sábado, 29 de janeiro de 2011

- Uéééélintooom

Estava eu deitada na beira da praia, tentando superar o fim d'O visconde de Bragelone (livro de 10 volumes que encerra a trilogia d'Os três mosqueteiras, da qual talvez eu fale descentemente um dia por aqui) e, portanto, remoendo a história, quando ouço esse belo grito vindo logo ali do lado.

- Uéééééélintoom, vem cá!

(Como eu sei que as pessoas são tão criativas e há a possibilidade do nome gritado não ser escrito da forma que suponho correta, Wellington, acho mais justo grafar a sonorização do grito.)

E durante uns cinco minutos foi só o que eu ouvi.

- Uééééélintoom! Uéééélintoom!

Como todos sabem, sou mesmo um poço de calma e, ao contrário do que alguns malucos aí possam pensar, eu não executei qualquer tipo de violência para com a autora daquele grito irritante (nunca mais conseguirei ouvir tal nome sem lembrar dos gritos, nem sei se terapia me ajudará a superar o trauma), nem verbal nem fisicamente. Não, eu simplesmente me sujeitei a tentar entender a situação e, para tal, virei meu rosto - discretamente - para a direção dos gritos.

Ali, embaixo de um guarda-sol (não peça detalhes como cor ou posição ou distância, sou péssima nisso, especialmente com gritos no meu ouvido), havia:

- uma criatura com lá seus 40 anos, de biquíni preto e que, coisa que eu havia reparado no dia anterior, era um pimentão vivo. Não sei se o cérebro já tinha sido cozido ou que a sensibilidade dela já estivesse zerada tamanha era a vermelhidão, mas mesmo queimada, lá estava o ser estatelado em uma toalha, na cara do sol - falha minha, nem todos estavam embaixo do guarda-sol.

- uma outra mulher, de mesma idade que a Mulher-Pimentão provavelmente, sentada numa cadeira de praia, parecendo ignorar os gritos, assim como a outra.

- a autora dos gritos: uma guria de, sei lá, uns vinte e tantos anos, folgadamente instalada numa cadeira reclinável, que certamente era muito confortável, já que ela preferia irritar quem estivesse próximo com seus gritos, mesmo percebendo que eles eram voluntariamente ignorados.

Às voltas do guarda-sol havia um guri meio Jonathan (essa é a única definição que encontro pro ser, inspirada em um aluno "adorável" da escola em que vez por outra eu fazia boas ações - magnânimas quando feitas em salas com Jonathans da vida), que corria pra lá e pra cá com uma guria que... podia ser normal. Ambos deviam ter cerca de 10 anos em média. Descobri que tal Jonathan (se for tão diícil entender o grau de adorabilidade de um Jonathan, posteriormente faço uma explicação, se assim quiserem) chamava-se Guilherme (eu digo que pessoas com tais nomes nunca são seres que dispõem da minha paciência, pra não dizer mais, a exceção do irmãozinho de uma amiga minha - o único gremista da família, como eu posso não simpatizar e incentivar tal ser? - e, claro, o meu caríssimo Blueman, que aliás, eu ainda duvido que tenha tal nome, apesar dele alegar que sim, mas enfim, continua como Blue mesmo que é mais bonito - garanto que minha preferência por azul não por simples vício futebolístico, ou acho que não - e impede que eu lembre de todos os Guilhermes toscos e sem-cérebro que conheci), através de tal grito:

- Guiiiii, pega o Uéééélintoom e traz pra cá.

Aí eu descobri quem era a critura que atendia (ou antes, não atendia) pelo nome tantas vezes gritados. Foi-se o Jonathan (sim, fica como Jonathan), com seu bonézinho colorado na cabeça - que eu só vi DEPOIS de ter percebido que ele era um Jonathan - atrás de um gurizinho de seus três anos, se tanto, que andava de lá pra cá na beira do mar, beira mesmo, mal as ondas chegavam a seus pés. E foi o nosso pobre Uéééélintoom arrastado pelo braço pelo Jonathan, provando mas uma vez ser um Jonathan.

