terça-feira, 31 de agosto de 2010

O tempo e o vento - Erico Veríssimo

Hora de matar dois coelhos de uma vez: fazer um post sobre um livro (coisa que não faço desde fevereiro, quando falei de "Guerra e Paz", de Tolstoi, e falar sobre "O tempo e o vento", livro que já devo ter citado umas quantas vezes aqui, mas sobre o qual nunca parei pra falar detalhadamente. Faz um tempo que venho me enrolando pra fazer esse post, cheguei até a fazer um post, mas ficou terrivelmente confuso e não publiquei. Agora a Grazie me deu o empurrão necessário pra me fazer criar vergonha na cara dizendo que quer ler a série e acharia interessante um post sobre. Pois bem, vamos lá.
Dados básicos da série: são três livros divididos em sete volumes ("O continente" e "O retrato" em dois volumes cada e "O arquipélago", em três volumes), mescla fatos históricos e ficção, narrando fatos ocorridos entre a segunda metade do século XVIII e 1945 (com o fim do governo de Getúlio Vargas). "O continente" foi publicado em 1949, mas a trilogia só chegou ao fim em 1962 com "O aquipélago", sendo que "O retrato" foi lançado em 1951. É um dos mais importantes romances da literatura brasileira, especialmente para os gaúchos, já que narra a história do Rio Grande do Sul, servindo de referência para outros tantos autores. (Como Alcy Cheuiche, autor de "Ana sem terra", título com clara referência a uma das mais importantes personagens da saga de Veríssimo, e David Coimbra, que no livro "Canibais: paixão e morte na rua do Arvoredo", ao contar a história de uma das personagens, cita Santa Fé [cidade fictícia criada por Verissimo, onde se passa a saga] e seus moradores)
O sucesso da trilogia de Veríssimo foi tamanho que foi transformado em novela em 1967 pela Excelsior e em minissérie pela Globo, em 1985. Enquanto a primeira teve 210 capítulos, a minissérie teve apenas 25 e não serve de boa base, pois usa apenas a história de "O continente", não sugiro que vejam sem ler antes. Toda a trilha sonora da minissérie foi feita por Tom Jobim (destaque para a música "Um certo capitão Rodrigo" gravada pelos gaúchos Kleiton & Kledir). Além das adaptações pra televisão e das referências em livros, as personagens de Erico Veríssimo também inspiraram, entre tantas outras coisas, músicas ou, mais especificamente, uma música do Yamandú Costa: Ana Terra.
Já tendo base da importância que a trilogia "O tempo e o vento" teve em todos os cenários culturais, passemos para a história em si. Provavelmente, falar em Ana Terra, Bibiana e Capitão Rodrigo Cambará não é tão comum no resto do país como é no Rio Grande do Sul, são as três personagens mais lembradas, todas da primeira parte da saga, "O continente", onde são retratadas as missões jesuítas e a revolução farroupilha, concomitante com o surgimento da família Terra Cambará. O sucesso dos capítulos "Ana Terra" e "Um certo capitão Rodrigo" foi tamanho que as histórias foram publicados em livros individuais, mantendo os títulos. Para se entender: Ana Terra é a grande heróina da história, avó de Bibiana, que acaba por casar com o aventureiro e mulherengo Rodrigo Cambará. Entre uma parte e outra da história, fala-se de Licurgo Terra Cambará, neto de Bibiana, e sua família, sitiados em casa em razão de brigas políticas.
A sequência da história começa com a chegada de Rodrigo Terra Cambará, formado em medicina, à sua cidade natal: Santa Fé. Filho de Licurgo, bisneto de Bibiana e Rodrigo Cambará, é o mais novo de dois irmãos, o mais velho é Toríbio, o Bio. Irmãos extremamente opostos: Toríbio é rapaz do campo, responsável pelas fazendas da família; Rodrigo tem por sonho mimar a si mesmo cada vez mais, ir para a França e sempre ter o melhor. Em comum a característica dos Cambará: a paixão ilimitada por mulheres de todos as raças e classes sociais, o que os leva, especialmente Rodrigo, personagem principal da história narrada, a histórias complicadas, com diferentes resoluções. O título de "O retrato" faz alusão ao quadro com a representação do Dr. Rodrigo Terra Cambará por Don Pepe, pintor espanhol que vive em Santa Fé, e que acaba se tornando um dos objetos mais importantes da região. Essa parte trata com exclusividade de Rodrigo, narrando sua juventude, seu envolvimento com a política, casamento e filhos.
O fim da trilogia recebe o nome de "O arquipélago", em referência ao afastamento da família Terra Cambará, e tem como centro Floriano Terra Cambará, primogênito do Dr. Rodrigo, solteiro e escritor, para alguns o alterego de Veríssimo (sou uma desses 'alguns'). Cada um dos filhos de Rodrigo representa um sujeito da época, tendo inclusive a que 'desonra o nome da família'. Novas e velhas personagens são citadas, trazidas por momentos nostálgicos de Floriano ou em visita a Rodrigo, de cama em decorrência de um ataque cardíaco. Sempre mantendo as conversas políticas, Getúlio Vargas é citado como amigo próximo de Rodrigo, que continua com seus ideais e sempre disposto a discutir. Floriano traz à história uma visão mais poética de toda a história da família, fazendo importantes analises do próprio pai e criando teorias para explicar a destruição da família e suas próprias atitudes, guiando-nos para uma conclusão própria de toda a trilogia.
Essa foi a primeira grande saga que li e já faz algum tempo, uns cinco anos talvez, portanto creio que deixei passar muita coisa nesse post, mas já dá pra se ter uma ideia. Sem dúvidas, uma história excelente, na qual os únicos poréns que encontro são os, para mim tediosos e cansativos, debates políticos, que são extensos e tão desnecessários, penso eu, como os reais. Apesar dos pesares, vale-se ler, especialmente pelo valor histórico, com hábitos e marcos que encontramos perdidos em livros de História. Também há o lado cultural, a exposição das tradições gaúchas, com lendas, linguajar característico e relação de orgulho do povo para com o estado.
Para resumir todo o apreço que tenho pelas personagens de Veríssimo e toda a história: É o tipo de livro do qual não se cansa de falar, apesar de não encontrar palavras para descrevê-lo de maneira satisfatória.

