domingo, 9 de janeiro de 2011

Um causo

- Buenas!
- Ah, pai, finalmente o senhor chegou. Bem sabes que tenho que ir à missa que pedimos para Ivone. Já devem estar me esperando para irmos à igreja. Sente-se aqui e faça sala à nossa visita. - E virando-se para aquele que estava sentado à sua frente: - Mais uma vez, desculpe-me. Saio às pressas, mas já expliquei a razão, não sei se de maneira clara, mas da melhor forma possível. Meu pai sabe o caso melhor que eu, se é que estás curioso. Realmente preciso ir, mas espero que, da próxima vez que vieres aqui, não tenha eu a necessidade de sair, ainda mais desse modo.
Mal terminou de falar, estendeu a mão ao visitante, pegou sua bolsa e saiu. Ainda de pé, seu pai pode vê-la pela janela andando pela trilha que levava até a casa vizinha, onde a esperavam. Riu consigo mesmo da pressa da filha e do modo rápido com que caminhava. Lembrou-se então do visitante, foi até ele, estendeu-lhe a mão e disse:
- Há quanto tempo o senhor não nos dá notícia, hein? Por onde tens andado?
- Apenas preso na cidade. Uma vez lá, dificilmente se escapa. Faço o possível para vez por outra refugiar-me no campo e rever familiares e conhecidos, mas o consigo com menos frequência do que gostaria.
Maneco, o pai daquela que acabava de sair correndo dali, sorriu como se dissesse "Bem o sei" e, recebendo a cuia do visitante, vendo-o lavado, pôs-se a fazer outro.
- Será que o senhor poderia me explicar para onde ela foi com tanta pressa? Entendi apenas que é uma missa para uma pobre moça cuja morte ela tentou explicar-me mas não entendi. A palavra da qual mais me lembro é "escada", que parece ser a maior lembrança dela sobre o caso, o que me deixa ainda mais encucado.
Maneco riu para si e, olhando para o visitante curioso, ficou subitamente sério.
- É uma história complicada e, especialmente, triste. Aconteceu há muito tempo, minha filha devia ter seus 5 anos ou quem sabe menos, ou seja, há mais de 30 anos que tudo isso se passou. Queres mesmo ouvir a história?
- Se não for pedir muito. - respondeu simplesmente o visitante.
- Histórias passadas são difíceis de desenterrar, mas essa está completamente viva em minha mente. A moça cuja missa é dedicada era prima de minha esposa, morava justamente nessa chácara ao lado, junto com seus pais e irmãos. Ou pelo menos ali estava quando fez o que fez.
- O que ela fez?
- Espere um minuto, já me sento aí e conto tudo. - Disse com um sorriso triste.
O visitante assentiu com a cabeça e o observou Maneco colocar àgua quente na garrafa térmica e tomar o primeiro mate. Em seguida, com a cuia em uma mão e a garrafa em outra, sentou-se na cadeira antes ocupada pela filha, encheu a cuia e passou-a ao visitante.
- Os donos atuais da casa ao lado moram na cidade e, portanto, contrataram caseiros, que cuidam do gado e tudo mais. São eles um casal com seu filho, sendo o pai da família primo de meus filhos.
- Parentes! - disse o visitante, na tentativa de aliviar aquele ar triste que vinha de seu interlocutor. Este riu.
- Sim, parentes por toda parte! - Voltou ao ar sério. - Talvez o senhor, morando agora na cidade, não dê atenção a este detalhe e o chame de bobagem, mas a esposa desse caseiro, na última vez que aqui esteve, reclamou de mal estar, enquanto seu marido reclamava de suas súbitas mudanças de humor que, por vezes, assustavam o filho. A explicação que encontraram pra isso e que eu, homem nascido e criado no campo, com suas crendices e tradições, acredito, é que ela tem sido afetada pelo espírito da moça que, há trinta anos atrás, ali se matou.
- Matou-se? - O visitante pareceu espantado. E, diante de um assentimento de cabeça do anfitrião, continuou: - Lembre-se que me criei no campo, seu Maneco, e, portanto, conheço muitas dessas crendices. Deixe-me ver se entendi: creem então que o espírito da moça suicida está inquieto por ter sido esquecido e, portanto, querem dedicar-lhes algumas missas e preces na tentativa de acalmá-lo.
- Certo. Fico feliz em ver que, diferente da maioria dos que nascem aqui e correm para a cidade assim que conseguem colocar um pé diante do outro, tu não deixastes de lado tua cultura e, ao que me parece, nem te envergonhas dela. Vê-se logo que és filho do teu pai mesmo. - Disse, sorrindo por momentos.
- Mas e por que afinal a moça matou-se? - Questionou o curioso visitante, depois de um breve silêncio, não cansando de perguntas.
- Bem, na época muitas das moças da região optavam por serem professoras, coisa simples naquele tempo, sem muitas exigências. Ivone, a moça da qual falamos, foi chamada para dar aulas aos filhos de um rico fazendeiro das redondezas e, portanto, mudou-se para lá. - Calou-se por momentos. - Ao que parece, o patrão abusava da moça e, quando esta veio de férias para a casa dos pais, estava muito assustada e triste. Tinha ela medo de estar grávida. O pai, respeitando os costumes da época, desprezava a filha, afinal não era virgem, não merecendo e sem condições portanto de um casamento honrado como era exigido pela sociedade. Ela sentia muito isso e, com todas essas preocupações e lamentos, acabou tomando veneno.
- Veneno?
- Campo, queijo, vacas. Veneno para carrapatos e outras coisas não podem faltar em uma fazenda, mesmo que simples.
- E os irmãos? A mãe? Ninguém suspeitou de que ela pudesse fazer isso e tentou evitar?
- Dizem hoje que tentaram esconder tais venenos da moça, tentando evitar o pior, mas não adiantou. Mas o pior de tudo é que ela arrependeu-se depois de tomar o veneno.
- É mesmo?
- Sim, pediu a um dos irmãos que lhe levasse leite, estava ela então no quarto, no giral, ou sótio, ou sótão, como queira.
- E então?
- Levaram-lhe, mas apenas um copo. Tal veneno pode ser removido com leite, mas muito leite, um copo é insuficiente. O fim o senhor já sabe.
Ambos ficaram em silêncio durante minutos. Maneco estava tocado pelas lembranças. Não chorava, claro, difícil um homem como ele fazer isso, mas sentia a voz embargada. O visitante, que ouvira tudo com grande atenção, digeria a história e fazia um anotação mental para que lembrasse de tal moça na hora de suas orações ou o mais parecido com isso que fizesse. Lembrou-se então de um detalhe ainda não explicado:
- E a escada?
- Ah, sim. Bem, melhor seria perguntar a ela e não a mim a explicação de tal lembrança mas, se não me engano, da última vez que falamos nisso, o que já faz algum tempo, disse minha filha que lembra de, ao termos sido chamados pelo irmão mais moço da jovem, ter sido deixada ao pé da escada que levava ao giral por minha esposa, que fora ajudar a vestir a moça para o velório - resultando disso que testemunhava a quem fosse que a moça não estava grávida por sinais claros nas vestes desta -, e de onde pode ver-me descendo com a moça nos braços. Tinha ela cinco anos e jamais esqueceu-se da escada, quando vai até lá e a vê não consegue ignorar tal lembrança.
Novo silêncio.
- É uma história única, sem dúvida, e verdadeiramente triste. - Disse o visitante e, olhando o relógio em seu pulso, acrescentou: - Mas barbaridade, veja que horas são! O sol ali desponta e, se me demorar mais, é capaz de sua filha chegar e ainda aqui me encontrar. Aí de visitante à hóspede é um pulo. - Sorriu. - Foi muito bom ver o senhor e sua filha, Maneco, há muito que retardava esta visita, mas agora tenho que me pôr a caminho da casa de minha irmã, a quem prometi visitar ainda hoje. Agradeço e peço desculpas por fazê-lo recordar tal história que, visivelmente, ainda abala tuas emoções, o que é altamente compreensível. Lembre-se de não deixarem insinuar tais histórias em minha presença pois, como podes ver, sou mesmo muito curioso.
Maneco riu.
- És moço, tens mesmo que ser curioso. Não demores para repetir a visita, tentarei lembrar de mais algum causo para distraí-lo da próxima vez. Sim, as histórias do passado abalam-me de certo modo, mas apenas por tê-las vivido. Sendo assim, não só não posso esquecê-las, como também não posso negar-me a contá-las. Histórias são histórias e, se é necessária outra razão para contá-las que não o entreterimento, que seja a vontade de evitar que alguns casos se repitam. Vá em paz, meu caro, a casa é tua, jamais evite tornar aqui.
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Em raro depoimento, devo admitir que gostei do que acabo de escrever. Não sei se isto torna a história mais interessante ou não, mas devo admitir que tal causo, exceto pela situação em que foi apresentado, não é ficção. É mesmo um causo, muitos do que minha raiz campeira me fez ouvir (entre outras palavras: fins de semana no meio do mato). Maneco existe. Ou antes é inspirado em meu avô materno, conhecido também como Maneco. A moça que lembra da tal escada, é minha mãe. A moça que se envenenou, Ivone, era prima de minha avó. O caseiro, sim, é primo de minha mãe e, o testemunho de tais mudanças de humor e mal estar por parte da esposa, esse sim, eu testemunhei. Quem sabe, torne a descrever alguns dos causos que escuto vez por outra, se for tão interessante a vocês que leem quanto é pra mim que me divirto só em imaginar uma forma de transcrevê-los.
De qualquer modo, até mais ver, povo.

