quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tradicionalismo: feminismo, bairrismo, separatismo

E chegamos ao fim de setembro e, consequentemente, no fim da temática gaúcha por aqui. Pra pontuar bem, não consigo pensar em nada melhor do que falar sobre essa questão tradicionalista e tudo que se liga a ela direta ou indiretamente.
Primeiro de tudo: essa exaltação de 20 de setembro e de toda a cultura gaúcha não é desmerecimento ao resto do país, mas sim mero orgulho do histórico do estado. Eu adoraria saber que esse "bairrismo" é praticado em todos os outros estados e, especialmente, que eu tivesse algum sentimento parecido em relação ao país, mas, ao que me parece, não há motivos que realmente despertem o mesmo orgulho que a Revolução Farroupilha desperta aos gaúchos.
Infelizmente, no entanto, há quem veja os gaúchos como egocêntricos e coisa e tal. Não é isso. Repito, não é falta de respeito ao Brasil, é talvez orgulho em demasia do estado. Sim, eu tomo Polar porque só tem aqui. Sim, eu me orgulho do futebol-força. Sim, eu prefiro uma bela música tradicionalista gaúcha a música sertaneja. Sim, sim, sim, eu sou bairrista. Mas isso não me impede de admirar o rock oitentista de cariocas e paulistas, assim como não me deixa ignorar as belezas do nordeste e os fabulosos escritores mineiros. Sim, eu sou uma gaúcha bairrista, mas continuo brasileira. Muitos se ofendem com as propagandas da Polar, por exemplo, mas cadê o bom humor? Quer dizer, paulistas podem zoar com nordestinos, é brincadeira, mas gaúchos que se bobeiam com paulistas são bairristas preconceituosos?
Nós aqui meio que nascemos com isso, isso e uma certa propensão a defender o separatismo. Por quê? Ora, porque o resto dos brasileiros nos vêm como bairristas e têm uma cultura bem diferente da nossa, tão baseada nos castelhanos, além da constante lembrança dos Farrapos. Mas eis um dos meus maiores agradecimentos ao mundo virtual: me ampliou a visão. Como tenho percebido há tempos e essa série mostrou, o pessoal que não conhece o Rio Grande do Sul tem é muita curiosidade de conhecer nossos vícios e manias, por assim dizer.
Agora, uma coisa que estraga rapidamente a imagem dos gaúchos é aquele grupo que acha que realmente é superior ao resto do mundo, que se acha no direito de xingar e menosprezar outras culturas. Peralá, não é assim. No discurso é fácil, mas e a tentativa separatista onde está, se nós gaúchos somos assim tão bons? Não me prenderei a falar de tais seres, eles apenas me envergonham terrivelmente, me desanimam e me irritam. Aproveito aqui pra registrar que não concordo com as torcidas gaúchas que, no início dos jogos em outros estados, cantam o hino rio-grandense quando o nacional está sendo executado, isso é tão desrespeitoso quanto o que fez Rogério Ceni em sua última vinda aqui: ignorou o hino gaúcho e foi se aquecer antes do início do jogo no Olímpico.
Respeito. É disso, como sempre, que precisamos. Respeito por nossas origens, sim, mas respeito pelos outros. O grupo (parado) de extremos separatistas não percebe, assim como os que vêm os gaúchos como egocêntricos, que o bairrismo nada mais é que uma brincadeira orgulhosa. Quando dissemos que somos os melhores do mundo, é apenas uma brincadeira com o nosso ego. Nós não somos os melhores porque ninguém é melhor que ninguém, simples assim.
Outra coisa que me deixa indignada é o desprezo pelo sentimento farroupilha por parte de mulheres que vêm nisso o mais completo machismo, porque na cultura gaúcha só resta a mulher "ser prenda". (*Ana engole todos os xingamentos indignados possíveis*) Como assim? Comemoração Farroupilha é pra lembrar da Guerra dos Farrapos, que não teve nada de machista. Aliás, em "Memórias de Garibaldi", este escreve que sua esposa, Anita, era uma das que pouco ligava se havia um tiroteio imenso ao seu redor, sendo mais corajosa que tantos homens. Anita Garibaldi é o nome famoso que testemunha que mulher que é apenas prenda é porque quer. Parte da minha opinião sobre feminismo está aqui, caso haja interesse, mas a questão aqui é que o feminismo em questão de Semana Farroupilha me é tão desprezível quanto o uso pejorativo de bairrismo ou o extremismo separatista. E não me venham com essa de que ainda existem homens extremamente machistas, não falo disso, falo de ignorá-los e simplesmente ser quem se quer ser, e não ficar gritando ao mundo "sofremos preconceito". Um gaúcho de verdade, assim como qualquer homem de verdade, tem cérebro o suficiente pra não ser machista.
E, pra encerrar com estilo e bairrismo, aconselho a leitura do maior periódico do mundo O Bairrista e do texto De volta ao separatismo, de autoria do gaúcho que é professor da caríssima Pandora lá em Pernambuco. Para grande final, então, o hino que prova que somos tão egocêntricos e bairristas que rimos da nossa própria cara com orgulho:




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E com o encerramento desse mês temático, anúncio meu mês de folga. Depois da Pandora (já devidamente linkada aí em cima) me fazer assumir meus 40 anos (aquela descrição no Gurias é simples enganação), estou numa crise existencial profunda e preciso entrar no processo de Wanderlização (entre outros) pra reencontrar-me. Brincadeiras a parte, o negócio é que me sumo por um mês, pelo menos, sendo que estarei todas as segundas-feiras no Gurias Arretadas. Continuarei a conferir e-mails e caixa do correio, então vocês sabem como entrar em contato comigo. Minha mão de vaquice me fará ignorar sms's, estejam avisados. Sintam-se à vontade pra despedaçar esse blog e ler o que nele houver de bom e, em maioria, de dispensável. Olhem ali na esquerda as tags dos posts e busquem algo que lhes interesse. Adoraria retornar aqui e encontrar montes de comentários pra serem aceitos (após 7 dias de publicação, novos comentários passam a ser moderados justamente pra que eu tome conhecimento dos mesmos), mesmo que pra me xingar. Também aceito temas pra novos posts e inícios de discussão. Rezem pra que eu esqueça minha ideia de fazer um mês só sobre Alexandre Dumas e cuidem-se. Vos encontro nas segundas no Gurias, não esqueçam!

10 comentários:

Luna Sanchez disse...

Esse teu post foi um passeio guiado pelos pontos turísticos do que eu posso chamar, sem receio de parecer cafona, de espírito gaúcho, o que temos de mais profundo e caro em relação ao nosso lugar.

Achei tão bonito!

Um beijo, parabéns pelas postagens temáticas, foram excelentes.

Artur César disse...

interessante esse orgulho gaucho, eu como paulista, daqui muitas vezes "so ouvimos falar"!!

quanto ao machismo, acho que o pior tipo de machismo que existe é o vindo de uma mulher, e isso ainda tem muito ainda por ai!

vim por indicação da Luna, e gostei!

beijos
Artur!

Dama de Cinzas disse...

Sou suspeita para falar, porque quando tive em POA, adorei tudo, o lugar, o clima mais frio, as pessoas me trataram muito bem. Eu simpatizei demais com o povo daí.

Então... rs

Beijocas

Pandora disse...

Acho que amei esse mês gaucho e que pena que acabou!!! Foi um prazer conhecer um pouco mais do Rio Grande do Sul através dos seus olhos, dos seus gostos, dos seus amores!!! Cheros minha velhinha querida s2

tiagomelo disse...

Foi uma honra ser citado em um texto que gostei tanto, concordei com tudo. E digo mais: essa critica ao "machismo" farroupilha é anacronica. querer que alguem fosse feminista em 1840 é dose. o que não pode é o nativismo continuar sendo machista. alguns acham que deve ser assim, mas nosso papel é ajudar a mudar isso. mostrar que devemos respeitar nossos antepassados mas avançar em relação a eles. acho que eles gostariam disso. abraços, e vou ler os outros textos do mes gaucho agora

Tita disse...

Perfeito!!!! Vc definiu muito bem o bairrismo gaúcho em sua forma verdadeira e positiva.
Rachei de rir com o Hino da Polar.
Fechou o mês com chave de ouro.
Nada a acrescentar!!!! Putz, devo estar doente rsrsrs

Tita disse...

Ops, voltando ao normal... rsrsrs
Sobre o machismo gaúcho...
Fui casada com 2 gaúchos e 1 carioca... e com certeza o carioca foi o único machista. Mas, esclarecendo, os dois gaúchos eram urbanos, de Porto Alegre.
Quanto ao separatismo: a verdade é q a grande maioria dos gaúchos é contra o separatismo. Imagina q complicação precisar do passaporte para ir para as praias de SC??? kkk
Boas férias... mas não te deixo em paz, não!

tiagomelo disse...

extremamente procedente o comentario da colega ai de cima. passaporte para nosso tradicional veraneio em terras catarinas não dá!

tiagomelo disse...

e esqueci de comentar algo importante. tenho muitos amigos argentinos e uruguaios, e quando apresento a eles a cultura gaucha, ficam impressionados com a semelhança. enquanto isso, o Brasil acha que somos estranhos. Nao é questão de separatismo, apenas de notar que temos sim uma diferença, e nos orgulhamos dela. É tão dificil entender isso??

Vanessa disse...

Devo confessar que sempre tive um pouco de dificuldade de compreender esse orgulho gaúcho. É legal valorizar sua história, mas também é legal quando lembram que não, não é uma coisa separada do mundo, sem conexão com nada. Mas eu desconhecia essa questão da mulher como prenda.