sexta-feira, 30 de abril de 2010

Lembranças perdidas e papo furado

Coloquei um dos CDs daquela esquecida coletânea de músicas italianas, de cuja existência fui lembrar quando senti vontade de escutar a versão original de uma tão conhecida canção: C' Era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones. Peguei meu velho baralho e, na falta de companhia pra jogar Pontinho ou qualquer outra coisa, comecei a jogar Paciência, intercalando com um outro jogo que eu nem sequer sei se tem nome. A bem da verdade, mais brincava com o baralho em mãos do que jogava, tão distraída estava relembrando disso e daquilo, consequência, em parte, de ouvir todas aquelas músicas que há anos não ouvia.
*
Lembrei do que não lembro. Ou melhor, lembrei do que os outros dizem de mim e eu não lembro. Normal, nunca lembro de nada, assim como nunca vejo ninguém na rua. Ou nos shows.
- Te vi lá no show aquele dia.
Isso foi o que meu professor disse. Isso, meu professor me viu num show.
- Onde?
- Eu tava passando ali pelo meio, te vi, como tu não me viu nem comprimentei.
Oh, beleza. Primeiro de tudo: nem sabia que o professor me identificava como aluna dele. Provavelmente foi porque um dia tivemos uma pequena discussão sobre rock nacional anos 80, na qual ele perguntou, espantado porque eu conhecia Inimigos do Rei:
- Que idade tu tem?
*
É, depois de quatro anos, talvez não seja de estranhar que os professores me identifiquei como parte de uma turma de quase quarenta gurias. Se não for por uma discussão musical, que seja pelo hábito de não prestar atenção em papo furado da aula e, em vez disso, ler durante toda a aula. Ah sim, e, talvez, pela mania de emprestar livros pra metade da sala. Essas são boas razões pra ser identificada, pelo menos do meu ponto de vista. Mas aí, quando tu e mais um bando pegam o ônibus de volta com a coordenadora do curso e no meio do papo um piá, sobrinho de uma das do bando, diz um palavrão em francês, ensinado pela tia mesmo, tu pode desconfiar que a tua fama pode não estar tão boa quando a coordenadora diz, com plena certeza:
- Isso é coisa de Ana Paula Seerig ensinar.
Isso aí. Sobrou pra mim. Justo eu que nem falo palavrão. Bom, pelo menos alguns me disseram que não consideram 'puta merda, tchê', o que eu mais digo, como palavrão. O máximo que eu ensinei pro guri foi a falar 'chato' em alemão, e nem é palavrão! Mas enfim, tentei limpar a minha fama, mas não deu muito certo. Vou levar pelo lado positivo: ela achou que eu era poliglota e sabia xingar em francês.
*
Professores, professores, professores. Volto a cinco anos atrás. Ou melhor, a dias atrás, em que me lembraram de algo que eu realmente não lembrava que ttinha acontecido cinco anos atrás.
- E aquela vez em que vi um bando lá no SOE. Um monte de gurizada e a Ana no meio.
Isso foi minha vizinha (que nem é mais vizinha) que me disse. Pra mim e pra minha mãe (como se isso fizesse diferença, devo ter comentado algo na época do ocorrido, apesar de hoje não lembrar mais disso). Por causa de um colega praga, santista, fomos proibidos de falar em futebol na sala. Não ligamos muito pra norma. Resultado: fomos pro SOE. Eu e um bando de guris.
*
Essa mesma vizinha, melhoremos isso, amiga de família, foi minha professora no ano seguinte, ano de copa, e de álbum da copa. Como professora de Educação Física, ela fez o álbum. Eu, como admiradora de futebol, também. Além da outra professora de Educação Física. Como nem sempre tinhamos como trocar figurinhas, às vezes eu tinha que dar umas escapulidas da sala até o pátio. Não lembro se fazia isso com frequência, ou se a escola toda sabia do nosso troca-troca de figurinhas (claro que tinha mais gente, mas não muita, o colégio era pequeno), mas um dia, em que inocentemente fui pedir pra falar com essa minha vizinha-amiga de família-professora, a professora simplesmente disse:
- Vou descer daqui a pouco pra dar uma olhada, se te ver trocando figurinhas vamos ter uma conversa.
Oh, beleza. As professoras são desconfiadas assim com todo mundo ou só comigo? Será que minha fama anda tão má assim?
*
Essa mesma professora, nesse mesmo ano, um dia interrompeu a explicação pra me pedir:
- Por que tu tá tão quieta, Ana Paula, o Grêmio perdeu?
Não, o Grêmio tinha ganho. Depois dessa afirmação, não encontraram nenhuma outra explicação pra minha quietude (será que eu era tão tagarela?), desistiram de encontrar.
