sábado, 10 de abril de 2010

Tralhas encaixotadas

Nessa última semana, eu e o resto da família nos mudamos para os fundos da casa. Depois de anos de enrolação, finalmente a casa será reformada, evitando assim que o chão desabe de uma vez por todas. A casa, com quase 30 anos, além de buracos no assoalho, acumulou um monte de tralha, e nessa semana eu descobri coisas das quais nem desconfiava da existência.
No último mês algumas coisas já foram trazidas de lá pra cá, mas foi nessa semana que o negócio foi levado a sério. Na segunda-feira foi feita a limpa na sala. Primeiro de tudo: encaixotar os livros (Devo admitir que esse era um momento até aguardado por mim, queria 'encontrar livros perdidos', aqueles que me diziam 'A gente tem sim, tá em algum lugar por aí'.) A primeira caixa é para os livros da Agatha Christie. Ajeita de lá, ajeita de cá, e sobraram quatro. Próxima caixa. Morris West, Mario Puzo, Luís Fernando Veríssimo. E a próxima, a próxima e a próxima. Um desfile de autores e títulos. Dos títulos mais ridículos aos clássicos. Livros repetidos e raridades. No meio de tudo, a antiga edição de 'O menino do dedo verde', da minha mãe, é descoberto com a capa descolada e rasgada. Ah sim, e descobriu-se uma capa perdida, sem sinal de livro. 'E esse livro é bom', lamenta-se meu pai. Lá está também um almanaque do Pioneiro, lá do ano 1990, sobre o nordeste do estado. 'Por que guardar isso?' - pergunto eu. A resposta é simples: na época era algo importante. Hoje deve sair todo mês no Pioneiro um 'Nordeste Gaúcho', ou algo assim, mas tem toda hora. Lixo.
Atrás dos livros expostos, havia tantos outros. Da constituição federal até normas de direção de duas décadas atrás. Ah, sim, e mais duas enciclopédias, sendo que uma delas era composta por uns dez volumes de capa azul que estapavam o glorioso título: 'EES: Enciclopédia de Educação Sexual'. De onde apareceu um negócio desses? Uma enciclopédia sobre o assunto? Com vário volumes? Deve ter muita coisa a ser dita sobre o assunto. Talvez eu não devesse estranhar tanto, sendo que minha vó paterna e minha mãe são professoras. Como essa última nega a posse, deduzo que era da minha vó. Não cheguei a olhar o ano da edição, mas parecia velha, além do que, parece que faz anos que ela tava lá jogada. Continua-se a encaixotar livros e livros, e faltam caixas. Melhor deixar pra amanhã.
Próximo passo: levar os sofás. Tentei me livrar do trabalho pesado, mas não deu certo, até porque não havia mais ninguém em casa. Sem opção, melhor fazer de uma vez. Desmonta o sofá aqui e ali. O trajeto é simples: sai pela porta da sala em direção à rua, entra-se pela garagem, desce-se a rampa e larga-se o sofá na garagem de baixo, olha que simples. Primeiro o sofá pequeno. Revistas e mais revistas na gaveta do sofá. E aranhas e mais aranhas. Oh, beleza. Talvez as aranhas fizessem uso das revistas de 20 anos atrás, já que ninguém mais fazia. Gaveta levada pro devido lugar. Agora é o sofá. Oh, coisa pesada. Fazer o quê, meus pais foram burrinhos e foram atrás da moda da época. Além de um assoalho ruim, compraram um par de sofás desconfortáveis e pesados que agora eu vou ter que carregar. Certo, sofá pequeno no lugar. Agora vem o sofá grande. Sem comentários extensos, tudo que digo é: me avisem quando tiver que levar de volta os sofás, eu me sumo de casa. E depois ainda tivemos que colocar o sofá pequeno em cima do grande, pra ocupar menos espaço. Pra acabar de vez, peguei o abajur e a mesa de canto. Meu pai pegou o abajur na primeira oportunidade: 'Acho um milagre que ele continue inteiro depois de mais de 20 anos, melhor não correr o risco de que tu o quebre agora'. Oh fama familiar a minha: a destruidora de coisas.
E na terça ainda sou encarregada de limpar o armário da sala. Tentei fugir, mas não teve jeito. Tralha, tralha e mais tralha. Provas de três crianças criadas ali: albuns de bebê, cartões escolares, brinquedos e tralha, tralha e tralha. Outra coisa predominante eram as linhas e sacolas de crochê da mãe. E mofo, e mofo. Chegava a ter papel crepom apodrezido e grudado no fundo do móvel (outra coisa que diz 'Oi, sou professora e tenho três lindos filhos que sempre tem todo material necessário em casa'). Mais um pouco e eu saia correndo dali. A velha máquina de escrever. O capacete da época em que o pai andava de moto, há 22 anos inutilizado ('Quando tua irmã nasceu, eu nunca mais cheguei perto de uma moto'). E tralha e tralha e tralha. Paninho de crochê mofado aqui e acolá: lixo. Lixo, lixo, lixo. Qualquer coisa que aparecia amarelada na minha frente ia pro lixo num instante. E a tralha não acaba mais. Quem mandou ficar vegetando em casa em vez de fazer algo da vida? E a tralha, milagrosamente acaba e eu me sumo dali, fugindo de toda a tralha que sobrou na sala já vazia.
E nos dias seguintes é tirar coisa daqui e dali, arrumar isso e aquilo, e tentar empilhar tudo no primeiro espaço vazio que aparece. Ter que lembrar que não há um sofá e nem uma TV para que seja mantida a rotina de se jogar no sofá e ver se tem algo útil passando não é fácil, no começo só lembramos disso quando chegamos na sala e vemos que ela está vazia. E o grand finale é tirar as cortinas, a parte mais fácil. 'Eu e o guri fazemos isso', eis a frase que quase acabou com a minha pessoa há algumas horas atrás. 'Não ponha palavras na minha boca', é a resposta simpática do meu irmão. Sem muita discussão. Minutos depois está ele desparafusando isso e aquilo enquanto eu saio puxando e jogando cortina de cá pra lá. Depois de tudo, isso é até divertido. Os cômodos, vazios, fazem eco e, chão e paredes sujos, dão um aspecto de abandono à casa. Tudo limpo, ou melhor, vazio, porque limpo não tá... Mas isso não vem ao caso. A questão é que vejo caixas e mais caixas empilhadas, vou ter que sobreviver sem pegar os livros a todo instante e, durante o tempo de reforma, vou ter que pensar em um bom modo de me livrar do serviço pesado pós-reforma, realmente estou sem a mínima vontade de carregar sofá pra lá e pra cá... Agora vou à cata de uma TV pra ver o Piangers e aproveitar que tudo está acabado, finalmente...