12 comentários:

Luna Sanchez disse...

Oi, Ana!

Interessante que livros nos marcam e acabam se confundindo com o que vivíamos na época em que os lemos, concorda?

Ana Terra me emocionará para sempre, por vários motivos, incluindo isso, o que eu vivia quando mergulhei na leitura.

Um beijo, saudades!

ℓυηα

Amanda Arrais disse...

Adoro indicações de livros! Brigada.

Como a Luna eu acho também interessantíssimo a capacidade que um livro tem de nos marcar, nos mudar, nos fazer evoluir e viajar. Palavras, sempre assim.

=*

Erica Ferro disse...

Bela resenha, Seerig!
Adoro quando tu posta "críticas" de livros, de filmes, de música...
Faça isso mais vezes.

Para uma futura moradora do RS, seria uma ótima ler essa trilogia, hahahaha.

Beijo.

kaio rafael disse...

Você ganhou infinitos pontos no meu conceito. Eu gosto muito de ler, de verdade. E de "O tempo e o vento" só li os dois capítulos publicados separadamente, os dois que você citou.

Minha mãe é formada em letras, então já sabe como é... Ela fala tanto e tanto dessa saga. Mas se perderam os exemplares dela e eu sempre tô com aquela coisa pra comprar, sempre acabo procrastinando. Sem contar que provavelmente não terei tem pra ler e que estou com muitos livros bons em casa para as férias ("o nome da rosa", "baudolino" e "kant e o ornitorrinco", do Umberto Eco, alguns livros da Hannah Arendt, e alguns outros). Sou apaixonado pelo Veríssimo, o único livro afora os dois capítulos d'O Tempo e o Vento que li foi o "Incidente em Antares". Recomendo muito pra quem quiser ler. Parando de falar de mim e da minha vida de universitário que não me permite existir,

sua postagem me fez ter uma vontade gigante de ler a trilogia. Nem vou dizer que minha vontade já não era grande, sabe quando algo já imensurável ganha massa substancial e acaba se tornando necessária? Tenho tanto o que fazer! Eu adoraria ter uma vida pra estudar ler absolutamente o que me apetecesse. Ganhei de presente da minha mãe (mãe linda!) o "Grande Sertão: Veredas". Ah, ele tá lá, todo bonito, no final da lista. Que horrível não poder devorá-lo em alguns dias! Logo eu que já li "Sagarana" (facilmente um dos meus livros preferidos e invejo tanto o guimarães que chego a ficar colérico diante minha inépcia) umas quinze vezes e o tenho como meu livro favorito!