*
É, acho que gostava de conversar fiado. Foi assim que, quando minha amiga não quis me fazer companhia no fundão da sala, lá na 7ª série, tive que começar a falar com os guris, o que acabou me fazendo acompanhar mais seriamente o futebol e me tornou nessa boa gremista que sou. Mas enfim, no meu melhor, e também pior, ano de estudante fui convidada a ir conversar fora da sala. Fui. A culpa era da professora. Deu umas perguntas de filosofia na aula de geografia, a gente tinha que confabular, certo? Eu e minha companheira de conversa saímos bem faceiras, era quase recreio mesmo. Depois daquele dia tentaram armar uma revolta, na qual eu seria expulsa, opa, convidada a me retirar de novo e, diante da pergunta 'Alguém mais quer sair?', pergunta frequente dos professores nessas ocasiões, metade da turma ia sair junto. Infelizmente não houve uma nova oportunidade. A bem da verdade nunca me acertei com meus professores de geografia...
*
Ah, aquele primeiro ano... Metade das minhas atuais colegas tem uma bela história pra contar sobre como eu era estúpida com as pessoas. As que foram minhas colegas só no ano seguinte, especialmente. Outro dia se juntaram as colegas de lá e de cá. Antigas e atuais colegas. Se juntaram e começaram belas encenações de 'como a Ana parecia'.
- Ela aparecia no corredor, e a gente já se escondia no outro.
- Eu tinha medo da Ana.
- Ela falou assim e assim quando eu disse isso pra ela. Olhei pra fulana e disse: Que guria chata.
Já não estranho mais, todo mundo que não me conhece costuma não ir muito com a minha cara. A parte bonita da história tá nas belas interpretações que elas faziam da minha pessoa. O engraçado é que eu não lembro de nenhuma das histórias da minha estupidez que elas contam. Estranho.
*
Os grupos com quem eu falo e que pouco falam entre si (sim, minha turma é dividida por grupos...), e mais as amigas que nem deveriam conhecer tai grupos, armam juntas e realmente me pegam. Distraída no MSN, partilhando com a Ferro a minha indignação pelo fato de alguns amigos, bons amigos (supostamente), não terem se dado ao trabalho de deixar um 'parabéns' no orkut (não é o fim do mundo, mas enfim, é bom mostrar que lembram), enquanto umas criaturas que eu mal sei quem são me deram os parabéns. A bem da verdade, nem ligo muito pra aniverssário, mas tava meio deprê aquele dia, vai entender. Enfim, tô ali me lamuriando pra pobre Ferro, que por alguma razão sai, o que me faz pensar em ir dormir antes das 20hs, quando começo a ouvir um 'Parabéns pra você'. Quem são os loucos? (Chamo todos de loucos.) Aí percebo que é na minha garagem. Quase dez gurias cantando, com balões e uma com um violão. Me pegaram direitinho. E então eu mandei os amigos desnaturados pro espaço e tentei voltar à normalidade, o que, normalmente, já não é fácil.
*
O CD acaba e me pega rindo sozinha e embaralhando o baralho sem parar. Engraçado como as coisas lembranças mais toscas podem nos deixar tão feliz. Engraçado como pareço me sentir melhor desde que vi aquele bando na minha garagem. Engraçado é perceber todas as armações feitas, entender porque aquelas conversas incomuns, chegar a conclusão que eu realmente não sou tão dificil de enganar. Bem, bem, melhor acabar com o momento nostálgico, hora de fazer algo útil. Certo, acabou.
_________________________________
Fiquei quase duas semanas sumida da blogosfera. Não atualizei aqui e não visitei nenhum blog. Motivos técnicos (ou seja, o pc fez greve e não queria funcionar). Aproveitei pra pôr meus trablhos e leituras em dia (pra evitar qualquer reclamação de professores no futuro). Foi bom escapar um pouco do vício do mundo virtual, mas é bom voltar. Aproveitando a explicação, agradecimento à Allyne que me passou um selo hoje, agradecimento não pelo selo simplesmente, mas especialmente à breve difinição que ela fez do blog, terminando com um 'Muito bom mesmo'. Obrigada de novo, Allyne! Conforme puder, visito todos os blogs que acompanho e respondo os comentários do último post que, por sinal, é uma raridade no sentido de que, além de ter uma certa implicância com o que escrevo, quando gosto do que escrevo, o povo não gosto. Pelo que percebi, satisfiz a mim e aos que leram, pelo menos a maioria. Sem mais delongas. Até outra hora.

