sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Animal é quase gente"


Poucas vezes neste blog eu falei de minha vida pessoal. Aliás, não só nesse blog, mas eu qualquer outro. De modo geral, pouco falo da minha vida pessoal. Posso falar da minha visão de mundo, posso falar dos meus gostos, mas raras vezes falo da minha vida familiar, do meu dia a dia ou seja lá o que for. Uma das vezes que abri uma exceção foi pra falar de uma dupla que nunca foi vista como posse ou algo assim, mas sim como parte da família: o jeep e o Hércules.
Hoje o jeep quase não sai da garagem e ontem o Hércules faleceu. A família também já não é mais a mesma. As coisas mudaram. Pra melhor, pra pior, mudaram. Mas as lembranças permanecem. Lembrar é, pra mim, a prova de estarmos vivos, de termos vivido e de termos o que viver. São a nossa base. Mas não é fácil lembrar, por melhor que seja, e por isso há quem evite.
Não é meu caso. Lembrar de como tive uma infância feliz de modo geral, lembrar mesmo as coisas que me magoaram, isso me dá força pro agora, me ensina, me ajuda. Saber que, de repente, uma pessoa só poderá ser lembrada, dói, mas não se deve achar nisso o fim do mundo, afinal, quem se foi, não gostaria disso.
Falei em pessoa quando minha perda mais recente é um cachorro. "Animal é quase gente", canta o Graforréia Xilarmônica, e no fim das contas estão certos. Admito, nunca fui a mais apegada da família ao Hércules, longe disso. Aliás, quando ele veio aqui pra casa, eu corria dele o máximo que podia. Medo. Quando pequena me dava bem com cachorros, até ter um sonho que me apavorou e, desde então, me deixou receosa quanto a cachorros, o que depois se tornou irônico, já que me apavorava com cachorros pequenos e tinha um grande.
Aos poucos, eu e o Hércules nos acertamos. Não a ponto de eu me agarrar nele toda hora, como sempre fizeram meus irmãos, mas também não me agarro às pessoas. Característica minha. Mas ele estava ali. Se alegrava quando me via chegar, fazia cara de abandonado quando eu saia. Sem contar que, nos últimos tempos, me fazia companhia nos sábados solitários, sem dar a mínima bola pras minhas cantorias repentinas ou minhas tentativas de falar com ele em alemão (ele era um pastor alemão, afinal).
Ah, e as lembranças de infância, então? A alegria dele em festas de aniversário, ele indo de jeep com o pai buscar eu e meu irmão na aula, ele tentando morder as ondas na beira da praia... Tanta coisa! Não creio que seja falta de sentimentalismo meu não estar agora chorando. Ele sofria, agora já não sofre. Claro, saber que vou olhar pro gramado e ele não vai estar lá, dói, e demorarei pra me acostumar com o fato de não ter que me preocupar se ele vai sair porta afora assim que eu a abrir. Mas seria egoísmo meu querer que ele ficasse e continuasse a sofrer.
A vida não é eterna, nem pra pessoas, nem pra animais. Pra morrer basta estar vivo, como diz alguém por aqui. Não podemos controlar o momento de partir. Mas podemos aproveitar ao máximo quem está ao nosso redor. Podemos aproveitar ao máximo o fato de estarmos vivos. Podemos sempre lembrar do que se passou, sem esquecer de que há sempre um passo a se dar pra frente.
Sim, a perda dói, mas ela jamais será mais forte que a alegria de lembrar.




E agradeço a todos que sempre se preocuparam e adoraram o Hércules, especialmente aos que não tiveram chance de conhecê-lo mas não acharam isso impedimento para lamentar sua morte. 

12 comentários:

Tita disse...

Bem, com todo respeito às minhas queridas amigas... mas pra mim animal é mais que gente. Dizem os budistas que existem etapas na reencarnação, vindo de animal para humano. Eu digo que seria o contrário, indo de humano para animal. Pq as atitudes dos animais me parecem sempre mais elevadas, animal está sempre em harmonia com o restante da natureza, faz parte dos ciclos de forma simples e natural, diferente do ser humano, que está sempre brigando para dominar a natureza quando não consegue dominar sequer a si mesmo de maneira sensata. Mas a convivência com esses seres maravilhosos nos permite compartilhar dessa harmonia. O Hércules com certeza vai permanecer em todos vocês sempre que exercitarem esses aprendizados.

Pandora disse...

Ana eu não tenho muita química com animais, mas como aqui nós sempre criamos eu aprendi que os animais conhecem seus humanos melhor do que os próprios humanos. Scoot nunca exigiu mais de mim do que eu sabia dar e assim também é com a cachorra irritante da Pirrita, ela não pula em cima de mim ou coisa do gênero, mas nas madrugadas extensas de quem tem quilos de coisas a ler e é viciada em internet rsrsrs É ela minha companheira que me olha com compreensão e me oferece o silêncio!

Aliás, minha mãe também nunca foi passional com Scoot, mas quando ela viu que ele estava morto, chegou até a perder os sentido, não ficava chorando litros, mas foi a que mais sentiu no silêncio pq era quem mais ficava com ele... Enfim... É uma perda, mas as memórias... Ah, as memórias a gente nunca perde, a lembrança do amor, da compreensão, da companhia é constante e nos acompanha sempre...

