domingo, 2 de setembro de 2012

Álcool x Maconha

"Quanto às drogas minha opinião é outra. Precisamente para firmar minha opinião, certa vez procurei experimentar cocaína, que anda na moda, apesar de ser coisa tão antiga. Creio que me deram talco, ou bicarbonato: não senti nada além da minha natural excitação.
Vivi normalmente neste estado e me lembro que, quando jovem, me encontrava com Hélio Pellegrino, outro excitado, e acabávamos às vezes tendo de beber alguma coisa para justificar o porre em que já estávamos.
A maconha, cheguei a experimentar. Houve época em que até achava que seria melhor que fosse liberada de uma vez. Acreditava que, como o álcool, o excesso é que fazia mal, proibir era pior. Hoje não penso assim.
Por não ser metabolizada, a maconha não provoca insegurança, desequilíbrio, amnésia e até privação dos sentidos, como o álcool. Ao contrário, proporciona uma fascinante exacerbação dos sentidos e da noção do tempo. Só que o álcool, pesando no organismo, pode estar justamente emitindo um aviso de que se passou da conta e não há condições de se beber mais. O fundamental é saber parar. Há uma hora em que nos perguntamos se devemos ou não tomar mais um. Quando isso acontece, já tomamos o último. Sou até autor de um slogan: A bom bebedor, meia garrafa basta.
A maconha faz ficar "numa boa", com diz que faz uso dela, que se sente um gênio, exatamente no momento em que está chegando aos limites da debilidade mental. O vocabulário se restringe, há uma regressão a um estágio primitivo de raciocínio. E o maconhado fica meio antropoidal, com aquele sorriso alvar e cheio de dentes, muito bonzinho, muito na dele, angelical, vira naturista, conversa com plantas.
O bêbado costuma até ser mais insuportável que o maconheiro, e o alcoolismo é coisa séria. Mas a bebida pelo menos pode ser tomada com moderação - o que nem sempre acontece, reconheço. Está incorporada à vida social, é agradável ao paladar, ao passo que a maconha é malcheirosa, arde na garganta, tem gosto ruim. Não há termo de comparação. É o mesmo que, se em vez de uísque, tomássemos álcool-motor, não pelo prazer da bebida, mas para nos embebedar. Sabemos o que estamos tomando, percebemos quando o produto é falsificado. O que em geral não acontece com a maconha, que às vezes não passa de uma titica de boi.
Além do mais, o bêbado pelo menos pode ser engraçado ou divertido, personagem de um anedotário inesgotável, que a tradição consagrou. Haja vista a cena imortal de Carlitos com o milionário Luzes da cidade
Se costumo beber habitualmente, é sempre para buscar o calor da convivência. Quem usa drogas também se agrega, mas apenas na busca de proteção mútua para a contravenção que está praticando. Em vez de se expandir, reflui para dentro de si mesmo, fica isolado, incomunicável. Procura atingir aquela espécie de "barato" que Aldous Huxley descreve em Doors of perception, sobre os efeitos da mescalina. É a contrafação do êxtase místico, descrito por Thomas Mertton em Seeds of contemplation. Só que Thomas Mertton meditava a seco, não precisava de drogas. São Francisco de Assis muito menos. O próprio Cristo, que não puxava fumo, não cheirava pó, nem tomava bolinha, bebeu e consagrou foi um cálice de vinho. E no entanto vivia no maior barato.
Quando jovem, mais de uma vez tomei pervitim, inocentemente, como era costume, para ficar acordado quando tinha de estudar para as provas. E, de farra, cheirava lança-perfume no Carnaval. Isso não queria dizer nada. Os jovens de hoje buscam uma espécie de nirvana na maconha e nas drogas (nem todos, naturalmente). No mais, acredito que não sejam nem piores nem melhores do que nós fomos. E me parece que ultimamente estão começando a descobrir que o "legal" é ser legal: casar, ter filhos, tratar a mulher com carinho, respeitar as leis da convivência social. Tanto melhor. 
O problema é que houve uma multiplicação enorme de jovens, apesar da pílula e do aborto: se antes eram três mil para fazer vestibular, hoje são três milhões. Não tem lugar para eles: juntam-se e se distraem quase como gado, nos shoppings centers, nos shows de rock ou simplesmente na rua e na praia. 
No meu tempo encontrei condições para viver a minha juventude numa intensa convivência com três ou quatro amigos. Éramos rebeldes, inconformados e petulantes. Cada chope que tomávamos era para protestar contra alguma coisa, salvar o mundo e tornar a perdê-lo no chope seguinte. Mas naquela época os jovens se emancipavam logo, saíam de casa e iam viver por conta própria aos 18, vinte anos. Hoje a maioria deles, de 25 e até mais, fica vivendo à custa dos pais, atormentando a vida do resto da família, atrapalhando a ordem da casa. Esse tipo de condescendência os nossos pais não tinham para conosco. Comecei a trabalhar aos 16 anos e saí de casa aos vinte. Mas o mundo mudou muito desde então."

(Trecho da parte dois do capítulo Vivências do livro O tabuleiro de damas, de Fernando Sabino)

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Ultimamente ando ouvindo muita discussão sobre essa liberação da maconha. Sinceramente, não tenho opinião formada ou argumentos, mas achei essa passagem do Sabino interessante e resolvi registrar. Me digam, só que gostei da forma em que ele expôs suas ideias sobre a questão - há mais de 20 anos?

5 comentários:

Roderick Verden disse...

Não havia notado as aspas, por isso pensei que você fosse a autora do texto.rs

Eu sou a favor da liberação da maconha. Mas nunca usei drogas. Me lembro que dois conhecidos, em ocasiões diferentes, estavam com maconha, um deles, fumando , no seu local de trabalho, com dois colegas; outro, na sua pequena loja de silk screen, pediu que eu vigiasse a loja, enquanto ele iria para um lote vago, puxar um fumo...

