segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Aprende a escrever na areia

Dois amigos, Mussa e Nagib, viajavam pelas extensas estradas que circundam as tristes e sombrias montanhas da Pérsia. Ambos se faziam acompanhar de seus ajudantes, servos e caravaneiros. 
Chegaram, certa manhã, em cedo, às margens de um grande rio, barrento e impetuoso, em cujo seio a morte espreitava os mais afoitos e temerários.
Era preciso transpor a corrente ameaçadora.
Ao saltar, porém, de uma pedra, o jovem Mussa foi infeliz. Falseando-lhe o pé, precipitou-se no torvelinho espumejante das águas em revolta.
Teria ali  perecido, arrastado para o abismo, se não fosse Nagib.
Este, sem um instante de hesitação, atirou-se à correnteza e, lutando furiosamente, conseguiu trazer a salvo o companheiro de jornada.
Que fez Mussa?
Chamou, no mesmo instante os seus mais hábeis servos e ordenou-lhes que gravassem na face mais lisa de uma grande pedra, que perto se erguia, esta legenda admirável:

Viadante! Neste lugar, durante uma jornada, Nagib salvou, heroicamente, seu amigo Mussa.

Isto feito, prosseguiram, com suas caravanas, pelos intérminos caminhos de Alá.
Alguns meses depois, de regresso às terras, novamente se viram forçados a atravessar o mesmo rio, naquele mesmo lugar perigoso e trágico.
E, como se sentissem fatigados, resolveram repousar algumas horas à sombra acolhedora do lajedo que ostentava bem no alto a honrosa inscrição.
Sentados, pois, na areia clara, puseram-se a conversar.
Eis que, por um motivo fútil, surge, de repente, grave desavença entre os dois companheiros.
Discordaram. Discutiram. Nagib, exaltado, num ímpeto de cólera, esbofeteou brutalmente o amigo.
Que fez Mussa? Que farias tu, em seu lugar?
Mussa não revidou a ofensa. Ergueu-se e, tomando, tranquilo, o seu bastão, escreveu na areia clara, ao pé do negro rochedo:

Viadante! Neste lugar, durante uma jornada, Nadib, por motivo fútil, injuriou, gravemente, o seu amigo Mussa.

Surpreendido com o estranho proceder, um dos ajudantes de Mussa observou respeitoso:
- Senhor! Da primeira vez, para exaltar a abnegação de Nagib, mandasse gravar, para sempre, na pedra, o feito heroico. E agora, que ele acaba de ofender-vos tão gravemente, vós vos limitais a escrever na areia incerta o ato de covardia! A primeira legenda, ó xeque, ficará para sempre. Todos os que transitarem por este sítio dela terão notícia. Esta outra, porém, riscada no tapete da areia, antes do cair da tarde terá desaparecido como um traço de espumas entre as ondas buliçosas do mar.
Respondeu Mussa:
- É que o benefício que recebi de Nagib permanecerá para sempre em meu coração. Mas a injúria... essa negra injúria... escrevo-a na areia, com um voto para que, se depressa daqui se apagar e desaparecer, mais depressa ainda desapareça e se apague de minha lembrança!
"Assim é, meu amigo! Aprende a gravar, na pedra, os favores que receberes, os benefícios que te fizerem, as palavras de carinho, simpatia e estímulo que ouvires.
"Aprende, porém, a escrever, na areia, as injúrias, as ingratidões, as perfídias e as ironias que te ferirem pela estrada agreste da vida.
"Aprende a gravar, assim, na pedra; aprende a escrever, assim, na areia... e serás feliz!"

(Malba Tahan)

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Olá, pessoas, enquanto o calor me impede de ter ideias boas pra posts pra cá e pro GA, começo o ano com um dos tantos belos contos de Malba Tahan, um verdadeiro gênio encantador das letras e dos números. Já fiz resenha aqui do livro de maior sucesso dele "O homem que calculava", mas mais que sugiro que todos visitem o link que coloquei no nome dele, logo depois do texto, e conheçam um pouco mais desse cara verdadeiramente admirável!
Voltando às atualizações do blog, não prometo nada, mas lembro que hoje é meu dia no GA - que tá com layout saindo do forno - (e o povo tá se divertido com meus apelidos) e aviso que dentro de alguns dias irá ao ar a resenha que fiz de um livro da Jane Austen pro especial que a Pandora tá fazendo lá no "Em Quantos".