6 comentários:

Erica Ferro disse...

HASUHASUHAS

Massa a crônica, Seerig! ;)

Ah, são tão legais essas viagens que a gente faz pelas nossas memórias, né?
Ficamos com a cara de besta, rindo que nem idiota... Ê maravilha!

E só uma coisa: acho que eu iria, sim, com a tua cara à primeira vista. :D
Amigos (meeeesmo) a gente reconhece fácil.

Beijo!

Mauricio disse...

Malandro, tenho uns três talentos na vida (todos inúteis)

1 - Abrir lata de cerveja com os dentes
2 - Descobrir pra qual time a pessoa torce só olhando pra cara (90% de acerto) ou quando a pessoa fala sobre qualquer outro assunto por mais de 2 minutos (98% de acerto)
3 - Resenhar sobre o mindrape que a escola mete na gente (que é o que importa aqui, no caso)

Eu realmente gostaria de saber quem foi o filho da puta que considerou um adulto tomando conta de uma sala com 40 jovens (a maioria não disposto a aprender, até porque na escola se aprende pouca coisa no que tange ao ensino propriamente dito). Eu posso deitar, colocar um disco do Piazzolla e delirar sobre os anos escolares. Entre muitas coisas legais que aconteceram, colegas eternos e partidas de futebol clássicas, o que fica mesmo, mesmo, e minha vontade de LA REVANCHA contra alguns professores. Quero, até hoje, ESTUPRAR ALGUMAS PROFESSORAS com uma baioneta enferrujada e encher um professor de porrada na cabeça até o filho da puta ter de usar fraldas geriátricas.


Obrigado, era isso!


Em tempo:

http://www.4shared.com/audio/j9sZn55r/Los_Fabulosos_Cadillacs_-_Mata.htm

Escucha eso

Luna Sanchez disse...

Apesar de sempre ter me dado melhor com os guris, nunca me interessei por futebol.

Tive professores dos quais vou lembrar sempre, realmente especiais, e das vezes em que fui para o SOE, os motivos foram os mesmos : discussões em sala (referentes ao assunto da aula) e supostos motins, liderados por mim...rs

Beijo, Ana. Seja bem-vinda, lá no blog.

ℓυηα

Mariana Amorim disse...

Não sei nada de itailano, mas amo músicas antigas. Sempre me ponho a divagar.
Agora me ensina a xingar em francês porque tem certeza de que a minha professora de Francês me odeia e gostaria de mandar ela passear com classe. hahaha!!!
E a propósito vc não é estranha.
Amoooo seus textos e a fã sou eu, daí....
hauhauha
beijos

Bruna disse...

Ana, tu sabe que eu sou preguiçosa né.
mas comecei a ler esse teu texto maior que o normal e não consegui parar mais.
ADOREI!
e fico realmente feliz que os loucos conseguiram te deixar mais alegre aquele dia.

beijão!

Anderson Kravczyk disse...

E aí gurizão, vamo bater uma bolinha no próximo findi ?