sábado, 27 de outubro de 2012

Tesouros e causos perdidos

Sente-se na varanda numa manhã não muito quente, durante a roda de chimarrão com os campeiros do interior de Caxias histórias é que não vão faltar. Não são histórias incomuns, são bem parecidas com as que se escutam em outros cantos do país, mas a crença inabalável no que se está sendo dito faz com que até o mais cético seja incapaz de desconfiar totalmente da veracidade do causo.
Lembro ainda daquele dia que ouvi pela primeira vez a versão caxiense da conhecida lenda do lobisomem. Aliás, não era uma versão, não era uma lenda, era um fato, uma suspeita/crença real.Me afirmaram, com todas as letras, que o fulano, parente do cicrano, era um lobisomem. Claro, quem contou o causo conhece muito bem o dito lobisomem, já pra mim ele é apenas o Fulano. A argumentação foi forte.
"Teu tio mesmo disse que viu uma noite. Saiu para fora de casa para fumar e viu aquele cachorrão olhando pra ele, com dente de ouro e tudo. Bom, o Fulano tinha dente de ouro. Também contam que uma vez, transformado, ele se aproximou de uma moça e mordeu-lhe o vestido. No outro dia, dizem, ele foi visitar a família e ela reconheceu o tecido do seu vestido preso entre seus dentes."
A história de que lobisomem tem que ver a lua cheia para se transformar me foi desmentida. Disse o contador do causo, que os lobisomens tem alguma espécie de missão a cumprir e um determinado horário para se transformar. "Antigamente havia aqueles grupos que viravam a noite carneando os animais e tal. Pois diz que uma vez o Fulano estava num grupo desses e meio que enlouqueceu, começou a falar coisas sem sentido, até que saiu pela porta e ninguém mais o viu até o dia seguinte. Era um grupo grande, todos confirmam que isso aconteceu. Todos acreditam que aquele era um dos momentos em que ele tinha que se transformar, que tinha que ir cumprir a tal missão. Ele deve ter se distraído no trabalho e esqueceu do horário, por isso ainda estava em público."
Confesso que essa não é a história que mais mexe com o meu imaginário.A que sempre me encanta é a que envolve dinheiro escondido e fantasmas. Tempos atrás, os fazendeiros ricos tinham mania de esconder boa parte do seu dinheiro para evitar que caísse em mãos erradas. "Depois de mortos, o espírito continua vigiando o dinheiro enterrado em vida. Dizem que eles espantam as pessoas que procuram por tesouros assim, mas que atraem pessoas desinteressadas para que encontrem, só então o espírito fica em paz."
Nas minhas poucas andas pelo campo a pé, pra lá e pra cá, nunca encontrei espírito nenhum, também nunca me preocupei com a existência ou não de lobisomens, mas ouvir essas histórias sempre me diverte. É uma pena que essa simplicidade das rodas de conversa esteja praticamente perdida. A roda que as pessoas fazem, hoje, é em volta da televisão. Por essas e outras é que, possivelmente, não sei uma lenda urbana sequer, que era a proposta original do Christian e da Pandora para essa blogagem coletiva, então acabei por participar com essas histórias campeiras mesmo... Podem não ser tri emocionantes, mas são encantadoras.

9 comentários:

Pandora disse...

São sim tri emocionantes dona Ana!!! E sim, quando você conta elas garante que a memória delas não se perca!!! Adorei!!!

Clara disse...

Histórias de lobisomem eu ouvia muito qdo era criança.... morria de medo, não me atrevia a duvidar de jeito nenhum. Pelo sim, pelo não, ficava quietinha no meu canto.

Bah, mas ficou tri bom!

Beijos, guria!

Marina disse...

Pena mesmo as rodas de conversa, nas varandas das casas estarem sumindo.. Mas que bom ainda ter pessoas como você, contando estes causos, perpetuando esta parte de nossa cultura.
Ficou muito bom seu texto!
Abraços

VERINHA disse...

Olá Ana.
Que delicia ler seu post, é uma pena que este habito de contar causos e lendas estão quase que extintas. Adorava quando menina escutar meus avós contar.
Parabéns por sua linda participação.
Um Domingo maravilhoso, beijinhos.

