sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O causo da porquinha

E naquela trova com todo mundo ainda sentado ao redor da mesa, depois do belo churrasco de domingo e antes de carpetear, não é difícil relembrar os tempos passados e as histórias das redondezas. Não posso negar que a mais divertida e que jamais canso de ouvir é o causo da pobre porquinha. Ah, mas o pai não gosta nada de contar, acho que a consciência ainda lhe pesa. Diz ele:
- Eu era guri novo, sabe como é, e com esse teu tio e o primo dele... - Mas na insistência ele conta: - Bom, tu sabe, fomos os três pra praia, fazer farra, sabe como é gurizada. Aí entre cerveja e baralho...
- Foi na mesma viagem que vocês quase se mataram porque as cervejas tinham acabado e tinha um lugar vazio no engradado? Vocês brigaram por achar que um tinha roubado a cerveja pra tomar sozinho, isso?
- É, acho que foi nessa. E quando nem olhávamos mais na cara um do outro, alguém descobriu a garrafa apoiando a janela. Vazia. Mas indo adiante, vez ou outra a gente levantava da cadeira pra esticar as pernas, numa dessas um piá estava do lado de fora vendendo algo.... Lembra o que era, compadre?
- Acho que era pamonha... Ou pé-de-moleque. Algo assim. 
- Isso, aí acho que tu deu uma trovada no guri, não sei se chegou a comprar algo. Mas enfim, o guri foi embora. Voltamos ao baralho e de noite um deles dois ouviu um barulho. Eu não ouvi nada. Jurava que eles tavam bêbados e escutando coisas, mas eles teimaram. Foi um deles lá fora e voltou dizendo que era um porco. Veio pedir ajuda pra pegar o bicho. Fui contra, mas sabe né, já tínhamos bebido muito e eles insistiram... Achei que não iam conseguir, mas os dois pegaram o pobre do bicho. Me neguei a fazer parte da matança e disse pra eles irem pra um lugar em que não fizesse muita sujeira. Os dois carregaram o bicho que não parava quieto pro banheiro. Vindos do campo, os dois sabiam como matar o porco. Foram lá e despedaçaram o bicho. Pra mim sobrou limpar a bagunça. As lajotas do banheiro estavam meio frouxas e por dias a gente pisava no banheiro e jorrava sangue de porco de algum lugar. Terrível.
- Nem vem, compadre, tu bem que comeu o porco também.
- Ahh, nem me fale. Lembra? Passamos dias comendo porco de tudo que é jeito e aquela carne não acabava nunca! Demorei um tempo pra conseguir olhar pra carne de porco de novo depois disso. Mas a parte pior não foi o sangue no banheiro ou a carne interminável. Quando quase enlouquecíamos com aqueles montes de carne, o piá que no dia do surgimento do porco veio vender pamonha ou seja lá o que ele vendia, apareceu com cara de choro, olhos atentos a qualquer sinal, e pediu com uma voz lamuriosa: "Moço, vocês não viram uma porquinha por aí? Ela sumiu, era de estimação...". 

13 comentários:

@_carlabresa disse...

Nossa, curti! Hahahah
Fiquei com dó da porquinha, gente. E ameeeei a tua escrita, guria! Parece que me vi no lugar com alguém realmente contando a história. Me posicionei em uma das cadeiras para escutar.
Amei, amei!

Bom texto e triste fim da porquinha. Um beijo!

Erica Ferro disse...

Coitadinha da porquinha. Coitadinho do menininho. :/

Gosto desses causos. :)

Lúcia Soares disse...

Casos assim, verdadeiros, e que seguem gerações, são bons de se ouvir sempre.
Que se diga que todos que ouvem devem ter dó da porquinha, ou do vendedor, dono dela.
Mas é a vida, é a vida!
(minha amiga do EmQuantos, estamos aí! www.luciahsoares.com)
Bom carnaval!

Dama de Cinzas disse...

Como já contei num post, eu tive um porco que adorava, o Chiquinho, e um dia minha família matou para comer. Realmente foram dias comendo porco, só eu que me recusei a comer.

Beijocas

Jeniffer Yara disse...

Ahhh tadiinha da porquinha :/ Pensei que eu iria rir só pelo nome do post, mas né, coitado do menino também. rs

Beijos

GrazieWecker disse...

até eu fiquei com dó da porquinha também... muito legal o causo, pode postar mais desses ;)

@_carlabresa disse...

Olha, dona Ana, já voltei aqui e a senhorita ainda não atualizou o blog, hein? Hahaha

De qualquer forma acabei relendo o texto da porquinha. Eita relato bem escrito. Curti demais!

Um beijo

Cássia Vicentin disse...

aaaaaaaaaah, tadinha da porquiinha! que dó )):

Jeniffer Yara disse...

Hey, tem tag e selo pra você no blog! Desculpa a mensagem 'automática' :}
Beijos!

Sabrina Gomes disse...

Coitada da porquinhA ! heh mais gostei do texto. . Cheguei hoje , mas já estou amando! Te seguindo! Adoraria ter você por lá também, www.spiderwebs.tk

Nati disse...

Passa no meu blog tem coisa pra você lá. http://mundodenati.blogspot.com/2012/02/tag.html

Bj

Pandora disse...

500 milhões de anos depois me deparo com um de seus contos gauchescos kk... Pobrezinho do pirralho, não merecia isso... E os cachaceiros mereciam ser presos!!!

Pandora disse...

P.S.: Cachaceiro não me soa como algo pejorativo, é apenas uma forma de se referir a pessoas que gostam de beber para ficar bebados, pois, como diz um amigo meu que se assume "cachaceiro" "se fosse para ficar bom eu tomava remédio".