As drogas nunca me atraíram, principalmente pelo fato de eu não gostar nem um pouco de fazer coisas contra a lei.

Quanto à bebida, bebe diariamente. Todo dia por volta das 18 hs. bebo , acompanhado de tira-gostos. Costumo sair umas três vezes por semana; quando isso acontece, não almoço em casa, bebo na rua, acompanhado de coisas como feijão tropeiro, feijoada... Bebida alcoólica, sabendo beber, é uma das melhores coisas da vida, no meu entender.

Perdão pelo testamento.rs

Erica Ferro disse...

Também não tenho opinião sobre isso. Na verdade, eu nunca pensei realmente no assunto, pesando os prós e os contra da liberação da maconha.
Enfim, gostei muito desse trecho, Sabino é sempre um encanto. Gostei muito do trecho.
Preciso ler mais de Sabino urgentemente. Estou com saudade das palavras dele!

p.s: e é maravilhoso mesmo como as palavras dele de 20 anos atrás soam tão atuais.

Mr. Blue disse...

Discordo do Sr. Sabino. No tocante à maconha. No que ele disse do alcool eu até que concordo, ele fez algumas elucubrações interessantes!

Pode se um grande escritor. Mas sua opinião sobre maconha não passa da velha ladainha conservadora americanizada que era imposta ao imaginário popular nos anos 60 ou 70. Aliás, falando aqui de anos 60, não me parece que hoje o jovem esteja tão porra louca assim, ou que pareça ser algo tão novo, ou que há 20 anos atrás o fosse também. É certo que a porralouquisse do jovem hoje, ao meu ver, é um pouco mais doentia, mais patológica, tenta encontrar nas drogas não só diversão ou meditação, mas um escape desesperado. Mas não quer dizer que seja boa essa 'aburguesação' do jovem, se constituir logo em família, com uns 20 e poucos anos (quando justamente, e aí concordo de novo com Sabino, ainda está debaixo das saias dos pais). Porque é o que está acontecendo: muita gente casando cedo, ainda morando com os pais, sem erigir uma estrutura psicológica e financeira antes, casam despreparados, por vezes, imaturos. A questão de morar muito tempo com os pais não é por culpa dos filhos, é simplesmente porque os tempos são outros, é uma velha história isso dos mais velhos jogarem para os braços da juventude de hoje a responsabilidade de sermos vagabundos, preguiçosos e parasitas dos pais, mas ninguém pára pra refletir um bocado sobre os pais terem influenciado esta escolha e ter dado todas as opções possíveis de conforto e prazer, carinho e proteção até mais tarde. Hoje os jovens estão sim mais mimados, mas é fruto de um tempo social, um tempo de otimismo que todos na faixa de idade dos pais hoje viveram quando se tornaram adultos e constituiram famílias, contraditório ao tempo de pessisimos que eles viveram quando eram jovens, e não querem proporcionar aos filhos a experiência da juventude deles.

Um bando de jovens mimados, saindo das asas dos pais para o aconchego da suas próprias famílias, mas sem estrutura psicológica ou econômica. Nascem desastres daí, e o amor, muitas vezes não é recebido com amor. Na sociedade capitalista consumista de hoje muitas vezes 'amar' se resume a 'ter'. As drogas são procuradas como escape quando o sujeito percebe o quão agonizante é também a situação de ter sido mimado, ou quão fácil, chata e monótona é a vida. Mas eu sinceramente acredito no poder de emancipação que algumas drogas podem proporcionar, como um remédio (que também são drogas). Portanto, você também deve usá-la como a um remédio. Se for usar um ácido muito doido, ou um chá alucinógeno, não faça indiscriminadamente, faça da maneira certa, comensurado, como os índios nos seus rituais de ahuyasca. O mesmo com a maconha. Não precisa fumar excessivamente como quem fuma cigarro fuma maços por dia. Não acredito no mesmo para cocaína, ecstasy, heroína, oxy, e afins, porque são todas drogas com um fim único de chapar, de estragar mesmo o sujeito. Os alucinógenos e a maconha, apesar de em última instância também poderem desgraçar a vida da pessoa, estão mais na "família" do alcool e do cigarro normal, do que na das outras drogas. Tenho estas conceções baseadas em documentários a que assisti, artigos que li e pessoas que conheci. Não sou alienado, li também as disposições contrárias. Por isso digo que ponderei as opiniões, medi, refleti, e tirei essas conclusões.

Ah, aqui quem fala é um jovem de 21 anos que mora com os pais, é um não usuário de drogas por vontade própria, adora um alcool (cerveja e vinho principalmente) e odeia cigarro de tabaco comum!

Anderson Kravczyk disse...

Belo texto! Nunca tinha lido nada desse cara, aliás, continuo sendo um preguiçoso pra leituras :(, quanto ao resto, concordo com o Sr. Azul.
Bom, tenho 28 e ainda moro com os coroas, não pq eu quero, mas sim por não ter condições financeiras de morar por conta própria, meu salário não permite eu alugar um apartametinnho e também não tenho fiador para tal.
A minha única opção para sair de casa no momento, seria alugar um casebre em alguma favela...

Bah, ao invés de comentar o post do blog, comentei o comentário heheheh

Mas também concordo com o Sabino, concordo com o Azul. Ah, sei lá om o q eu concordo ou discordo. Me perdi no mundo faz tempo :p

Pandora disse...

Tenho 26 anos e ainda estou na casa de meus pais!!!! Caos, preciso partir...

Eu sou ressabiada com drogas alucinogêneas, tenho medo de gostar e não consegui parar!