sábado, 16 de abril de 2011

Somos quem podemos ser (?)

Na última terça-feira estreiou na UCSfm o programa Depois de Clarice, uma clara homenagem à Clarice Lispector (da qual, confesso, nunca li nada, a não ser crônicas... e numa colêtanea com textos do Sabino, Mendes Campos e Rubem Braga, então acho que será completamente compreensível dizer que não gostei nada das crônicas dela. Quanto aos romances, uma hora crio vergonha pra ler). O programa, feito por quatro jornalistas, estreiou em grande estilo, tendo por inspiração o verso que dá título à clássica música dos Engenheiros do Hawaii, transformada com a simples colocação de um ponto de interrogação no seu fim: Somos quem podemos ser?
De pé, ali no extinto ponto de carona da UCS, quando saia do curso de alemão e ouvia o programa é que percebi o simples: tal frase é uma limitação tremenda. Dizer "Eu sou o que posso ser" é dizer "Pronto, a partir de agora meus dias serão iguais, sou o máximo". Claro, como o próprio Humberto Gessinger falou no programa (veja o nível da estréia, já começa com uma participação dessas...), o verso seguinte, "sonhos que podemos ter", é o extremo oposto do que o antecede, afinal sempre sonhar com algo, desejar ir em frente, é viver, é enfrentar desafios, é jamais encontrar um limite para se alcançar.
Mas também tem o outro lado: dizer que se é o que se pode, é dizer que se faz o melhor. Ou não? Também pode ser uma forma de dizer: "Pronto, passei por isso. Aqui estou. Consegui." Passa-se então algum tempo alegrando-se com a conquista, com o desafio superado, sonha-se o sonho seguinte e então mãos à obra.
Conseguir perceber a mudança pela qual se passou e orgulhar-se dela sem esquecer que nem tudo está conquistado é, ao meu modo de ver, viver. Melhor do que dizer "Eu cheguei onde queria" é dizer "Eu posso chegar mais longe". Não se deve excluir nenhum desses momentos, a satisfação da conquista e a percepção do desafio seguinte, porque ambos são de importância gigante para o crescimento e satisfação pessoal.
Parabenizar-se pelo que fez não é egocentrismo ou algo do gênero, é dizer a si mesmo "Eu fui capaz"; do mesmo modo que buscar ser melhor não é eterna insatisfação, é provar a si que está vivo e ainda tem o que conquistar. Desnecessário é, então, dizer, que seguir apenas uma dessas linhas é tolice, afinal uma depende da outra para que os benefícios possam ser plenos. Não diga apenas "Eu consegui" assim como também não diga "Eu tenho muito a conquistar". Não, repetindo o dito antes, parabenize-se pelo momento e aproveite-o sem esquecer que tem sempre um passo a ser dado.


Pra finalizar o post, nada melhor que o clipe da música que inspirou "as Clarices" e cujo tema eu roubei. Veja aí, o guri Gessinger e seus loirosos cabelos:



5 comentários:

Alynne Moreira disse...

Eu ainda me surpreendo em como tu escreve e se expressa bem Ana. Concordo com o que tu disse. Foi um otimo post.

Allyne Araújo disse...

bem.. certa vez nós discutimos essa letra em sala de aula, e ela, pelas nossas conclusões, tem essa finalidade de provocar as pessoas, no sentido de se pensar sobre si mesmo, conquistas, perdas,conhecimento, educação , poder, capital e mostrando algumas contradições.. essas coisas. Acho que ela é uma mistura disso tudo, além é claro de ser extremamente filosófica, pelo menos ela soa assim pra mim.. e é engraçado, porque eu sempre imagino um monte de coisas nessa musica, mas nunca havia direcionado diretamente a esse ponto especifico, bem interessante essa sua colocação... bjoooo

GrazieWecker disse...

só para complementar... um dia ouvi de uma colega da minha mãe: 'a gente nunca é velho quando tem ainda uma meta a mais a ser alcançada'.

concordo plenamente com todo o texto: estar feliz e se alegrar com todas as conquistas, mas não dar-se por plenamente satisfeito de tudo.

Cinderela Descaída disse...

Eu também nunca li a Clarice. Aliás, tem tanta coisa que ainda não li...
Eu acho que essa frase tem também um pouco de maturidade envolvida (perdoe-me, é que eu tenho mais kilometragem). Chega um ponto que a gente tem de se aceitar nas qualidades e nos defeitos. Isso não quer dizer que chegamos ao fim da linha (assim espero), mas que devemos parar de perder tempo com coisas inúteis. O que eu faço bem? Quais são as minhas qualidades? E seguir esse caminho. Não é a morte do sonho. É apenas o foco de luz nas verdadeiras oportunidades.
bjs

Bruna disse...

Ana!
Legal isso, nunca li nada da Clarisse ao não ser as frases espalhadas por ai e não conhecia o tal progama...
Eu imagino "Somos quem podemos ser" como cada pessoa constroi seu caminho da sua forma e a profundidade disso varia conforme a força de vontade de cada um. Acredito que ai está a infinidade ou a limitação.
Adorei!
Beijão :)