8 comentários:

Marcelo Mayer disse...

desconstruindo uma casa e ao mesmo tempo construindo espaços vazios. interessante. bem interessante mesmo. principalmente pela "tragédia" de ficar sem livros.
só me faltou a sensação de me ver e me sentir dentro de 4 paredes vazias. mas ai é questão de gosto e interpretação. logo, um problema que eu tenho que resolver.

parabéns

Erica Ferro disse...

Reformar é lindo, mas não seu processo - o bom é quando está tudo pronto.
Aí, sim, é bem legal.
Eu sou preguiçosa mesmo; quando tenho que me mudar, por exemplo, arrumo minhas coisas quase à força.
Hehehe... Não nasci pro trabalho.

Juliana Mendes disse...

essa chuva terrivel está assustando todo mundo msm...
:S
td mundo se precavendo para que não haja desastres piores que esses...
S:
SEMPRE que reforma o quarto ou limpa msm, faz aquele faaxinão, eu encontro coisa inusitadas que eu supunha ter perdido...
é sempre bom, adoro!

Mauricio disse...

Malandro, o lance é a FOGUEIRA DO DESAPEGO. Fiz uma aqui no apartamento ano passado.
Ocupando espaço? Inútil? LIXO!
Acumulou lixo? Frio na rua? FOGO!

Ana Seerig disse...

Juliana: Chuva? Que chuva? Meu texto não tem nada a ver com chuva (pelo que eu me lembre, nunca tenho certeza do que eu escrevo), nem sobre alagamento, nem Rio de Janeiro... Que chuva?

jefhcardoso disse...

Jefhcardoso do bom http://jefhcardoso.blogspot.com.

Í... parece que já me perdi. É sempre assim. Eu saí do meu blog para chamar uma galera para dar uma olhada, e acabei vendo coisa interessante demais, gente interessante demais; acabei dando uma parada, uma lida... acabei mais uma vez perdido na andança por onde os caminhos nos arrastam. Mas é bom. É muito bom.
Eu vim para falar do meu O Cavaleiro da Triste Figura, e acabei encontrando este lugar. Que lugar!

Lou disse...

oi!!!! pois é, como juntamos coisas não é mesmo? Uma reforma é uma boa oportunidade de encontrar com o passado, tirar o pó e dar um oi. Engraçado, mas é bem assim. As vezes percebemos como algumas coisas não mudam, outros grandes problemas hoje já nem lembramos. os livros tem um sabor todo especial, nessa história. Minha dica seria que tu doasse alguns, os que já não são mais lidos ou mexidos. eles podem circular!! :D quem sabe alguém se interessa pela enciclopédia de educação sexual? risos

Banda Horus disse...

Ai, Ana, te imaginei carregando sofás pra lá e pra cá. Livros e mais livros, eu não ia suportar viver sem meus J. K. Rowling, Rick Riordan e L. V. Verísssimo, não mesmo. Boa sorte pra fugir do trabalho, ok?