quarta-feira, 18 de abril de 2012

Saga alegretense

Depois de muitas tentativas, ela finalmente conseguiu engravidar. Ah, a partir de então tudo era só alegria. Até aparecer a azia, pelo menos. Ela permaneceu imensamente alegre, mas com azia. Se tudo antes era alegria, agora era em parte alegria e em parte azia. Claro, a parte da alegria era maior, mas isso não tornava a azia inexistente. Não, a azia estava lá, mantendo um certo espaço no que antes era só alegria. A bem da verdade, a azia bateu o pé e teimou em não deixar escapar seu território, impedindo que a alegria fosse completamente a dona do ambiente.
Pois veja, é sabido que o pessoal do Alegrete não é fraco e nem foge de peleia. A azia alegretense também não. Mas chegou um momento em que a grávida lá da fronteira encheu-se da azia e resolveu dar um fim naquilo. Foi até o médico e pediu autorização para tomar leite de magnésia. Autorização concedida. Agora não ia ter pra azia. Ia ser chutada até desaparecer por completo. E o sabor da vingança era tão desejável, que a nossa alegretense personagem nem saiu da farmácia. Abriu o vidrinho e tomou tudo de uma vez, para a indignação do marido, que queria um mísero gole. 
Diante disso, a azia não teve muito o que fazer que não fosse debandar. Mas relembrando que era do Alegrete, ela não se deixou vencer simplesmente, pra não dizer que sua vingança foi maligna. Deixou em seu lugar uma diarreia danada. Mas dessa vez a nossa cara personagem grávida não sofreu sozinha. Seu marido, indignado por não ter ganho um gole de leite, tomou ele seu próprio vidro de magnésia. E também ganhou uma diarreia tremenda (eu disse que a vingança da azia foi maligna, afetou até inocentes).
Por três dias e três noites, o casal mal se viu, cada qual em seu banheiro. Melhor é nem imaginar o que teria acontecido se não houvessem dois banheiros na residência. Também não quero sequer pensar no aroma do lar doce lar do casal, possivelmente foi o suficiente pra matar quaisquer insetos e parasitas existentes (há males que vêm para bem, não é?). Vou apenas deixar aqui esclarecido que, por três dias, ficaram eles alheios ao mundo existente além da porta do banheiro de cada um. Até que os banheiros puderam ser evacuados (com o perdão da escolha de vocabulário).
Finalmente a liberdade! O mundo parecia estar novo em folha. Ah, quanta alegria! Os dois quase pulavam de animação, então é compreensível que, ao terem nas mãos um abacate, não resistissem a fazer o que mais gostavam: um creme com abacate, laranja e leite condensado. Hmmm, só de pensar dava água na boca. Pois não demorou para que os dois pudessem ser encontrados comendo ansiosamente esse creme. Quase lambiam os beiços. Até que começarem a regurgitar o que colocavam boca a dentro.
E assim passaram eles mais alguns dias nos banheiros, com as cabeças enfiadas dentro dos vasos sanitários. O tempo que isso durou é especificidade que me é desconhecida. Só sei que durou. E durou. Mas um dia tinha que terminar. E terminou. Depois de dias tão emocionantes, o casal retornou à vida costumeira, como se nada tivesse acontecido. Eram novamente um casal de futuros papais. Opa, e o bebê? Por mais garantido de si que um alegretense seja, ele não é um ser egoísta. Foi-se então o casal para o médico ver se a futura mamãe estava realmente bem.
Daí o doutor resolveu interná-la. De cara podia-se ver que ela tinha passado por maus bocados. Antes que ela se opusesse, o doutor disse que ela estava fraca, afinal, precisava se cuidar, pelo bem do bebê. Ela não podia teimar contra. E não teimou. Ficou no hospital, mas sem a alegria plena alcançada, aquela comida era realmente deprimente. Uma sopa de farinha de mandioca foi a gota final. Foi inevitável que ela reclamasse pra irmã que, penalizada, pediu se ela comeria um "xis". Desnecessário é dizer como essa pergunta foi respondida.
A irmã apareceu com o xis. Foi ela, levando o soro de arrasto, para o banheiro, comer escondida (nunca se sabe quando o médico ou uma enfermeira apareceria). Jamais ela esqueceria todo aquele sabor, por mais que soubesse que ele fora o culpado do que se seguiu. Comeu num instante e voltou ao seu leito hospitalar. Não demorou, chegou a noite e, com ela, uma nova sequência de vômitos. Praticamente passou a noite em claro. 
- Passou mal essa noite? - Perguntou o médico ingenuamente pela manhã. Tâo ingenuamente que nem desconfiou do enfático "não" da paciente. E então ele a liberou para ir pra casa. 

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Tal como Sabino transformou em crônica uma história de uma amiga comum que Otto Lara Resende contou numa carta (A condessa descalça), eu cá transcrevo essa emocionante saga da alegretense colega da minha mãe (que foi quem me contou o causo). Emocionem-se, pois, e não me perguntem onde fica o Alegrete (piada infame).

2 comentários:

Erica Ferro disse...

"Melhor é nem imaginar o que teria acontecido se não houvessem dois banheiros na residência. Também não quero sequer pensar no aroma do lar doce lar do casal, possivelmente foi o suficiente pra matar quaisquer insetos e parasitas existentes (há males que vêm para bem, não é?)."
Ri demais com esse trecho.

Mas como sofreu a coitada do Alegrete, hein?

Gostei do causo, Tchê.

VaneZa disse...

Não sei como ela não abortou essa criança com um vidro de magnésia. Povu doido!

BeijoZzz