10 comentários:

Erica Ferro disse...

Que lindo, Tchê Seerig! *-*
Adorei mesmo!
Preciso aprender a gravar coisas desagradáveis na areia e não em pedras. Esse exercício evitaria tantos traumas, tantos aborrecimentos, não é mesmo?

Belíssimo conto!

Pandora disse...

Lindo conto dona Ana!!! Escrevamos na areia as ofensas e nas pedras aquilo que nos alegra!!!

Dayane Pereira disse...

Lindo!
Eu faço o contrário, gravo as coisas ruins em pedra.. kk Mas quem sabe a vida me ensine, aos poucos..

Jota disse...

Isso é até antropológico: coisas boas escrevemos em pedras, para que durem. As escritas na areia, o vento, água ou qualquer agente da natureza se encarrega de apagar; essas não duram tanto assim. Acredito que seja algo no inconsciente que nos faz agir assim. Mas de qualquer forma, se escrevemos, é porque vale a pena lembrar.
Xero guria ;**

Tita disse...

Ahhhh, eu já me sinto um anjinho por não alimentar idéias de vingança! Eu sempre esquecia as ofensas, tanto que a mesma pessoa já me passou a perna duas vezes. Mas era deficiência de vitamina B12. Agora to repleta de B12 e não esqueço nadica de nada!!!!!! rsrsrs

Zilda Mara Peixoto disse...

Olá.Essa é minha primeira visita ao blog.Vi seu link em outro blog e resolvi vir conhecê-lo.Adorei seu blog e já estou lhe seguindo.Seu blog é muito bem organizado e suas postagens muito bem elaboradas.Te convido a conhecer meu blog e segui-lo também.Aguardo sua visitinha!
Bjs!
Zilda Mara
@ZildaPeixoto
http://www.cacholaliteraria.blogspot.com

Christian V. Louis disse...

Seria bom se o ser humano fosse capaz de fazer isto, contudo, eu acredito que poucos são os que conseguem e muitos os que gritam aos quatro ventos que sim apenas para fazerem-se de bons.
Eu assumo que tento e nem sempre consigo, tal como a Tita. Porém, venho alimentando um pouco mais o positivismo do que as críticas e o negativismo em geral que por vezes me é lançados gratuitamente e depois, acabo por achar comédia. Estou conseguindo enxergar melhor a mesquinhez e também os valores das pessoas, talvez isto signifique amadurecer.
Há coisas que serão gravadas sempre em pedra e outras, nem valem a pena tocar a areia para escrevê-las.

Tita disse...

Pois é, Christian. Acho que muitos mostram aquilo que gostariam de ser e não o que realmente são. Talvez mais por ingenuidade, por não terem enfrentado provas de fogo, águas turbulentas, situações limite que testem suas convicções.
Enxergar os outros como realmente são faz parte do nosso amadurecimento, sim. Por toda minha vida fui sempre muito compreensiva com os erros dos outros. Depois notei que relativizar demais só estimula esses erros. Agora me oriento pela frase: "quando alguém erra a primeira vez contigo, o erro é dele. Quando erra a segunda vez, o erro é teu". Tem sido um exercício tentar colocar isso na minha vivência diária, nas minhas atitudes para com os outros.

Rebeca Postigo disse...

Chefinha, belo conto...
Fica tranquila...
Logo as ideias voltam a fervilhar...

Bjs!!!

Janaina Barreto disse...

Oi, Ana!
Olha, eu gostaria muito muito muito de aprender as escrever na areia, a perdoar, sabe? Mas não é de mim, não consigo. Sou o tipo de pessoa que remói mágos até onde for possível. Sei que 'faz mal' tanto pra mim quanto ao 'objeto' da minha mágoa, mas foi algo que não aprendi a fazer. Quem sabe um dia, né??

Esse conto é muito bonito ^-^