Sim, nosso pobre Uéééélintoom, porque a essas alturas eu já tava com pena do piá, pelos gritos e pelo fato de ser assim arrastado pelo braço. Pobre ser. Mas era esperto, além de ignorar os gritos - guri gênio fez belamente a mãe passar por fiasquenta e, especialmente, imprestável -, escutou o pequeno discurso que o esperava e disfarçadamente mandou-se de volta para o lugar em que estava até que o Jonathan executasse a ordem que lhe fora incubida também aos gritos.

O discurso supereducativo foi o seguinte:

- O que nós combinamos antes de sair de casa? Hein, Uélintom? Tu é burro ou tu é inteligente? (SIM, EU OUVI ISSO) Fica aqui, bem aqui.

É importante destacar que, durante os gritos, a execução da ordem dada ao Jonathan e o discurso, a que, creio, era mãe do nosso herói (sim, é realmente uma saga), não moveu um centímetro seu belo corpo da confortável cadeira. Isso mesmo: gritou, deu ordens e discursou ali mesmo, sentadinha, como se fosse a coisa mais normal seres saírem, ou melhor, sentados, gritando e incentivando a lei do mais forte entre crianças. Mas, como já disse, nosso caro Uéééélintoom esnobou a ordem de permanecer para onde tinha sido arrastado e se aventurou a voltar ao lugar onde estava.

Apesar disso, o silêncio pareceu retornar. Vejamos, onde estava? Ah, sim. Luísa nojentinha desprezou o Raul - lindo, querido, amado, coisafofa - pelo Luis, deu nisso... E daí que ele era rei? Putz, só o fato do Raul ser filho do...

- Uéééélintoom! Uééééééélintooom!

Ai, meu querido Dumas, não é hoje que eu supero o fim do livro. Parece que descobriram que o piá voltou pra água. Mas, tchê, custa muito ir lá um pouco com o guri? E se quer que ele te obedeça vai lá e traz ele pra cá e faz uma palestra decentemente! Depois não sabem porquê as crianças viram Jonathans da vida... Mas calma, tô calma, se eu tivesse tentando ler eu realmente teria com o que me irritar. Ignora, Ana, ignora. Vejamos, tá, sim, o Raul é o cara mais querido do universo só por ser filho de quem é... Imagina, o conde de L...

-Uéééélintoom!

Ignora, Ana, ignora.

- Uééééli!

Pelo menos o grito mudou. Agora é só Uéli. E seguido de uma risadinha. É claro que ele vai te obedecer, sobrinha da Mulher-Pimentão (sim, descoberta feita entre um e outro grito).

Acabei por desistir de maldizer mentalmente a boca-aberta da Luisa que fez o que fez com o Raul - que entrou imediatamente na minha lista de personagens mais adorados de livros assim que deu as caras na trilogia, pelo simples fato de ser filho do...

- Uéééélintoom!

Certo, chega. Melhor nem pensar mais. Aliás, já tô começando a me acostumar com o grito... Olha, se eu fosse MC (cofcof), faria um funk: Uéééélintoom, Uélintom, Uélintom, Uélintom... Uééééli...Uéééélintom.

E foi grito pra ele vir, pra ele largar o cachorro que apareceu sei lá de onde, pra ele ir ali e não lá... Até que o nosso herói achou mais divertido mudar seus rumos e simplesmente dar às costas à praia, desbravando o caminho até sua casa ou, quem sabe, um lugar mais interessante, sendo seguido alguns minutos depois pelo Jonathan e a guria que simplesmente fazia nada e seguia todo mundo, que foram seguidos, ainda minutos mais tardes, pelos homens que ali tinham aparecido durante toda a saga, enquanto as três sereias - como meu galante tio chama qualquer mulher à beira-mar, mesmo que Moby (Dick) caia melhor, como meu pai com certeza chamaria - continuavam estateladas ali, inclusive a Mulher-Pimentão, parecendo nem perceber que o nosso bravo mocinho, seu carcereiro e a Maria-vai-com-as-outras tinham sumido. Eis a prova de que o senso maternal, se não inexistente em algumas mulheres, pode ser esquecido diante do desejo de "pegar um bronze".

