segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Com a licença de João...

Sentia-me terrivelmente perdido ali. Ou melhor, literalmente perdido. O que não se faz por uma garota? Mas já estava no meu limite. Precisava urgentemente sair dali. Só havia um problema: as chaves do carro. Onde, diabos, elas estariam?
- Como é o nome daquele santo que acha as coisas em troca de pulinhos? - pedi, desesperado, ao arredio avô dela, única pessoa que estava por perto.
Não, nunca fui de acreditar em santos, mas meu desespero era imenso. Estava quilômetros distante de qualquer cidade, na casa dos avós de Lígia (que agora estava emburrada comigo porque eu não queria jogar cartas a dinheiro com os primos malandros e malucos dela) e com toda a família imensa que ali estava para comemorar o aniversário de casamento dos anfitriões.
- Santo? Isso é bobeira, rapaz. Bom pra achar o que está perdido é acender uma vela pro Negrinho?
Olhei pro velho. Estava ali sentado na poltrona da sala, com a cuia na mão e a chaleira ao lado de seus pés, no chão.
- Como é?
Talvez eu estivesse sendo um tanto estúpido. Reparei nisso e, desanimado comigo mesmo, sentei na poltrona em frente ao velho pronto a ouvir qualquer história que fosse, desde que me impedisse de fazer qualquer outra bobeira.
- Mas vais me dizer que não conhece a história do Negrinho do Pastoreio?
Pensei um pouco. Talvez já tivesse ouvido falar sobre, mas nunca soube que história era, afinal. Sacudi a cabeça.
- Pensei que ao menos nas escolas eles falassem nele... Pra mim, é uma das mais buenas histórias existentes, sabe, rapaz? Tu devias conhecer... Se tiveres desistido de sair correndo daqui, posso buscar o livro do Simões...
- Livro? Simões? Não, não. Desculpe-me, mas nunca fui de livro e, de qualquer modo, no humor em que estou, dificilmente me concentraria. O senhor não pode me contá-la?
- Nada se compara aomodo de contar de Simões Lopes Neto, mas quem sabe ouvi-la de modo simples te faça interessar pelos causos do João...
Não disse nada. Estava calado e assim ficaria, até que me sentisse seguro a abrir a boca outra vez. Ouvi o silêncio e depois a história do velho:
- E depois disto e daquilo, o Negrinho, escravo de um estancieiro tão rico quanto mão fechada, levou chicotadas e chicotadas por perder os tordilhos de vista. O estancieiro mandou soltá-lo e ir em busca da tropilha. O detalhe é que era noite. O Negrinho pegou um toco de vela, pediu o auxílio de sua madrinha, a Virgem Maria, e encarou a noite. Depois de muito andar, encontrou os tordilhos, levou-os de volta, deitou e dormiu.
"E foi isso?" - pensei comigo. Hoje fico feliz de não ter pronunciado em voz alta. Depois de uns poucos segundos, enquanto tomava seu chimarrão meio que encantado pela própria história, o velho continuou:
- O filho do estancieiro era um piá danado. Espantou os tordilhos sem que o Negrinho visse e foi aos berros anunciar ao pai que eles continuavam sumidos. E então o pobre Negrinho voltou ao tronco e só saiu de lá quando o tinham como morto. Pra evitar o trabalho de cavar um buraco para jogar o corpo, o estancieiro jogou-o num grande formigueiro e atiçou as formigas para que cobrissem o pequeno escravo, que estava lambuçado em sangue.
Mais um tempo para o mate, enquanto eu abismado tentava entender o que ouvia. Fosse realidade ou apenas uma lenda, era por demais triste, não?
- Depois de três dias, o estancieiro, que andava tendo uns sonhos não muito bons, foi até o formigueiro descobrir como estava o corpo do Negrinho. Surpreendeu-se tremendamente ao encontrar o negro de pé, mui bem, sem cicatrizes ou ferimentos, melhor do que jamais estivera. Ao seu lado, viu a madrinha dos que não tem madrinha, a Virgem Maria, que estava ali, auxiliando o afiliado. A tropilha, que ainda não havia sido encontrada, ali estava também, junto do Negrinho. Depois disso, o Negrinho é responsável por encontrar o que está perdido, seja o que for e de quem for, basta lhe acender uma vela.
Reencontrando a voz e um pouco impressionado com aquela rápida mas interessante história, pedi:
- O senhor acredita mesmo nisso?
Ele fitou os olhos em mim e, com calma, respondeu:
- E por que deveria não acreditar? O Negrinho nunca me falhou. Dê quantos pulos quiser, mas o único capaz de achar o que ninguém mais acha é o Negrinho.
Sorri de lado, não sabendo mais o que dizer. Talvez o velho fosse meio maluco, achasse que aquilo era realidade. Mas que era uma boa história, era.
Mais calmo, voltei a buscar minha chaves. Continuava decidido a sair dali e agora tinha como companhia aquela interessante história na qual pensar. Sorri pro espelho à minha frente e pensei: "E então, meu caro Negrinho do Pastoreio, onde estão minhas chaves?". É, era uma história bonita, mas apenas isso.
E então uma batida na porta. Lígia.
- Se tu quer mesmo ir embora, acho que vai precisar disso - e entregou-me as chaves do carro.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela saiu. Não fui atrás. As chaves estavam ali. Crendo ou não, pensei comigo, não me custa nada acender uma vela, não é mesmo?

4 comentários:

Erica Ferro disse...

Bah, tchê!
Que causo gostoso de se ler.
Gostei, gostei.

Grande Negrinho do Pastoreio! :D

Luna Sanchez disse...

Rá!

Minha família toda é fã desse cara!

=D

Beijo grande, Ana!

Pandora disse...

Que triste, que lindo, que inspirador!!! Essas histórias mais que falarem de milagres falam da pessistencia desse povo que foi trasido da África para o Brasil para sofrer com a escravidão!!! O Negrinho, mesmo morto voltou como lenda e continuará a existir saber Deus até quando!!!!

Amo muito tudo isso, para mim, mas que folclore é mitologia, é história... Amei conhecer mais esse causo do Sul, com seu sotaque inconfundivel!!!

Cheros Ana!!!

Cacá - José Cláudio disse...

hehehe! Que conto delicioso de se ler! Adorei! Abraços. Paz e bem.