sábado, 6 de outubro de 2012

Amor e morte

 "Aliás, o próprio Garp já escrevera: 'Sempre há suicídios entre as pessoas que não conseguem dizer o que querem'."

(p. 504 de O mundo segundo Garp, de John Irving)

O mundo segundo Garp apareceu em minhas mãos e me chamou atenção. Acho que foi o Robin Williams novinho na capa (na verdade, era uma foto da adaptação cinematográfica que Williams estrelou e, se bem me lembro do que pesquisei na época, foi responsável por assegurá-lo no mundo das telonas), ou pode ter sido a editora. Sempre gostei das edições do Círculo do Livro, talvez por termos várias aqui em casa, como meu pai costuma dizer: "Só tem livro bom". Então, como não poderia deixar de ser, tomei posse do livro.
De cara, percebi que o gênero de escrita do autor, John Irving, era ímpar, mas mesmo assim me surpreendi. Determinada situação da história me abalou tanto que, por um dia inteiro, eu só olhava para o livro, xingava e dava as costas. Xingava a situação, xingava o autor e xingava a mim mesma por não ter capacidade de retomar a leitura. Dei voltas e voltas pela casa, respirei fundo e voltei a abrir o livro.
Quando a história se acabou, estava decidida a resenhá-la aqui. Não o fiz. Deixei pra depois, ou antes fingi deixar pra depois. Fiquei tão fascinada quanto irritada pela história, admirada e chocada. No início da semana terminei de ler O hotel New Hampshire e a sensação foi a mesma. Sou incapaz de falar sobre qualquer dos dois livros. Então melhor é falar do autor.
Jamais havia ouvido falar em John Irving e acredito que muitos aqui também o desconheçam. É engraçado, na wikipédia portuguesa o artigo sobre ele quase inexiste, já na inglesa ele tem uma página e tanto. Boa parte dos livros de Irving se tornaram filmes, dos quais também nunca ouvi falar por aqui. Creio que o ideal, então, é dizer que ele não caiu no gosto dos brasileiros. Pra falar a verdade, apesar de seus livros serem best-sellers, duvido muito que nos Estados Unidos ele tenha muito mais admiradores do que críticos. Tenho pra mim que Irving fez sucesso na base da repercussão. Por quê?
De maneira simples e direta, John Irving nos estapeia a todos. Por mais que você diga que não tem preconceitos, você tem, em maior ou menor grau. John Irving prova que você tem. Homossexualismo, feminismo, incesto, xenofobia, estupro, traição... Sobre tudo isso ele fala. Não, não é aquela coisa meiga de "vamos repensar nossas ideias, pessoal", é aquela coisa curta e grossa de "te olha no espelho e pare de julgar os outros". Irving quer, penso eu, nos mostrar como somos absurdo nos nossos conceitos de certo e errado, justo e injusto.
Hermann Hesse uma vez disse que, ao contrário do que alguns falavam, O lobo da estepe era um livro sobre vida e não sobre morte. Bem, apesar de parecer uma leitura asquerosa e violenta, Irving é, na verdade, uma leitura pacífica, uma leitura em busca de paz, de consciência e, especialmente, de humanidade. Uma leitura para se amar e odiar, uma leitura para viver e morrer.

"- Os seres humanos são notáveis, as coisas com que podemos aprender as conviver - disse-me papai. Se não pudéssemos fortalecer-nos com o que perdemos, com o que nos falta e com o que queremos e não podemos ter, então nunca poderíamos ser bastante fortes, não é? O que mais nos torna fortes? - perguntou papai."

(p. 347-8 de O Hotel New Hampshire, de John Irving)

3 comentários:

Malú Oliveira disse...

Nossa, fiquei impressionada com as citações. A primeira é a mais pura verdade e a última me tocou de um jeito especial, porque hoje mesmo, aliás, agora mesmo estava pensando sobre como minha vida poderia ser normal, mais simples. Mas algumas coisas que me faltam, me fortalecem. Do contrário, nunca poderia ser forte o bastante.

Adorei! :)

Pandora disse...

Eu li muitos livros do Circulo quando era adolescente, pensava como seu pai que a editora só publicava bons livros então na duvida levava um do circulo da biblioteca.

No mais "Uma leitura para se amar e odiar, uma leitura para viver e morrer" é uma expressão tão passional que faz com que o autor venha para minha lista de futuras leitura, torna ele visível a meus olhos automaticamente.

E sim, adoro quando vc escreve assim Ana, intensa!

Pandora disse...

Hora de ler John Irving!
_________

Será que da para tu passar esse texto para a Estante? - É um devaneio literário lindo. Você devia escrever mais assim Ana. Não necessariamente resenhas, mas textos sobre livros!