6 comentários:

Erica Ferro disse...

Ah, Seerig, adoro ouvir esses causos! E ler é igualmente adorável, ainda mais se for tão bem escrito como esse.

Enfim, é claro que eu quero que você poste mais desses causos por aqui. Acho que os seus leitores irão querer o mesmo.

Um abraço.

Rebeca Postigo disse...

Gostei do causo!!!
Às vezes minha avó começa a contar vários causos...
Me divirto muito com eles...
A narrativa ficou leve e cativante...
Como a Erica disse...
Ficou muito bem escrito...
Fiquei com gostinho de quero mais...
Hehehe...

Bjs

Daisy-se disse...

Os melhores causos são sem dúvida, os da cadeirinha do vovô... E a sabedoria que só a experiência e alguns anos trazem...
Bom texto moça!

GrazieWecker disse...

me arrepiei um pouco quando li o últipo parágrafo - não o do causo, mas o da parte que tu torna ele real...

e o causo ficou bem escrito/contado!

Dayane Pereira disse...

Nossa, que legal ouvir causos assim de familia, ainda mais bacana é se forem reais. gostei da forma que foi apresentado, muito interessante. Conte mais !

Ariela disse...

A história ficou realmente muito boa. E o fato de ser real deixou tudo muito mais interessante.

Também fico na espera de mais causos!