Jana disse...

Ah, Ana! Não conhecia o Hércules, mas me emocionei. Comecei a ver o vídeo mas já ia chorar, então, parei. rs
Também já passei por isso e sei como a gente pode ser egoísta em mantê-los até o fim, por medo da saudade... Mas, como você disse, vem a dor, mas ficam também as lembranças.

Beijão ;*

Jeniffer Yara disse...

Eu não sei o que é essa perda, tanto de um animal querido como de um parente querido que morreu, já tive alguns parentes que morreram, mas eu não tinha muito contato, então, a tristeza não é a mesma. Mas enfim,não conheci Hércules também, mas pelo seu texto vemos o quanto ele foi presente na sua vida e na de sua família, uma pena ele ter ido, mas como você escreveu, a morte vêm para todos, as lembranças sempre ficam para nos dar alguns minutos de felicidade ou de reflexão, quando são lembranças ruins. Enfim, lamento a perda de Hércules, mas lembre-se dos momentos bons com ele e assim talvez a dor seja menor ;}

Beijos ><

Family More disse...

sou assim, não sou muito apegada a pessoas, mas quando se trata de animais, defendo com unhas e dentes. e não tem como se ter um cachorro em casa e ser indiferente a ele, não quando ele sempre faz uma festa quando você chega em casa mesmo que tenha saido a 2 minutos. Sinto muito pela tua perda Ana. Em 2007 perdi uma cachorrinha que era a alegria da casa, sofremos tanto que dissemos nunca mais ter outro cachorro, 1 mês depois já tinhamos comprado outro. A vida continua afinal de contas ...

Gabriele Rohde disse...

Como assim a Ana me faz chorar quando estou trabalhando? Posso ser muito sentimental e blablabla, mas achei o teu texto tocante, porque você fala dos teus sentimento em relação as coisas que te cercam, tu te abriu um pouco com teus leitores, em um momento triste, e isso é lindo Ana. Eu fiquei muito triste ao saber do falecimento do Hércules, mas se ele estava doentinho, é melhor que ele descanse. Obrigada por compartilhar isso conosco, beijos!

VaneZa disse...

Seria exagero meu dizer que prefiro os animais a seres humanos? Seria exagero meu dizer que prefiro ver um ser humano sofrer do que ver um animal? Pois é... Sei como é perder uma membro da família de quatro patas... Sei bem o que é isso.

BeijoZzz

Davi Pereira disse...

Olá, em momento algum lembro ter tido grande apreço a animais e confesso que alimento alguma aversão a indivíduos, que falam ou tratam animais como sê humanos, não os maltrato com a mesma naturalidade que não me aproximo deles em demasia. Assim sendo, admiro esses sentimentalismos, não admiro pejorando ou majorando, simplesmente olho para as contradições de alguém que fala com seus animais e não lhe dá o simples bom dia nosso de todas as manhãs. E ainda em tempo, peço desculpas pelo contraponto às idéias acima expostas.

Anna Monte Alegre disse...

Oi,
eu também perdi meu querido amiguinho vira latas a algum tempo atras.
Ele tinha 10 anos já. Precisou ser sacrificado pois contraiu uma doenca que poderia ser transmitida a humanos.
Foi muito triste na época...

meus sentimentos

Dayane Pereira disse...

Cachorros são como crianças, no seu mode de agir. Quase sempre estão alegres, e nos alegrando com sua simples presença.
Bem, se ele estava sofrendo, então foi melhor partir.
=(

Erica Ferro disse...

Puxa vida, me emocionei com esse post. :/
Com toda a certeza, Hércules marcou de uma forma linda a vida de todos que tiveram a alegria de conhecê-lo.
É triste ver alguém que a gente ama, que nos acompanhou por tantos anos, partir. Mas, é como você mesma disse, se ele estava sofrendo, foi melhor, pois agora ele está em paz, sem dores. E as lembranças boas, as recordações felizes, ah... essas jamais serão arrancadas das mentes e dos corações dos que tanto amaram o Hércules.

Lindo post, Seerig.

Roderick Verden disse...

Interessante, também não sou de me apegar nas pessoas, nem em animais, mas, sempre há exceções.

Quando eu morava com a minha mãe e seu companheiro, tínhamos um papagaio, o Stalin(eu que criei esse nome-rs). Eu gostava demais dele. Era eu que tratava dele. Se comia um pão, ou biscoito, ou uma maçã, dava o resto pra ele. Toda hora que eu passava por ele, brincava com o mesmo. Coçava sua cabeça(ele também coçava sua própria cabeça). Meu padastro, no começo de 2008, o deu para uma conhecida. Foi numa segunda-feira, quando anoitecia. Eu ajudei a colocar a enorme gaiola no carro da conhecida. Eu estava arrasado,e pode até parecer loucura, mas quando me despedi dele, parecia que ele sentiu isso, parecendo angustiado. No dia seguinte, eu fiquei bem mais pra baixo, parecia que eu havia perdido uma pessoa das mais queridas. Achei que eu não iria me conformar, no entanto, me conformei bem rápido.

Há dois anos atrás, fiquei sabendo que o Stalin havia morrido. Fiquei chateado claro, mas não tanto, sem comparação, quando ele foi dado para a conhecida.