelo Grêmio. Isso aí, os colorados, a muito custo, admitiam que torciam pelo Grêmio. Os gremistas? Em sua grande parte, muitos dos quais não admitiam, torciam por uma derrota do Grêmio. Isso aí: gremistas torciam pro Grêmio perder. Por quê? Porque uma vitória do Grêmio daria o título ao Inter. Como o Grêmio não seria prejudicado por uma derrota, não seria nada mau que o time perdesse e impedisse que os colorados ganhassem o título. Houve boatos de que o próprio time gremista, em combinação com a direção tricolor, entregaria o jogo. O time que foi para o campo era misto e não contava com Vítor, goleiro, e Souza, meia, ambos titulares que nem sequer saíram de Porto Alegre. O Grêmio abriu o placar e, com o andamento do jogo, provou que não entregaria. Eu, como gremista, devo dizer que não fiquei muito feliz com a vitória, que dava o título ao Inter, que também ganhava seu jogo. Mas enfim, a maldição de não ganhar fora de casa, fez com que o Grêmio levasse 2 gols e desse o título ao Flamengo. A derrota foi esquecida pelos gremistas diante da certeza que o Inter não era campeão. E tudo isso pra quê? Egoísmo. Só pra não ter que ver os colorados comemorarem o título que, sem dúvida, comemoraríamos incansavelmente.
É, não apenas o futebol, mas todos os esportes são egoístas. O esporte está sempre atrás da vitória, ou da derrota alheia, apenas para poder comemorar e esquecer, por momentos, de todos os problemas existentes, como se a vitória transformasse o mundo. Mas não. No dia seguinte tudo inicia de novo. Treinos para os esportistas melhorarem, trabalho para os torcedores sustentarem seu vício egoísta e inútil.
___________________________
Uau, sumi daqui por quase uma semana. E dessa vez não foi intencional, muito pelo contrário. Pra não ficar mais um dia sumida, tive que encontrar um assunto para escrever e não simplesmente usar um post quebra-galho (com música ou qualquer coisa rápida de se fazer). A bem da verdade, faz umas duas semanas que não tenho tempo pra escrever algo útil aqui e, muito menos, pra me manter atualizada dos blogs que acompanho. Realmente, me desculpem, quem sabe uma hora dessas eu consiga me redimir...

Até um dia, pessoas...

4 comentários:

Marcelo Mayer disse...

acabacarm com o esporte depois que inventaram a palavra esforçado. nada mais triste e nulo do que ser chamado de esfiorçado após uma derrota.

Natália disse...

Não gosto de esportes. Tudo e todos são egoístas nos dias de hoje. Não suma mais durante 6 dias - exatamente! Beijos

Erica Ferro disse...

Prefiro não saber o porque que nado sempre interessada em melhorar minhas marcas.
Há certas coisas que é melhor não sabe o porque, porque descobre que é porque fútil e nos decepcionaríamos com a nossa futilidade e quereríamos morrer. É, morrer!

Na verdade, tudo é ilusão e falsidade.
Se não for tudo, é uma boa parte.
Então a gente tem que fazer as coisas no ímpeto, sem muito pensar e pronto. Fechou!

E eu continuarei a nadar e a viver sem me importar tanto com os porquês.

Beijo.

Mr. Blue disse...

muito boa essa análise do Fernando. Eu tenho pena também daqueles caras que se vangloriam por saber a escalação completa do seu time, as escalações históricas, a cor da cueca do fulano naquele inesquecível (mentira, nunca é) jogo de 88. Esses cara se acham de um conhecimento tamanho que só eles podem curtir futebol, só eles entendem tudo de futebol. Por exemplo eu, tenho um amigo que é assim como descrevi, corintiano roxo (por si só já é chato, todo corintiano está com a razão, sempre), quando eu critico o time dele por um jogo mal (e eu sou democrático, critico o meu time tbm quando joga mal) ele fica puto e joga na mkinha cara que eu não entendo nada de futebol, ou não assisto, de fato, não sou grande conhecedor de futebol e mal sei escalar meu time, mas isso não impede que eu assista um jogo e reocnheça falhas naquele jogo em especial, e outra, não é porque eu sei poucas coisas fatídicas ou históricas do futebol que eu não entendo a técnica ou não entenda o que se passa na tela, futebol é algo tão tosco e símio que é impossível alguém que nunca assistiu sentar e assistir só ao primeiro tempo de um jogo e não sair entendendo e quem sabe até criticando alguma coisa!

Agora quanto ao fanatismo desenfreado, acho isso uma vergonha hein. Exemplo recente é aquele "show" protagonizado pela torcida do coxa. Tenho um exemplo pessoal também: tem um amigo do meu pai que é palmeirense roxo, teve um jogo esses tempos aí (nem foi um tão decisivo quanto os da reta final do brasileirão, que jogaram o palmeiras pra 5ª posição vergonhosamente) no qual o palmeiras perdeu, esse cara simplesmente pegou a propria camiseta, short e par de meias do palmeiras que ele tinha e jogou na churrasqueira, tacou fogo nas roupas, como se não bastasse o cara teve que tomar lexotan 6mg pra dormir de tão tenso que estava e ainda não conseguiu dormir, ficou de noite andando pela casa e fumando na sacada. Isso ele contou pra gente, mais ou menos como aqueles caras do alcoolicos anonimos que dão depoimentos. Triste, o fanatismo é uma doença mesmo.