E, minha cara Mulher-Pimentão, estar de um tom vermelho que reflete não é sinal de bronzeado. Com essa bela dica, terminamos, pelo menos momentaneamente, ou por esse verão, a saga do Uéééélintoom. Futuramente, tal grito poderá ser reconhecido e, portanto, termos mais aventuras do piá loiro que, com sua cara de santo, aos três anos é um revolucionário. Então, gritemos todos agora, em sua homenagem: Uéééélintoom!
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Pois estão, pessoas, esse ano vou enlouquecer a família gritando Uéééélintom... Só escrevendo aqui é que percebi quanto simpatizei com o piá, apesar dele ser o culpado dos gritos. Mas enfim. Com isso e cantando, veja bem, cantando "Você não é melancia mas 'cê mente pra danar", ou declamando, porque o negócio é profundo. Não é qualquer um que tem a genialidade e a coragem de cantar algo com um trocadilho desse porte ('cê mente = semente, que tem tudo a ver com melancia). Como descobri tal obra prima? Quando eu não estava na beira da praia lendo, ouvindo o grito Uéééélingtom ou fingindo tomar chimarrão com a mãe, eu tava ou lendo em casa, ou me viciando em jogo de celular, ou sendo atormentada pelos meus queridos irmão e primo, eu tava tentando achar algo útil na TV (quando não tava no horário do Mundo de Beakman) e dei de cara com uma criatura cantando isso e anunciando o nome do tão incomparável compositor (e poeta, combinemos).
Mas enfim, pessoas, era isso.
Ah, sim. Dei uma passada numa Lan House no meu veraneio e publiquei um post já pronto. Provando que o calor devorava meu cérebro, não mudei a data (não até hoje) e ele foi publicado como 09/01, data em que foi feito - ou antes iniciado, do que 19/01, dia em que eu realmente o publiquei. Acabou que ninguém viu a atualização, acho, ou não pelo painel. Enfim, se não leu, leia. Não é longo, é musical. E, se alguém da trela pro meu gosto musical, talvez se interesse.
Agora sim, é isso.
Até, povo.

4 comentários:

GrazieWecker disse...

hahaha se tu fosse MC teria gravado aquela propaganda de toque de celulares... "Uéééélintoom, te ligam, Uéééélintoom, atende" HASUHAUSHASUHASUASUHAUSA



cara, eu já vi em comunidades que o Mundo de Beakman voltou a passar, e já vi propaganda dele na TVE, mas não consigo acertar o horário!!!!! :/

Rebeca Postigo disse...

Uéééélintoom!!!!
Adorei!!!
Sabe...
Encontramos cada figura nesse mundo...
Ri muito com seu post...

Bjs

Samuel Santos disse...

ahahhaha uélintooom rsrsrs ainda bem que és uma pessoa paciente e descreveu bem a saga do pequeno revolucionário rs

quanto ao post musical eu li ^^ e comentei...espero mais posts

ate mais ;D bjs

Bittencourt disse...

UÉÉÉEELINTOOOOOM! HEUheuHEUhueHUEHue

Rapaz, de tanto você falar, as vezes eu mesmo começo a duvidar que o nome dele é Guilherme. Que truque mental Jedi você fez em mim!

Mas agora falando sério... essa coisa da "disciplina do grito" é algo muito tenso. Acho isso muitissimo interessante, porque vejo todo dia em casa. Não sei exatamente o que causa essa disposição toda pra gritar, mas eu sei que a criança simplesmente desenvolve mais resistência, já que torna-se cada vez mais fácil ignorar um maluco gritando do seu lado. Resultado: a criança cresce sem limites e os pais, sem moral.