quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quatro menos três

Domingo o Rio Grande do Sul recebeu Paul McCartney. Os gaúchos viram em primeira mão o show que os paulistas, que sempre recebem os grandes astros, verão apenas no fim do mês. Desde o anúncio do show, Paul voltou a ser um dos principais assuntos do povo (que fique claro que o uso de tal substantivo não é pejorativo, apenas um vício de linguagem da minha pessoa). Voltou, porque antes não era. Não, não era. E não me venham com essa de que Beatles nunca é esquecido e blablablá porque não vai colar, afinal o que eu digo não é que os Beatles foram esquecidos e sim que Paul McCartney já não era mais lembrado, ele, o Paul.
Aliás, voltaram a falar em McCartney, sim, mas como um ex-beatle. "Imperdível, um beatle em Porto Alegre!"; "Beatles são Beatles, Paul McCartney foi e sempre será um deles!" e blablablá. E aí? Sim, o Paul fez parte dos Beatles, é a lenda viva, um de uma das maiores duplas de compositores já existentes, um dos garotos de Liverpool, aquele que se juntou a Lennon e trouxe Harrison pra banda e que tem o título de Sir. Nada disso pode ser negado e eu nem pretendo fazê-lo. Aliás, antes que já achem que eu tenho alguma implicância com ele, me escapo admitindo que ele sempre foi meu beatle favorito. Por quê? Não faço ideia, mas eu sempre simpatizei com o Paul. Também sempre gostei muito do George e do Ringo, e John Lennon é John Lennon (apesar de achá-lo um tanto egocêntrico, seu talento é inegável), mas o Paul, cara, sempre adorei o Paul. E sim, fico feliz que ele tenha chegado até o sul do Brasil, sim, eu fico, mas...
É O PAUL MCCARTNEY, NÃO OS BEATLES!!
Não, não, nada contra ao fato dele seguir carreira solo, de modo algum, afinal os quatro fizeram isso, o que me indigna de verdade é ver as pessoas com essa de "Beatles, Beatles, Beatles" e esquecerem de que quem está lá é apenas um deles, décadas depois do fim da banda. Sim, mais de metade do repertório dele, ao que foi anunciado, é Beatles, mas seria muita burrice dele não fazer isso. O que ele vai fazer se 10%, se tanto, do público tem alguma leve noção da carreira solo dele? O que ele vai fazer se as pessoas chegam lá desesperadas com discos dos Beatles na mão, pelos quais pagaram uma fortuna, sem nunca terem se importado em ir até uma loja de CDs e descobrir o que ele tem tocado de novo? O que ele vai fazer se o mundo continua vendo-o como um beatle, parceiro de John Lennon, e esquecendo-se de que ele teve vida após o fim da banda?
Não, eu não sei bulhufas da carreira solo dele. E meu conhecimento de Beatles também não é dos grandes, melhor que de alguns, mas não muito. Mas... EU NÃO FUI NO SHOW. Não, não, eu não tô crucificando quem foi no show. De modo algum. E falo sério. Mas bah, ir num show só por que ele já foi um beatle? O pior de tudo é que grande parte dos que foram não devem nem chegar aos pés de muitos beatlemaníacos por aí, que conhecem Beatles mais por receber o título de uma das melhores da história da música do que por real interesse, pessoas que ouvem Beatles porque sabem que um ser que diz não ouvir tal banda não recebe grandes créditos, pessoas que conhecem dois discos da banda e acham que sabem tudo, pessoas que SÓ sabem que Paul foi um d'Os Beatles, pessoas que não sabem mais nada, pessoas que foram no show porque todo mundo disse que era um momento histórico, pessoas que não pensaram por si e não deram metade do valor que muitos beatlemaníacos dariam.
Certo, acho que isso está ficando confuso. E eu talvez esteja parecendo mais indignada do que realmente estou. Vamos tentar de outra forma. Por que ir num show do Paul McCartney?
Porque ele fez parte dos Beatles.
Porque ele é um grande músico. (Por que ele é um grande músico? Porque fez parte dos Beatles.)
Porque pode não haver outra chance. (E por que é tão importante não perder essa chance? Porque ele é um grande músico. Por que ele é um grande músico? Porque fez parte dos Beatles.)
Porque ele foi e sempre será um beatle. (= Porque ele fez parte dos Beatles.)
Porque ele compôs em parceria com o John algumas das melhores músicas já feitas. (Por que ele compôs tais músicas? Porque ele fez parte dos Beatles.)
Porque...
Qualquer resposta acaba em "Porque ele fez parte dos Beatles". Aí um, mais esperto, vai me dizer: "Ei, e Wings? Ele fundou a banda e eles tem músicas boas." Meus parabéns, tu conhece The Wings, provavelmente melhor que eu. Porque sim, eu não sou beatlemaníaca e nem uma pseudobiógrafa do Paul, longe disso. Mas e da carreira solo dele. Quantas música tu conhece? Quantos CDs tu tem? Quantas tu sabe cantar? Deviam ter dado um prêmio pra cada um que foi ao show e sabia TUDO de Paul, que não foi por ir, que não foi por Beatles, que foi pra ver Paul McCartney e não o que restou da banda formada em Liverpool. Garanto que devia dar pra contar nos dedos das mãos.
Se eu não sou uma alucinada por Beatles, mas sim, admito, uma criatura completamente desinformada sobre a banda e seus integrantes, por que eu tô implicando aqui? Não sei. Apenas me parece algo terrivelmente errado ver apenas o passado de alguém, ingnorar o que se seguiu, idolatrar o que ele foi e não o que é. Alguém dirá que, se a carreira solo dele não é conhecida, é porque ele nunca fez algo que merecesse ser reconhecido. Concordo, aliás, não tem como discordar. Mas fãs que são fãs de verdade, dos integrantes, não apenas da banda, vão buscar saber o que eles tem feito. Ou não? De verdade, não sei o que dizer, não posso me dizer conhecedora de alguma banda específica, não tenho nenhum grande vício, então não sei dizer como maníacos agem. Certo, deixe-me tentar entender. Vou fazer um teste comigo mesma. Escolhendo Creedence, uma banda antiga que sempre conheci mas que há pouco me despertou maior interesse, da qual, admito, não sei muito, mas da qual posso me dizer fã. Certo, banda escolhida. A banda acabou há anos atrás, ignoremos a formação atual, composta por metade dos integrantes originais. John Forgety era o líder da banda e hoje segue carreira solo. Se ele viesse pra cá, eu, como fã do Creedence, me desesperaria para vê-lo? ... Por mais que pense, minha resposta não consegue ser diferente: não, porque apesar dele ter a voz do Creedence, incomparável, ele NÃO É o Creedence Clearwater Revival.
Creedence não é Beatles. Forgety não é McCartney. Comparação tosca. Eu sei, ainda mais admitindo meu não-fanatismo pela banda. Mas aí me explique: como fanáticos por Beatles, com discos e tudo mais, que se orgulham de saber tudo, podem não conhecer o que Paul e Ringo (sim, Ringo ainda está aí, não o esqueçamos! Mas ele não pode viver de cantar Beatles, porque ele não era, definitivamente, o principal compositor do quarteto) fazem nos dias de hoje? Ah, gostam só da fase beatle? Então, por que diabos ir no show de Sir Paul McCartney décadas depois do fim da banda? Ao vivo ou não, jamais o Paul sozinho poderia reproduzir o que faziam quatro. Sim, sim, tu viu um show de um beatle, mas eram Os Beatles?
Adoraria engolir minhas palavras, gostaria que me dissessem: "Fui no show por Paul ser Paul, não um beatle", mas acho difícil que isso ocorra. Escrevi, escrevi e nada disse. Resumo e fim: Paul foi um do quarteto de Liverpool isso é fato, nada pode mudar, mas já não é mais, passou. Agora Paul é apenas Paul, não um dos quatro. O Paul de hoje não é o parceiro do John, mas sim alguém que já o foi. Os Beatles acabaram, John foi assassinado, George toca sua cítara em algum universo paralelo, mas Ringo e Paul continuam aí, sempre em frente, vivendo. Não, eles não pararam de viver nos anos 70, não, ainda estão aí, então por que prendê-los no passado? Seja fã de Beatles, seja mesmo, impossível não ser, mas não vá ver um deles apenas pelos Beatles, e sim pelos grandes músicos que foram e são. São. Eles continuam aí. Não, não esqueçam que Ringo e Paul foram parte dos Beatles, mas também não esqueçam que eles não são SÓ Beatles.

