terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Guerra e Paz - Leon Tolstoi

Durante esse verão fiz algo que há muito me enrolava para fazer (é, talvez minhas férias não tenham sido totalmente inúteis): ler 'Guerra e Paz'. Desde que meu pai leu que insistia para que eu lesse e me chama de 'Natacha', uma personagem do livro que, de acordo com ele, é 'metida como eu'. Depois de anos, finalmente criei vergonha, tirei o livro (dividido em três volumes, afinal tem mais de 1.000 páginas) da estante e resolvi lê-lo. Para falar a verdade, enrolei uns três dias, pelo menos, para começar a ler. Mas quando comecei, tirando uma parte ou outra enrolada (coisa que sempre tem em livros grandes e, às vezes, nos pequenos), não consegui parar de ler até que acabasse. Do início ao fim, li-o em 25 dias.
A história se passa entre os anos de 1805 e 1813, narrando a relação entre Rússia e França, na época liderada por Napoleão, e as guerras entre os dois países. Misturada à fatos históricos, está a história fictícia, com inúmeros personagens que, se de início parecem não ter relação, acabam se interligando. Personagens que olham a política, a religião e as guerras por diferentes pontos de vista. Há mulheres que só pensam em festas e fofocas sobre isso e aquilo (é, tem coisas que não mudam), há as desesperadas por casamento e as que se ocupam fazendo tudo para conseguir uma carreira para os filhos e, se possível, uma esposa rica. Do mesmo modo, há os homens que levam a guerra extremamente a sério, não vendo limites para seus atos, fazendo de tudo para ganhar, enquanto há os que preferem não se envolver nela e muito menos debatê-la, em vez disso alguns preferem encontrar um bom partido para os filhos, podendo assim manter um bom nível social.
Ao mesmo tempo que narra a trama que envolve seus personagens fictícios, Tolstoi descreve diferentes tipos de personalidade e de pensamento. Como bom russo, mostra Napoleão de um ângulo bem diferente do herói que muitos historiadores gostam de mostrar, dizendo-o egocêntrico e tolo. Já que falei neles, devo dizer que os historiadores são alvo constante de sua crítica. O autor deixa visível o que nos parece ser, às vezes, difícil de acreditar: que os argumentos usados para expor a dita História são, em muitas vezes, ridículos e até impossíveis. Em um de seus debates sobre história, diz ele:

"Na vida de cada homem existem duas faces: a vida pessoal, que é tanto mais livre quanto mais abstratos forem seus interesses, e a vida geral, social, na qual o homem obedece, inevitavelmente, as leis que lhe são prescritas. Por si próprio, o homem vive conscientemente, mas serve de instrumento inconsciente às finalidades históricas da humanidade. O ato praticado é irreparável e sua importância histórica está em concordar, no tempo, com milhões de atos praticados por outros homens. Quanto mais o homem se elevar na escala social, quanto mais próximo estiver dos homens superiores, quanto maior for sua influência sobre os outros, mais evidente será a predestinação e a fatalidade de cada um de seus atos."

(Capítulo I - Nona Parte - "Guerra e Paz', de Leon Tolstoi)

Escrito entre 1863 e 1869, período em que Tolstoi fez muitas pesquisas para escrever, o livro é um exemplo excelente da humanidade. Mesmo sendo um livro antigo, contando a história de uma sociedade há muito extinta, o livro é, de certa forma, atual, por mostrar personalidades que ainda hoje existem: o poderoso governador que conta mais com sorte do que com inteligência, o comandante sábio que é tido como tolo, as relações familiares com patriarcas rudes demais ou moles demais, a incansável busca de poder, o apego ao dinheiro e as coisas materias, o amor e o ódio pela sociedade, os jovens rebeldes, os verdadeiros amigos e os interesseiros, a religião sob o ângulo de uma beata, de alguém que tenta buscar a fé e daquele que não acredita, tudo misturado com profundas divagações sobre o ser humano e a História. Ah claro, e ele não esquece de mostrar o irônico fato da alta sociedade russa continuar a conversar e usar expressões francesas, mesmo nos períodos de guerra. Resumidamente, um livro que por mais que se explique jamais será explicado e cuja única maneira de compreender é lendo-o.


*A foto é da edição que eu li, mas há muitas outras, com mais ou menos volumes, variando de uma para outra.

3 comentários:

Marie disse...

Tenh0 vontade de ler este livro, mas também falta-me coragem. Estou com crime e castigo para ler na estante,talvez me anime a lê-lo. livros assim são clássicos e quase impossíveis viver sem degustar uma excelente leitura.
Como sempre indicando bons livros Ana
:D

Erica Ferro disse...

Já disse que ADORO suas resenhas, né?
Tu és demais, Seerig. Demais!
Não sei se já te disse, mas te acho MUITO inteligente. :D
Fiquei com MUITA vontade de ler essa coleção.

Um abraço, queridona.

Mr. Blue disse...

Eu não leio nem metade do que você lê Ana, portanto ainda me falta muito o que ler, inclusive os clássicos, como este. Se eu já tinha curiosidade, depois deste teu post tenho mais ainda pra ler esta obra... mesmo que sejam esssas mais de mil páginas hauheuahe!! Aliás, este número "amigável" de páginas é o que faz tal livro ser um livro pra se ler nas férias mesmo, e em tempos de faculdade eu to vendo que eu não vou ler é mais nada a não ser livros jurídicos...

Quanto aos historiadores, putz, eu amo história, mas tenho medo dela e dos historiadores, excesso de opiniões divergentes deviam ser coisa pra exatas, em humanas isso só traz mais dúvidas e a indagação sobre se tudo o que a gente leu e aprendeu e sabe até hoje é mesmo verdade... "Quem controla o passado, controla o futuro (...)" essa frase é a responsável pelo meu medo de historiadores e suas opiniões pessoais... e de ditadores também!