Serig, você tem um jeito impressionante com as palavras. Eu não tenho ideia de quantos anos você tem, mas seus textos são coesos mesmo quando decidem abordar temas um tanto abstratos. Acho que você explicaria muito bem algo como o "Paradoxo retroativo". asuhasuhsauhsa Sim, sim. Conhece a teoria? Pois se não, te conto um dia, em uma conversa qualquer. Voltando ao seu estilo: Não sei da sua idade, você já tá na faculdade? Pretende seguir jornalismo? Eu até que sei escrever nesse estilo, mas fica uma merda. Me agrada menos do que meus rodeios poéticos inúteis. uahsuashuash

Acho que meu comentário deve ter ficado um tanto grande e exagerado. É que você me faz pensar e ficar com água na boca por palavras, palavras, palavras!

Ah, falando em palavras, tu que gostas de ler, já chegaste perto da coleção do "guia do mochileiro das galáxias"?

sinto que seria fácil manter uma conversa contigo. Pena que eu não tenho mais tempo pra existir. Ousaria até mesmo pedir seu msn, caso ainda entrasse no meu. Bem, deixe-me ir. Minha formação social-histórica me aguarda. Também gosto do que tenho que ler pra faculdade. Menos, mas eu quem escolhi, não é? Pois bem...

Beijo.

kaio rafael disse...

ps: ultimamente tenho usado e-mail pra conversar com as pessoas, já que não entro no msn e e-mail me permite responder quando puder sem qualquer tipo de limite de caracteres. Se quiser conversar comigo, ou pelo menos responder esse meu comentário aí em cima, é kaiodiniz@hotmail.com

Não sei se você tem esse hábito, coisa de gente velha, eu sei, mas é o que eu tenho. uashuashusah

adoraria dialogar contigo.

beijo. :*

Jota disse...

Lembrei dos meus professores: eles vieram do Mato Grosso do Sul e quando chegaram na minha cidade leram inúmeros exemplares com histórias daqui, ou seja, eles sabem mais da cidade do que eu que moro aqui há 19 anos, aushahsahs.

Enfim, livro com histórias é sempre uma boa. Até!

Cacheada disse...

Eu já escrevi muito sobre o tempo e o vento...
Sem poréns, eles se manifestam inigmamente...
e a gente não pode vê-los, que sinistroo, e os dois, unidos, mudam nossas vidas.
É uma dupla que eu quero ter como aliados!

Ariela disse...

É, parece que mais alguns livros vão para a pilha da minha escrivaninha.

Pudera eu ter esse dom de fazer resenhas.

M. disse...

Ah sinto uma imensa vergonha de ter lido poucos livros nacionais.

Dayane Pereira disse...

Caaaraaacaaaa! Eu não imaginava que isso existisse. Quer dizer, uma série escrita pelo Verissimo. E bem interessante pelo visto. Bacanaaa...
Vou procurar depois.

gabriela marques. disse...

Adorei seu texto-comentário! Acho bem mais difícil comentar sobre um livro do que apenas lê-lo. Ainda mais quando seu comentário sobre a saga, me fez despertar a vontade de lê-la também!
Quem sabe depois da minha interminável lista de possíveis livros eu não os leio?
Interessantíssimo! Se um dia eu os ler, culparei você! uahuahua
Beijo.

Pandora disse...

Realmente sua resenha ficou muito boa!!! Deu vontade de desenterrar esse verdadeira epopeia brasileira... Fiquei curiosa com os debates politicos de que vc fala... com as tradições e lendas!!! Não sabia que o livro cobria um periodo tão extenso de nossa história, a passagem do século XIX para o XX, Império, Republica, Ditadura Vargas... Preciso ler, meu faro de historiadora diz que essa história vale muito a pena e sim, vc não é apenas bairrista, sabe o que é bom, mas não fique convencida, sendo professora, saber o que é bom é obrigação viu! rsrsrs