3 comentários:

mayer | kafrouni disse...

Faz sentido o que disse.
Sabe que durante a fase do Wings, o Paul colocou uma regra de que não tocariam nenhuma música dos Beatles? Isso foi até 1976. Só depois de Band On The Run, que é aclamado com um dos melhores discos da história - e o Wings ganhou status de grande banda - é que Paul se sentia melhor para poder tocar músicas dos Beatles ao vivo de novo. Achei bom da parte dele isso. Foi sincero

GrazieWecker disse...

quando anunciaram o show do Paul, e comecei a ver um monte de gente histérica por isso, fiquei com essa mesma impressão... estão indo lá achando que verão The Beatles... Mas eu mesma também pensei em ir, mesmo nunca tendo sido nem beatlemaníaca nem muito menos conhecedora da carreira solo de Paul (e eu tinha consciência disso hahahaha), mas simplesmente porque eu sabia que aquele seria um show bom. Mas o anuncio foi tão em cima que não deu tempo de levantar a grana.

Acredito que uma graaande parcela se enquadra aí no teu post. E tem uma pequena parcela que foi por causa do Paul. e eu seria da parcela que iria simplesmente por saber que ele, tendo sido um beatle, não deixaria a desejar... ^^

Luna Sanchez disse...

Também não fui ao show (e teve gente me chamando de doida no Twitter por conta disso...) nem senti vontade.

Simples assim.

Manjo patavina dos Beatles e menos ainda do Paul.

Beijo, Ana.

ℓυηα