sábado, 5 de fevereiro de 2011

Uma efêmera abstração

- Deixe-me explicar uma coisa, querida, para que você entenda: passado, presente e futuro são meras abstrações de nossa mente racional que insiste em tentar enquadrar o tempo dentro de um esquema funcional teórico que se adeque à necessidade que temos de compreender o incompreensível de nossa existência, sacou?

Espere, deixe-me continuar, ainda não terminei, baixe esse braço com o balde e tire a outra mãozinha da cintura. Esse cenho franzido é porque não entendeste nada do que eu disse, não é, amor? Pois deixa que eu explico como se você tivesse cinco anos. Senta aqui um pouquinho. É assim, ó: passado, presente e futuro não existem. O que há é um fluxo contínuo da existência dos seres e das coisas. Existe o ser, e ao mesmo tempo existe o nada. O ser e o nada, pescou? Portanto, o passado não existe e nunca existiu, porque, quando o passado estava ativo, ele era o presente naquele momento, entende? Tampouco existe o futuro, porque quando aquilo que denominamos como futuro chega, ele se transforma automaticamente em presente.

E o presente é outra abstração, porque ele flui continuamente, escorrega pelos nossos dedos no exato momento em que nossa mente se fixa nele, e imediatamente ele já é um passado transformando-se no futuro que se presentifica. Sem beliscar, sem beliscar, meu bem, para e escuta mais um pouquinho!

Olha só: seguindo a lógica do meu raciocínio, pois você sabe que os homens têm pensamento mais racional e as mulheres mais emocional (por isso que estás bravinha, meu amor, tudo é científico, vês?), seguindo essa lógica, fica claro que é injusta a acusação que você faz de que eu fico o tempo todo sentado no sofá comendo porcaria e olhando televisão enquanto você faxina a casa, porque você disse isso no passado, que não existe, e o presente não é este que você julga estar vendo. Quando eu digo que farei a faxina, você deve contabilizar essa promessa como algo já realizado, uma vez que acabo de te provar que... ei... benzinho... largue o chinelo... que é isso... tá bom, tá bom eu vou, eu vou, eu limpo. Me dá aqui esse balde e esse pano. Contra o chinelo, não há argumento científico que se imponha mesmo...

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Fazia algum tempo que eu não postava aqui textos de verdadeiros cronistas e, por alguma razão, ainda não tinha colocado nenhum do Kirst aqui. Dois coelhos de uma vez. Essa crônica foi publicada ontem (04/02) no Jornal Pioneiro, mas vale olhar o blog dele pra ler mais.

5 comentários:

Dayane Pereira disse...

Boa! Gostei muito dessa crônica. Muito bem escolhida. Quando eu começo a pensar nessa complexidade do tempo, fico maluca.

Natália disse...

Não gosto muito de pensar nessas coisas fico muito confusa.

Cronista de verdade mesmo. Beijo

Babizinha disse...

Ah, como eu ri. O cara escreve bem, hein. Posso ser assim quando crescer?
Adoro ler essas maluquices que envolvem o tempo!

Beijos, Seerig.
:*

Bittencourt disse...

Derreteu meu cérebro.

E vou usar essa técnica...

Balzaquiana com 'Z' disse...

Com o senhor meu mardio eu não chego a mostrar o chinelo... eu apenas pergunto: - você tem amor a vida? Só isso basta! rs

BeijoZzz