Cris Henriques disse...

Olá Ana!

Esta é a minha primeira vez no teu blog.
Gostei de ler a tua participação, gosto de histórias de lobisomens e quando penso nestas coisas acredito de que possam ter ocorrido em tempos.
Também estou a participar nesta bc. Aqui fica o link:

http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.pt/2012/10/3-bc-escritos-lisergicos-lendas-urbanas.html

Estou a seguir o teu blog.

Um bom domingo.

Beijos,

Cris Henriques

Christian V. Louis disse...

Esta história de fantasmas onde há tesouros escondidos eu ouvia do meu avô, não é estranha para mim. Ele dizia que isto ocorria na América do Sul mesmo, se é verdade ou mentira, eu bem que queria encontrar um tesouro destes, com ou sem fantasmas. ahah.
Sobre lobisomens, eu acho bem absurdo alguém acreditar, apenas imagino o bullying que o suposto lobisomem tenha sofrido. rs.
Valeu pela participação, ficou bem legal!

Luma Rosa disse...

Existem histórias atuais que não passam perto das lendas do passado, mas que do mesmo modo nos enganam. Por exemplo: A Muralha da China pode ser vista do espaço. O que é uma grande inverdade e todo mundo acredita.
Em tempos de internet, as lendas urbanas se adaptaram, mas algumas características continuam presentes: a história é contada como verdadeira, em terceira pessoa ('aconteceu com um amigo de um conhecido'), de origem apócrifa (sem um autor claro), envolve aspectos da vida cotidiana e dá referências específicas (data, localização e nomes), obtendo assim maior credibilidade.
Veja se já nao lhe contaram a do e-mail alertando para uma quadrilha de roubo de órgãos - que dopa a vítima, deixando a mesma acordar suturada numa banheira com gelo ao lado de um bilhete para que ligue para o hospital - pode ser relacionado a mitos antigos com referência ao roubo de partes do corpo. Ou o caso do "golpe nigeriano", no qual a vítima recebe uma mensagem de um suposto estrangeiro que tem uma grande quantia de dinheiro a receber no Brasil, e que estaria disposto a dividi-la com quem o ajudar nesta tarefa. Para isso, pede que antes a pessoa faça uma série de transferências bancárias - dinheiro que ela nunca mais verá.
Ah, ainda tem a história do Chupa-Cabras, do ET de Varginha... ou a do aidético que vem correndo com uma seringa injetando sangue contaminado.
Conheço uma boa parte de lendas urbanas atuais, que circulam entre nós como reais e de tão bem contadas, parecem mesmo que seremos a próxima vítima. Num futuro alguém poderá vir a rir de nós, mas por enquanto, um bom motivo para rodearmos em uma caixinha de comentários de um tempo longinquo em que as pessoas ainda se comunicavam através de digitação de texto. Bobinhos... usavam somente 10% dos seus cérebros e mal sabiam da utilidade dos neurônios “de férias” :)
Boa blogagem!!

Patricia Galis disse...

Gostei demais da sua participação já tinha ouvido algo parecido, quem sabe no fundo o que é verdadeiro ou falso? Isso que é o legal dessas historias.

LALE disse...

A literatura oral, para mim, é uma das mais genuínas formas de se fazer literatura. Nunca me interessei por lendas urbanas, mas as narrativas das tradições orais me cativam , me encantam. Na verdade, há encantamento e arte em todo o fruto da sabedoria popular .
Pensar que essas histórias atravessaram continentes, culturas, povos e milênios é fantástico!
Conheço um autor que tem faz um trabalho belíssimo, coletando essas histórias diretamente do imaginário popular, o Marco Haurélio. Vale a pena conferir o trabalho dele! Com trabalhos de pessoas assim, a esperança é avivada, pois estamos mesmo perdendo essa tradição tão necessária, o narrador não mais existe, não há mais tempo e atenção para os guardiães da memória coletiva. Lembrei aqui do Benjamin:

Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”

Walter Benjamin – Experiência e Pobreza – 1933


PS: Nas férias em que passava na roça, torcia para encontrar um fantasma, infelizmente, eles n quiseram saber de contato. haha