quinta-feira, 9 de junho de 2011

Eu penso, tu pensas, ele pensa

Adorava estar ali. Por alguma razão que não poderia explicar, aquela cena acalmava. Aliás, qualquer cena com pessoas indo e vindo era sinônimo de uma distração da qual não cansava. Coisa estranha. Ou será que essas banalidades tem o mesmo poder sobre todos? Isso, era essa a questão: sua autoanálise. Nada de distrair-se. Concentração. Onde começar?
Sim. Aí. Achava que estava enlouquecendo. Quando achou isso pela primeira vez? Difícil dizer, vivia dizendo estar com a sanidade mental em risco. Mas a sério mesmo foi dias atrás, quando se encontrou falando em voz alta com pessoas que não poderiam responder: escritores mortos; músicos que tinham certa influência em seu ser e que, provavelmente, jamais conhecerá; ou então pessoas que não via há tempos ou que tinham sumido por livre e espontânea vontade. Isso. Se pegara falando com seres que só estavam presentes em sua cabeça e cujas respostas imaginava, mantendo assim um diálogo. Sim, isso era falta de lucidez. Se bem que, devia admitir, tinha plena ciência de que as pessoas não estavam ali e não responderiam. É, talvez fosse só vontade de falar, não loucura.
E aquele disco que repetiu. Ou antes, aqueles discos que repetiu. Uns cinco. Sempre os mesmos tocavam nas últimas semanas. E enquanto ouvia um, cantava outro. De verdade, tentava, mas não conseguia entender-se. Mas afinal, era pra isso que estava ali, não? Por isso estava com as costas apoiadas na árvore olhando as crianças brincarem no parque. Não era nada muito empolgante, balanços e coisa e tal, corriam de um pra outro, tendo uma que se destacava por fazer tal troca de brinquedos a cada dez segundos, como sua cabeça, que mudava de pensamento a todo instante, impedindo qualquer linha de raciocínio. Aliás, onde estava?
Loucura. Era isso. É, talvez fosse isso. Não ter mais certeza de nada, esse era um dos problemas. O que andava fazendo nos últimos dias. Era algo impossível dizer. Tinha plena certeza de que não fora fácil encontrar tempo para parar e pensar (o tempo que agora desperdiçava por não saber manter um pensamento por um minuto), mas agora não conseguia descobrir com o que ocupava seus dias. Merda. Tudo era tão automático que já não sabia o que fazia. Tudo previsível e... Mas não seja previsível como sempre... Aproveite a deixa ao menos essa vez (não espere mais), seja instinto ou uma lembrança qualquer (não se importar), eu quero sempre mais (do que eu sou capaz), então.... Droga. Não era hora de cantar. É hora de pensar, pensar e pensar. E tentar entender algo.
Sua suposta loucura. Por que acreditava nela? Talvez por já não saber o que fez, faz ou fará da vida. Talvez por não ver graça em mais nada. Talvez por falar consigo enquanto finge falar com alguém à quilômetros de distância. Talvez, talvez, talvez. E certeza? Do que tinha certeza? De que não sabia de nada. Mas que grande merda! E então? Mais fácil é continuar olhando o vai-e-vem das pessoas, das crianças brincando, dos cachorros correndo, dos amigos conversando... É, bem mais fácil. Por alguma razão, ao contrário de, talvez, a maioria das pessoas, não conseguia pensar na solidão. Por quê? Devia admitir que sua facilidade em se distrair com pessoas não ajudava, mas... Ah, o que mesmo estava pensando?
Se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama, acho bom que pra ficar comigo vai ter que mudaaaar. De novo. De onde vinham essas músicas? Seu inconsciente e sua mania de aparecer com essas letras das quais só tomava conhecimento quando ouvia-se cantando. Can-tan-do?! É, era mesmo uma criatura perdida. Cantava quando devia lamentar-se por não saber nada sobre si. Um caso perdido. E agora? Agora... bom, talvez... é apenas um talvez... Como dizer? Subitamente lembrara-se de Leo, eis um cara que teve um final que, agora, lhe parece um tanto divertido. É, bastante divertido. Até demais.

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Nem autobiografia, nem ficção, apenas resultado da perturbação mental.

Hey, estou prestes a descobrir um modo de construir um monumento à Vaneza. Por quê? Pelo fato dela, seguidamente, mandar blogueiros amigos e também leitores dela pra esse fim de mundo virtual. Grazie. Danke. Gracias. Thanks. Eis um dos fatos que me impede de atender à minha eterna compulsão de clicar em "excluir blog", afinal não é qualquer um que tem uma baita blogueira como ela mandando amigos pra cá. De verdade, se eu fosse um ser extremamente sentimental, eu chorava de comoção. Mas não, eu não sou, então só repito mais uma vez, agora em português: Obrigada! (Cara, isso foi difícil, essa mania de ficar dizendo grazie e gracias realmente tá fora do controle - e não se enganem, não falo nem espanhol, nem italiano)
E, pessoas, de verdade, pretendo voltar a visitar vossos blogs com frequência, mas isso tá meio difícil, sem que eu saiba exatamente porquê...
Enfim, é isso, tschüssi, macht's gut.

4 comentários:

Babizinha disse...

Tenho viajado nessa história de entender o mundo ou as pessoas, sendo que nem eu me conheço. Talvez,só queira mesmo é me afastar de mim para evitar esses confrontos de incertezas e solidão também. Que seja, um dia tudo se ajeita.

Gosto das tuas loucuras!

Beijos, Seerig.

Cinderela Descaída disse...

Um conto? És contista? Também sou. Diletante, mas sou. Mas não posto nada no blog. Meus contos são meio pesados (tristes) para muitos. Quem sabe um dia eu publico.
Gostei muito da idéia dele (a) ouvindo um disco,mas cantando as músicas de outros.
E que canta os males espanta, não é verdade?
bjs,

Pandora disse...

Nem comentário nem nada, apenas o registro de que você descreveu meu estado em ricos detalhes, diria até minuciosos... gosto de olhar as crianças, elas parecem ser eternamente felizes enquanto brincam, claro que isso é apenas uma ilusão de optica do adulto... e sim

"Não era hora de cantar. É hora de pensar, pensar e pensar. E tentar entender algo." e escrever sobre algo... meu Deus o momento da escrita é uma angústia (mas não estou falando do blog, estou falando do meu trabalho atual mesmo rsrsrs)...

Enfim... também tenho compulsão por deletar o blog, hoje mais do que ontem, amanhã mais do que hoje eu tenho certeza, mas pessoas como a Vaneza, que no meio da madrugada (tenho que frizar isso novamente realmente ??? Sim!) e de sus próprias angustias, sabem promover bons encontros sempre fazem a experiencia de blogar valer a pena, não posso correr o risco de perder pessoas como essa de vista ou a possibilidade de encontrar pessoas como ela por ai!!!

Cheros e vamos embora que Pasárgada é aqui mesmo!!!

Rebeca Postigo disse...

Ana!!!
Tuas loucuras são muito boas...
Gosto de ler coisas que por vezes me fazem viajar para lugares fora da minha realidade...
Amei!!!

Bjs