segunda-feira, 18 de junho de 2012

Leu o mundo

Outro dia, no ônibus, vi uma cena que me fez sorrir sozinha: um homem com uma guriazinha. Sentaram os dois juntos. A menina ficou ao lado da janela e tudo que via através dela parecia fasciná-la. O homem, que supus ser o pai, era atencioso e respondia a tudo que a menina perguntava.
Tal cena, me lembrou outra, de meses atrás: o pai levou a filha pequena para ver a orquestra que tocaria gratuitamente ao ar livre. Quando chegaram, as cadeiras da frente estavam ocupadas. O pai sentou-se, então, em frente às cadeiras, no chão, pegou algo da mochila da menina, que ele carregava, talvez uma blusa ou uma toalha, e colocou no chão para que ela sentasse, o que a menina fez muito feliz. Sentou-se a assistiu fascinada a orquestra tocar.
Ambas as cenas me lembram sempre minhas andanças por aí, quando pequena, com meu pai e meu tio, mas em especial um dia com o meu tio, talvez o mais marcante da minha infância. Sábado ou domingo, não lembro. Lembro, isso sim, dele me convidando para ver o jogo do Grêmio na cidade, contra o Juventude. Mesmo que alegue que meu fanatismo começou aos 13 anos, nem passou pela minha cabeça negar. Saímos ainda de manhã, andamos por toda a cidade de ônibus - o que sempre foi fascinante pra mim -, fomos ao monumento ao imigrante italiano, que me pareceu imenso, comemos em um restaurante caseiro... O estádio foi a última parada. Não fomos na torcida do Grêmio, meu tio sequer me deixara ir com a camiseta que ele havia me dado, na época gigante para mim, mas na do Juventude, o que não destruiu meu encanto. Ele até me deu uma almofada do Ju (ainda as vendem no estádio?), a qual, até pouco tempo atrás, rolava pela casa. O Grêmio ganhou por 2x1, mas mesmo que tivesse perdido, eu já havia ganho meu dia.
Mas o que me chama atenção mesmo é o modo de lidar com as crianças. Cada vez mais vejo mães xingando seus filhos por aí, sem dó nem piedade, o que quase me faz interceder. Mães não apenas xingando, mas humilhando as crianças. Que mães são essas, eu me pergunto. E aí, diz-se por aí que os homens são mais indelicados e impacientes, quando, na verdade, os que vejo por aí acompanhados de crianças são sempre admiráveis.
Volto, então, à menina que se encantava com o que via pela janela do ônibus. Lembrou-me mais do que nunca daquele dia com meu tio e da minha emoção por andar de ônibus. Numa parada, então, enquanto uns desciam e outros subiam, ela olhava. Olhava e viu letras. Uma a uma juntou-as, assim como fazia na escola. Uma letra estranha, questionou. O pai explicou. Voltou os olhos para as letras e, então, usando o que acabara de aprender, leu-as todas. Leu o mundo. 



E quem gostou desse, pode gostar do publicado na semana passada no GA: Meus Mosqueteiros

4 comentários:

Pandora disse...

Eu to tão temperamental ultimamente!!! Vc fica ai com essa pinta de Bastião e vive me fazendo chorar afff!!!

Sim ela leu o mundo, é muito lindo ser criança e se sentir amada pelas pessoas que amamos, isso não tem preço!!!

Se os pais soubessem o valor que tem para os filhos talvez fossem menos rudes com eles vez ou outra!!!

@_carlabresa disse...

Nossa, Aninha, me arrepiei com esse texto, viu? *-*

Linda demais essa sua analogia das letras e da leitura do mundo. E é verdade que algumas mães não têm paciencia com seus filhos, mas repara que se vê muito menos pais por aí com suas crianças que mães. Os pais, hoje em dia, têm que lidar com os filhos durante os finais de semana e as mães lidam com eles durante toda a semana, né? Quem acaba sendo o carrasco? :P

Fora isso, achei que você era gremista! haha

Beijo!

Evelyne disse...

Já tinha lido mas o comentário passou batido. Em tempo:

Que fofinho Ana, com esses textos tu até me convence que é uma pessoa meiga.
Não sei porque mas não tenho a sorte de encontrar essas histórias bonitas assim na rua, ou talvez encontre e nem preste atenção.
Mas, sério, que bonitinho. *---*

VaneZa disse...

Mas os pais sempre são mais apegados às filhas. Agora se vc quer que sua amiga que te ama de paixão continue lendo o seu blog, ou vc escurece a letra ou coloca o fundo branco, porque eu sou cega. Rum!

BeijoZzz