quinta-feira, 25 de março de 2010

O Velho da Casquinha

Então, inesperadamente, ele surge, com sua gigantesca lata nas costas, cheia de saborosas casquinhas para vender, com sua longa barba branca e, se estiver próximo ao Natal, uma touca de Papai Noel na cabeça. Ali está o Velho da Casquinha. Há muito sem lembrar dele, me vejo surpresa em vê-lo, exatamente igual a última vez que o vi. Quanto tempo já? Uns 10 anos talvez. Ah, como era bom quando o pai chegava em casa com as casquinhas originais do Velho da Casquinha, a lenda urbana viva de Caxias do Sul! Quantos anos ele tem? Tem família? Oh, ele não morreu?! Quando menos se espera, lá está o Velho da Casquinha, relembrando às pessoas todas os mistérios que o envolvem.
Lendas urbanas existem aos montes. Cada lugar tem a sua específica. Ou então uma pessoa memorável que acaba sendo personagem das mais estranhas histórias, que na grande maioria das vezes são apenas fruto da imaginação de alguém. Mas aí está a graça das lendas urbanas, sua impossibilidade nos prende entre a admiração, a dúvida e a diversão. Pois então, o Velho da Casquinha está vivo, mas sua 'aparição' ainda surpreende muitos caxienses e, tenho certeza, depois de sua morte, seja ele homenageado com um monumento ou não, sempre será personagem das mais malucas histórias.
Certo, vou tentar explicar quem é o Velho da Casquinha. É um senhor que vende aquelas casquinhas (do estilo das de sorvete) caseiras pelas ruas de Caxias do Sul. Além de vender as melhores casquinhas de biscoito da cidade, ele faz parte da memória dos caxienses por andar por toda a cidade com sua lata nas costas, manter a sua longa barba branca e usar a velha touca de Papai Noel durante o Natal. O fato de até a geração de 40, 50 anos dizer que, quando jovem, lembra que o Velho da Casquinha já era velho, o que pode ser apenas uma das muitas conversas fiadas a respeito dessa figura, faz com que todos que não o veem durante um longo tempo digam, ao vê-lo, 'Ele ainda está vivo!?'.
Ele já foi assunto de reportagem de jornal, personagem de crônica e muitas outras coisas. Por mais simples que possa parecer identificá-lo (o que, tenho certeza, o jornal deve ter feito quando fez uma reportagem sobre ele), continua sendo simplesmente o 'Velho da Casquinha', cheio de mistérios (Como ele chegou até aqui a pé? Como ele continua vivo depois de tanto tempo? Como isso, como aquilo?) e surpreendendo os que o veem como se estes estivessem vendo um importante membro da nobreza, o que se opõe às suas roupas surradas. A simplicidade dos trajes que usa e da vida que leva em contrário de fazer com que o esnobem, faz com que seja admirado, seja visto como herói, por isso e por ser, por alguma razão, cercado de mistérios que, provavelmente, foram criados pela própria população. Criou-se um mito na pessoa que parece menos querer ser um.
Sim, nunca foi dito que o Velho da Casquinha era um exemplo de simpatia, pelo contrário. Pensando bem, talvez o fato de ser um pouco arisco tenha sido a origem do mito. Sem grandes conversas. Sem grandes frases. Isso fez que, o que ele não disse, tenha sido imaginado por alguém, que contou pra alguém, que contou pra alguém... E aí surgiu o misterioso Velho da Casquinha, que pode ser temido ou admirado por crianças, que faz com que muitos, ao vê-lo, tenham momentos de nostalgia... Encontrá-lo do lado oposto da cidade onde foi visto da última vez, sabendo que só anda a pé, também aumenta a lenda. E junto com o índio (ou chileno, como queira) que toca flauta na praça Dante Alighieri, o Velho da Casquinha é uma das celebridades populares dos caxienses, se bem que o flautista ainda não conquistou tamanha fama, apesar de vender seus CDs e ter sido astro de uma propaganda de TV de uma loja local.
Ah, o Velho da Casquinha é o Velho da Casquinha. Não há o que dizer. Cada um tem sua própria história pra contar onde ele é o protagonista. Cada um tem um sentimento ao avistá-lo. Cada um tem uma opinião sobre ele. Cada um tem uma dúvida a seu respeito. Cada um tem uma certeza. Cada um tem sua teoria. Pode causar surpresa ou medo. Pode ser razão de uma discussão ou debate. Pode ser conhecido para um e desconhecido pra outro. Pode ser admirado ou menosprezado. Pode ser visto como rei ou plebeu. Eis a lenda urbana viva de Caxias do Sul.

6 comentários:

Marcelo Mayer disse...

eu não queria encontrar com esse cara.
aqui na rua augusta, oq mais tem é lenda. o fofão da rua augusta é o mais clássico

Erica Ferro disse...

Palmas, palmas.
Adorei, Ana.
Num disse que tu tinhas que, apenas, começar a escrever e deixa as coisas fluirem?
Adorei o Velho da Casquinha.
Aliás, eu já tinha ficado intrigada com ele desde que li a crônica do Nivaldo...
Bem, enfim, escreva mais, escreva sempre...
Sério, escreves de modo muito envolvente... ;)

Beijo.

Graziela disse...

ao terminar de ler teu texto lembrei do Paulo Músico.
ele não é nada perto de ser alguma lenda viva daqui de Novo Hamburgo.. mas para quem esteve presente no nosso encontro com ele, ele sempre será uma lenda.. Dente-sim-dente-não, a pastinha amarela, mil e uma despedidas dizendo que tinha que ir para a capital, até que esquecia e voltava a nos convidar para cantar uma música: "a alegria está no coração de quem já conhece a Jesus.."

Natália disse...

Eu acredito muito nessas lendas, por mais simples ou complicadas e estranhas que sejam, sempre tem um fundo de verdade e eu acredito cegamente! Beijo

Melissa B. disse...

Esse cara é uma lenda mesmo!
Demais o texto, Ana
beeijos

LUÍS PLETSCH disse...

Olá!
Sou o sobrinho dele, meu nome é Luís A. P. Pletsch
Nesta data ele faleceu... um abraço e ótimo sua crônica!
Parabéns!
At. Luís