quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Let the sunshine in

Os raios de sol atravessavam a janela naquela manhã de sábado. Se na noite anterior tinha desejado sair o mais tarde possível de debaixo das cobertas, agora o sol tornava isso impossível. Não pela claridade em si, afinal uma alma cansada pouco valor dá à falta ou ao excesso de luz. Não, o problema é que o sol liberava aquela típica energia que torna as pessoas incapazes de esconder a cabeça no travesseiro.
E então agora estava ali, de pé. Sem nenhum motivo aparente, sorria. Eis mais uma consequência do surgimento do sol depois de tantas manhãs sem que alguém o visse. Estava acordado e de ótimo humor, outra raridade de um sábado de manhã. Infelizmente, porém, não havia ninguém por perto com quem compartilhar tal alegria, nesse caso, o jeito é cantarolar para as paredes.
Um belo café da manhã, seguido de um salto da cadeira: E agora? Como aproveitar tal dia? Bem, na falta de uma resposta imediata, não havia como resistir ao vício de sempre, mesmo que por uns poucos minutos. Voltou ao quarto, ligou o computador e começou a dar uma conferida...
Que barulho foi aquele? Teve a impressão de ouvir algo. Segurou a respiração por um momento na tentativa de descobrir sua origem. Nada. Silêncio. O resto da casa estava vazia, não havia mais ninguém ali. Na certa foi sua imaginação. Sacudiu a cabeça e esqueceu. Era, afinal, um belo sábado de sol.
Nhéam.
Com certeza ouviu alguma coisa. Parecia... Parecia que alguém tinha acabado de sentar... Isso, aquele era o barulho de alguém sentando, o barulho que a cadeira fazia, como se gemesse. Sim, tinha ouvido uma cadeira gemer. Mas era impossível! Sua única companhia naquela casa era sua sombra e ela, mesmo que estivesse vida própria, não poderia fazer a cadeira gemer... Balançou a cabeça de novo. Impressão sua, não ouviu mais nada e não havia ninguém. O barulho devia ser considerado uma coisa banal, apenas isso. Voltando à alegria trazida pelo sol.
Nhéééam.
Certo. Não podia mais se deixar pegar de surpresa por aquele barulho, já começava a se assustar. Quando se deixava convencer de que não era nada, tinha a impressão de que outra pessoa sentava. Mais um pouco e a mesa de seis lugares com certeza estaria com todas as cadeiras ocupadas. Isso não seria incomum se não fosse o fato de que NÃO HAVIA MAIS NINGUÉM EM CASA! É, definitivamente começava a se impacientar, ou seria apenas medo disfarçado?
Nhééééaam.
MEDO. Era medo. Definitivamente medo. Não podia negar. E agora? Deixou-se levar pelo medo por alguns minutos, mas antes que o barulho pudesse se repetir, resolveu tomar coragem e enfrentá-lo. Seja lá o que fosse, enfrentaria o problema. Coragem! ... Eh... Mas na certa não era nada. É, nada. Onde estava mesmo? Dia feliz. Feliz por que? Sol. Isso, o sol. Por um momento esqueceu-se dele e...
Nhééééaaam.
O salto que deu da cadeira em que estava foi tão grande que viu-se em um instante de pé. Coragem. Sem autoenganação. Havia um problema e teria que haver uma solução. Não podia passar o resto da vida preso no quarto enquanto as pessoas sentavam nas cadeiras da cozinha... Que pessoas? Não havia nin... Fantasmas! Seria possível? Não... Se bem que nunca fora comprovada a sua não-existência... Inconscientemente ouviu a música dos caça-fantasmas em sua cabeça, como se viesse de longe, e viu-se caminhando devagar em direção à porta do quarto, abrindo a porta semi-encostada e dando o primeiro passa no corredor, em direção à cozinha.

Nhéééééaaaam.

Assim que o barulho se repetiu, olhava já pela porta da cozinha. As cadeiras vazias. Nenhum sinal de pessoas, nem reais nem do além. Tudo no lugar. Olhou automaticamente para o lugar de onde veio aquele som que tanto havia assustado. Na janela, o galho de uma árvore batia, no ritmo do vento que a embalava graciosamente.

________________________________________________

Inspirado na incrível saga de Guilherme Spigolan narrada por ele via twitter um sábado desses. Texto devidamente aprovado e com autorização de publicação do mesmo.

5 comentários:

Pandora disse...

Ana, amei o conto, da pra sentir o Sol atravessando a janela, você descreve a cena com tanta precisão que a gente consegue visualizar e senti as sensações do personagem junto com você!

Amei! Simplesmente Literatura \o/

Luna Sanchez disse...

Narrada via Twitter? Ui, que coisa bem boa, Ana! Adoro essas doideiras da vida dita virtual, esse conjunto de evidências que acaba com nossas noções antes tão claras de "perto" e "longe".

Fosse eu a ouvir o barulho teria pirado porque morro de medo de fantasmas e pensaria que a casa estava cheia deles. Deus me livre!

Um beijo grande!

Maggie May disse...

quando estamos sós em casa tantos barulhos habituais se tranformam!!! rs

Gabriele Rohde disse...

Isto me pareceu um conto de terror, não sabia que você tinha esse dom haha. Deu arrepio imaginar, morro de medos de sons supostamente inexplicáveis. :T

Allyne Araújo disse...

kkkkkkkkkk.. no lugar dele, não ficaria nem mais um segundo ali, saia correndo e só voltava com um esquadrão de gente pra me acompanhar! morro de medo de coisas assim, mesmo q fosse um galho... bjoooo e bom texto este!