quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Esse tal de Borghettinho


"Fora do RS, existe uma curiosidade muito grande sobre a nossa música. As pessoas sabem que existe, mas não conhecem nada. Isso contradiz essa ideia de que somos discriminados no Brasil. Isto é uma coisa crônica, da qual há vinte anos eu ouço falar, mas não vejo nada disso. É mais fácil ficar aqui reclamando do que ir lá encarar. A gente se parece com a aldeia gaulesa do Asterix. Somos um reduto fechado. É importante fazer bem feito aqui e tentar lá. Não adianta nada ficar reclamando."


Palavras de Renato Borghetti, de acordo com um xeróx que tenho aqui com frases dele, tirado quando fiz um trabalho sobre esse baita músico. Um trabalho vergonhoso, diga-se de passagem. Tentarei então me redimir agora, pelo menos perante minha consciência.
Na época do trabalho lembro de ter ficado extremamente chateada por não ter pego o José Mendes no sorteio. Adoro José Mendes. Mas agora, na escolha de um músico sobre quem falar aqui nesse setembro regionalista no blog, escolhi o Borghetti. Por quê? Difícil dizer. Não é só o José Mendes que mereceria um espaço aqui. O Rio Grande do Sul tem grandes nomes tradicionalistas na música, dois dos quais, Honeyde e Adelar Bertussi, que foram os pioneiros em fazer com orgulho a música tradicionalista, que deram aula pro Edson Dutra, o fabuloso líder d'Os Serranos e um baita gaiteiro, são daqui do interior de Caxias do Sul. Mas simplesmente me deu vontade de falar no Borghetti, talvez por saber que a Pandora tenha gostado dele, talvez simplesmente por meu humor. O negócio é que hoje o tema é Renato Borghetti, o Borghettinho.
Antes de tudo é preciso explicar: aqui no Rio Grande do Sul, acordeon é gaita; acordeonista é gaiteiro (e eu tenho surtos por gaiteiros). Aliás, talvez eu tenha a explicação pra escolher o Borghetti: acho que a alma da música tradicionalista está numa gaita bem tocada (e nada de gaiteiro rebolando, como na Tchêmusic), então a melhor forma de demonstrar sua beleza é com uma música instrumental. E quem melhor que Borghetti?
Renato Borghetti ressuscitou, digamos assim, a gaita-ponto. OK, vamos nos localizar. Há dois tipos de gaita: a gaita-piano e a gaita-ponto (repare nas duas imagens e tu perceberá a diferença e entenderá os nomes, senão me peça que eu desenho). A mais popular é a primeira, os Bertussi, o Edson Dutra..., todos os gaiteiros admiráveis, em maioria tocam a piano. Mas o Borghettinho encontrou a ponto quando os gaiteiros citados e tantos outros estavam no seu auge e fez com que ela se tornasse popular. Além do mais, quando ele fez tal descoberta, qualquer tipo de gaita em mão de guri era cena estranha. Diz ele:

"Quando eu comecei a tocar gaita-ponto aqui no RS, não havia jovens fazendo isso; as referências eram dos músicos mais antigos e músicas antigas; então tudo que eu fazia era sempre uma tentativa, um cara novo tentando fazer algo novo dentro de uma escola antiga. Isso caracterizou a minha maneira de ver a música até hoje. Sou muito ligado à música tradicional, mas naturalmente tento inovar."

Com uma trajetória de respeito, iniciada numa Califórnia da Canção Nativa, maior festival nativista, hoje o gremista Borghettinho é um dos maiores nomes da música instrumental. Foi ele o primeiro a ganhar disco de ouro no país com música instrumental. Hoje, aliás, ele anda mundo afora, de lá pra cá, de cá pra lá, sendo que sua turnê pela Europa virou série da RBSTV: Borghetti na estrada. Vale MUITO a pena parar para ver esses quatro episódios, pois, além da bela música e das belas paisagens, ainda é possível ouvi-lo prosear e dizer coisas como esta:

‎"Eu acho que a música que eu faço, mesmo sem palavras, é uma música instrumental, a gente consegue, tocando, dizer de onde a gente vem. As pessoas mesmo não conhecendo o Brasil, mesmo não tendo nem ouvido falar do Rio Grande do Sul, quando a gente toca, eu acho que eles conseguem perceber a origem ou pelo menos como é o lugar de onde a gente vem, onde a gente nasceu e onde nasceu a nossa música."

