quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma grande piada

Caminhava por entre as grandes pedras do morro, subia cada vez mais, as escalava. Ao chegar lá em cima, sentou-se numa pedra lisa, provavelmente resultado das forças naturais, já que era um lugar esquecido pelo modernidade. Olhou o horizonte. Podia ver casas esquecidas entre todos os outros morros que cercavam a área. Podia ver as estradas e os raros carros que passavam por elas. Provavelmente, à noite, poderia ver muitas luzes ali, identificar cidades e vilarejos próximos. Ah, sim, era uma boa paisagem para se admirar.
Pegou-se rindo sozinho. Ah, era inevitável lembrar dela, depois de tanto tempo, ainda não a tinha esquecido. Jamais conseguiria tal façanha. Façanha. Falando assim parece que a melhor coisa que faria era esquecê-la. Mentira. Tinha certeza que era o contrário. Claro, não havia dado certo, se lamentava por tudo que tinha acontecido, pelos erros e também por ter deixado escapar as oportunidades de acerto, mas, apesar disso, esquecê-la seria esquecer uma parte de si, do que vivera, do que sonhara, do que aprendera. Ah, seria melhor viver sem lembrar de tudo que errara, mas seria pecado esquecer tudo que lhe fizera feliz. Continuava a rir sozinho. Não se importou. Estava ali, sem ser observado, livre, consigo mesmo, talvez fosse hora de, depois de todo o tempo que havia passado, finalmente libertar seus sentimentos e relembrar tudo o que tinham vivido juntos. É, aquele era o momento de se regozijar pelas alegrias e se perdoar pelas falhas.
Lembrou do dia que a viu pela primeira vez. As risadas se transformaram em gargalhadas. Era completamente ridículo o que acabara de perceber, ridículo pelo simples fato de nunca ter acreditado em algo assim, ridículo porque era assim que chamava todos que faziam referência ao tal 'amor à primeira vista'. Agora, só agora, depois de tanto tempo passado desde aquele dia, é que percebia que ela o tinha facinado desde o primeiro momento, que, como era ridículo admitir isso!, se apaixonara por ela instantaneamente. Mas como? Por quê? Era isso que tornava tudo ridículo: ele não sabia. Ela simplesmente conversava, nada mais. Conversava com o seu grupo de amigos, no qual ele se metera por um amigo comum, conversava naturalmente, sem truques, paqueras ou algo assim, mas lá estava ele, sem conseguir não olhar pra ela. Como era ridículo! Mas perceber o quão ridículo tinha sido apenas o fazia ver o quão feliz fora. Sim, agir ridiculamente, com ela, o fazia feliz.
Ridículo. Sempre se sentia ridículo ao lado dela. Do começo ao fim. Sempre. O que dizia, o que fazia... Tudo parecia absurdamente tosco. Riu ainda mais. No fundo sempre soube dessa sua felicidade tola, mas estava feliz, se ela era tola ou não, não importava. Mas agora podia rir disso. Rir de todas as vezes em que se sentiu idiotamente feliz, enquanto ela parecia não perceber isso, quando ele tinha certeza que sua tolice era óbvia. Tão óbvio quanto o fato de que sua simples presença o acalmava, fazia de problemas gigantes, formigas; de raiva descontrolada, tolice. Como tinha sido feliz. Quando essa felicidade acabara? Quando e, especialmente, como?
Era difícil dizer. Ou pelo menos parecia agora, quando tantas boas lembranças enchiam sua cabeça. Tão boas que não pareciam dar espaço pra falhas que acabariam por destruir tudo aquilo. Mas tinha acontecido. Não estavam mais juntos. Em algum ponto havia uma falha. Tão clara no momento do rompimento, agora parecia tão obscura. Talvez tudo estivesse certo demais. É, no fundo talvez tivesse sido isso, tudo estava tão certo que ele não podia acreditar e acabou por encontrar falhas onde não havia, medos inexistentes. Confiava nela, sabia que era só sua, mas o medo de perdê-la começou a domina-lo toda vez que estavam longe um do outro. Amigos. Ela era única. Irresistível pra ele, ele não podia acreditar que todo e qualquer amigo deles não tivesse um certo facínio por ela, mesmo que muito pequeno, um facínio pela sua garota. Sua. Droga! Mas ele sempre soube que ela não o trairia e que não seria tão insensível a ponto de trocá-lo por outro de um dia pra outro. Tinha sido difícil conquistá-la, só ele sabia o quão difícil tinha sido, não seria fácil pra outro tirá-la dele. Ele sempre soube disso. Sempre. Mas, apesar disso, o medo de perdê-la fazia com que fosse inadmissível aceitar que outros a olhassem. Seria isso o chamado ciúme? Sim, não, não importa, isso tinha sido o começo do fim, ele agora sabia. Riu alto. Agora sua idiotice clara era repreensível, não mais o tornava feliz, pelo contrário, tinha destruído tudo. Tudo.
Tudo o que veio a seguir foram falhas pequenas resultantes do ciúme não assumido, não justificado, não merecido. Coisas tolas, absurdamente tolas, que ela se esforçou pra ignorar, mas ele pediu desesperadamente que ela as visse, pedia toda vez que as repetia, pedia pra que tudo acabasse. E ela o ouviu. E acabou. E ele se desesperou ainda mais. A tinha perdido. Já fazia tanto tempo... Agora podia rir, e ria. Tinha sido um idiota, um grande idiota, com medo de que desse certo. Não queria assumir tamanha felicidade, preferiu destruí-la, da maneira mais tola possível. E conseguiu. Sentia-se aliviado. Durante todo esse tempo se lamuriava, a culpava, se culpava. Sim, tinha sido lindo aquilo tudo, nunca fora tão feliz e, provavelmente, não mais o seria, mas estava feito. Não tinha tido coragem pra assumir aquilo tudo. Não foi sua culpa, não foi culpa dela, apenas não estava preparado. Será? Não importava, preferia considerar essa resposta como a certa dali pra diante, era a única até agora que não lhe despertava amargura, a única que fazia ver as coisas de maneira clara. Era o fim. Tudo aquilo tinha acabado. Agora sim, tinha dado o ponto final naquela história, era hora de ir em frente, sem jamais ignorar o que tinha vindo antes.

Final alternativo: o cara se mata. (por Erica Ferro, sua contribuição para o conto)

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Como provavelmente ninguém aqui tem os mesmos problemas mentais que eu (e fico feliz por isso), o título se explica diante do fato que eu ri muito escrevendo isso. Mesmo. Há comédia maior do que um texto sentimentalista da minha pessoa? A Erica duvidava, pois aí está. Apesar de ter rido aos montes, sei que ele tem um tom meloso meigo (ou irritante, no meu ponto de vista) e que vai ter quem vá gostar, por isso o estou publicando. Comecei esse conto há mais de uma semana, com o intuito de que a Erica continuasse, mas ela parece ter achado difícil, ou 'muita responsabilidade', como ela parece ter dito. Então, aproveitando o tédio e bom humor, terminei eu mesma. Espero análises racionais sobre, já que eu não tenho capacidade para tal.

2 comentários:

Vanessa disse...

Sem palavras pro teu blog guria!
Me identifiquei muito!
Bjos
http://ameninaqueroubavaasimesma.blogspot.com

Bittencourt disse...

Sem capacidade pra análise racional é? Bom, pode até ser, mas sua capacidade pra textos excelentes parece inquestionável!

Realmente muito bacana, me diverti lendo! Eu diria também que tem um tom de veracidade muito forte, sabe...

O final alternativo é ótimo! heueuheuheu