sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sobre lebres e humanos - Nivaldo Pereira

Não lembro mais onde soube desse fato, se num estudo sobre comportamento e condicionamento ou se num documentário sobre vida silvestre, mas ele sempre me volta à mente em situações que classifico como apego instintivo ao território. É a história da lebre americana, que jamais se afasta do seu conhecido limite territorial. Ciente disso, predadores como o coiote perseguem a lebre para fora, para além da linha de divisa do mundo estável, até a lebre, em pânico do desconhecido, voltar atrás e cair na bocarra do coiote. Pobre animal que não ousa sair de seu mundinho!
Eu acho que nós, humanos, somos um tanto assim também. Vivemos criando territórios, dentro dos quais usufruímos a sensação de segurança pela cumplicidade dos demais. Partilhar crenças e paixões é o que nos une ao grupo, e a lealdade a isso será condição de sobrevivência. Nossos credos serão as lentes para ver e julgar tudo.
Assim, não pode haver salvação fora de nossa ideologia, de nosso partido político, da torcida pelo nosso time, da nossa igreja. O mundo todo deve caber em nosso gueto, que é o certo, o bom, porque sentimos isso com fervor. Se os outros não quiserem aderir à nossa “luz”, passam à condição de inimigos mortais. Morte ao diferente: gritamos em coro passional.
Somos lebres tolinhas, a ignorar que muito mais perigoso que o novo e o imprevisto – ou o mundo e as razões do outro – é não ampliar os próprios limites. Preferimos morrer teimosamente “dentro de casa” a apostar na mudança de visão. E ainda nos vangloriamos de sermos animais dotados de inteligência!
Nossa condição de lebres territoriais também funciona como cruel redutor do mundo interior. Quantos talentos reprimimos por medo de arriscar testá-los lá fora, no desconhecido? Quantos sonhos não serão realizados somente por causa da nossa própria limitação? E por que insistimos em confundir segurança com limitação? Por que não investir na grandeza da alma e explorar outros territórios de si? Nossa lebre responde: deixem de pensar bobagem e vão fazer o certo, aquilo que esperam de vocês.
Pelo menos até o próximo coiote aparecer.
(Texto de Nivaldo Pereira, publicado no Jornal Pioneiro de hoje, 16/04)

2 comentários:

Erica Ferro disse...

Que tapão na minha cara. Ficou vermelho, cara!
Na moral, muito boa essa crônica do Nivaldo. Muito mesmo!

Cara, é horrível constatar que meu medo de fracassar em certas coisas ou de me ferir é tão grande, que eu prefiro morrer no meu fresco e confortável quarto.
Preciso me libertar de mim, urgentemente!

Fez muito bem em postar essa crônica, Seerigona!

Beijo.

Dayane Pereira disse...

Que texto! Eu posso bem dizer que me senti impotente.. Deixo tantas coisas pra depois, ou simplesmente desisto. Ah desisto! Se eu levasse até o fim tudo que começo, já seria uma artista! haha
Mas os coiotes pelo caminho me assustam..