O triste só é vê-lo sem chapéu. Sim, Borghettinho sem chapéu não é Borghettinho. Sem muita pesquisa, é fácil identificar sua posição costumeira ao tocar: gaita na mão, cabeça baixa, os cabelos soltos e o chapéu permitindo apenas ver um pedaço do queixo, se tanto. Lembro de que, na era em que assistia Ana Maria (sim, com nove anos eu ouvia Roberto Carlos Jovem Guarda e assistia todo dia a Ana Maria), ela veio pra Gramado (como sempre) e convidou-o para uma entrevista. No meio ela comentou algo como: Deixa eu ver esse rosto bonito, você fica aí de cabeça baixa com esse chapéu, não dá pra ver seu rosto. (Meus dedos se contorceram agora pra escrever "você" em vez de "tu" e "seu" em vez de "teu", precisava dizer isso.)
Agora chega de lorota, vamos à música:

No ano em que completava 21 anos, com ninguém menos que Cesar Passarinho, acompanhando-o na clássica "Guri", junto com o Neto Fagundes guri, de uma respeitada família tradicionalista: (Reparem no chapéu e todo o tradicional jeito Borghettinho de ser)


(Certo, Ana, recupere-se. Tô nem aí pro Neto Fagundes, mas o Passarinho cantando essa com o Borghetti guri é demais pra mim... Ok, respirando, vamos adiante)

"Milonga para as missões" é uma das músicas mais clássicas que temos por aqui, todos tocam, mas a versão do Borghetti sempre me parece inigualável. Não pude resistir a colocar essa versão com orquestra:


Já tive o prazer de ir num show dele. Não posso deixar de me gabar disso. Tenho fotos para comprovar, até comentamos rapidamente a vitória do Grêmio naquele dia. Fiz um vídeo também, creio que essa é "Quarteto", mas não tenho certeza agora. Desculpem pela má qualidade, mas a música é linda.


E então um gaiteiro com um tocador de violão de primeira? É pra morrer de emoção, não? Exageros a parte, é inegável a beleza e o encanto do som feito por Borghetti com o admirável Yamandú Costa:


Pra finalizar, mostrando que o Borghetti anda por tudo que é canto mesmo, um vídeo de uma das vezes em que tocou com Humberto Gessinger. No caso, a música é "Refrão de Bolero"


E depois de ouvir Engenheiros, um último e curioso depoimento de Borghetti:

"Não vejo problema nenhum em tocar com músicos de outros gêneros. Já toquei com Nenhum de Nós, com os Engenheiros, chorinho no Rock in Rio e até arrisquei Villa-Lobos com Turíbio Santos. Gostei de tudo e não vejo nada errado, desde que seja como participação especial, dentro do trabalho deles. Em trabalhos meus, eu não faria isso porque acho que tenho que respeitar minha identidade."

É ou não é um guri bom, esse? Para maiores informações e coisa e tal, vale dar uma passada no site dele e, bem, se alguém quiser me dar o DVD dele eu JURO que não fico braba.

6 comentários:

Pandora disse...

Gente li o post escutando ele tocando Milonga para as missões e Sétima do pontal, cara o Renato é simplesmente ARRETADO o que deve equivaler a Tri em gaúches!!! Gente que música é essa que ele faz, com certeza, sem usar uma palavra, ele fala tudo o que há para ser dito!!! Me apaixonei perdidamente, porque além de músico do bom ele é um charme!!!

Allyne Araújo disse...

lembrei de outro texto seu em que vc falava sobre a paixão por gaiteiros (aqui sanfoneiros), eu conheci o Renato por causa do engenheiros, juntamente em refrão de bolero que pra mim é uma das músicas mais lindas deles... Fiquei besta quando o ouvi tocar! confesso viu?? demais ele! bjooo

Luna Sanchez disse...

Ah, esse homem...AAAAHHHH, ESSE HOOOOMEEEEEEM!!!

Nada mais a declarar. Tenho que manter a minha fama de má, afinal.

:p

Beijo, Ana.

Rebeca Postigo disse...

Como uma boa gaúcha...
Tu vens trazendo para nós um pouco do que sabes e a cada dia me encanto mais com o meu país...
Adorei o texto e toda a sua empolgação ao escrever...
Foi quase palpável!!!
Hahaha...
Amei conhecer mais um pouquinho da cultura dos gaúchos!!!

Bjs

Dayane Pereira disse...

Eu apoio mt que vc escreva mais sobre a cultura gaucha.=, e principalmente no que se refere à música. Preciso conhecer masi bandas nacionais, mas quase tudo que escuto é lixo. E as dicas que vc dá, os artistas que apresenta, são sempre fantásticos.
Escutei o vídeo Guri, vou ver outros!
Ps: Vc esta baixando a minha produtividade no trabalho. Mto bunitoo

Alexandre Antonov disse...

Melhor instrumentista que renato Borguetti ? Albino Manique, Edson dutra, Luis Carlos Borges, Tio Bilia, Dede Cunha, Reduzino Malaquias, Tio Neneco e por ai vai.

nao desmerecendo Renato borguetti, mas ele é apenas o mais conhecido por estar mais na midia do que nos galpoes animando fandangos.