quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Das minhas aventuras no SUS

Ontem, às 7h, encarei a chuva que parecia ser eterna para, meia hora depois, estar sentada na sala de espera do setor de oncologia do hospital universitário da cidade. Estava ali porque seis meses antes convenci minha mãe contrariar sua própria vontade e a de seu irmão e não tirar meu avô da fila do SUS para uma tomografia. Os dois outros exames haviam mostrado nada e eu disse: Na hora que nos chamarem, vemos se fazemos ou não. No início de dezembro chamaram. Ninguém nem lembrou de questionar a necessidade do exame. Era preciso o número da carteira do SUS. Encarreguei meu tio de trazê-lo pra mim quando fosse visitar meu avô no fim de semana, no interior da cidade. Esqueceu. Minha mãe pediu mais uns dias de espera por telefone. Ok, depois do feriado. Veio o feriado, veio o número da carteira do SUS, fui marcar o exame. Ninguém pediu o número da carteira do SUS, estava na solicitação do exame. Estresse à toa. 

Chegou o dia do exame. Quando minha mãe chegou na casa do meu avô, ele já tinha ido embora. Antes que ela chegasse no hospital alguém ligava pra ela brigando. Onde já se viu um senhor de 83 anos chegar sozinho pra um exame? Calma, estou chegando. Pensa pelo lado positivo: Quantos senhores de 83 anos saem tranquilamente sozinhos pra ir fazer um exame? Ele nem precisa de mim, isso não é bom? Ânimos acalmados. Exame feito. Duas semanas depois eu vou buscar o exame. Por que a gente foi fazer, disse o doutor quando eu mostrei a ele três dias depois, se não fizéssemos não teríamos encontrado nada. Encontraram um nódulo de três centímetros próximo do pulmão direito. Ele fumava? Parou há mais de 40 anos. Pra mim ele disse que nunca fumou. Sabe-se lá. Pode ser câncer, conversem pra ver se querem mesmo seguir o tratamento, na idade dele tudo é mais difícil. 

Conversamos no Natal. Fala tu pra ele, Ana, tu é mais calma. Eu! Calma! Justo eu que comecei a chorar feito uma desesperada ao saber da possibilidade de câncer. Já não basta a maldição do câncer nos Seerigs? Tem que ter do lado materno também? Mas ok, eu falo. Falei. Vô, pode ser câncer, mas pra termos certeza teremos que fazer uma biópsia. Se tu quiser solicitar a consulta com o especialista, estes são os papéis. Leva no posto de saúde do distrito e manda me ligarem. Tu não vai, vou eu. Entendeu. TU NÃO VAI. Mas pode ser só uma consequência de quando ele quebrou as costelas, disse meu tio. Vamos nos apegar a essa esperança. Vô, tu entendeu que é pra mandar me ligar? Entendeu. 

No dia 2 de janeiro me ligam às 8h. A consulta é dia 10, ele tem que buscar o papel aqui até dia 4. Ok. Vamos ao desafio de avisar ele disso. Maldito telefone celular que nunca pega no meio do mato! Um viva pra tecnologia e pra memória do meu tio. Pede pra Priscila avisar. Pedido feito e respondido via messenger. Resolvido. No dia seguinte viajei e e durante a semana meu vô passou o dia me ligando. Tem certeza que não quer que eu vá? Tu vai mesmo? Sim, vou. É só me mandar o papel pelo tio. Tem certeza? Sim, tenho. E é por isso que eu estava ontem às 7h30 no setor de oncologia do hospital universitário. Já imaginou ele sair de casa às 6h da manhã no meio daquela chuva toda no meio do mato? Espero que tenha dormido por mim. 

Quem é você? Neta. Tem o documento? Tenho os números da identidade, CPF e do cartão do SUS. E o documento com foto? Não tenho. Não sei se vai poder ser atendida, preciso da autorização da coordenação. Aguarde. A coordenadora de enfermagem (que é minha vizinha - não sei se há relação nisso, não pedi nada) liberou. Na próxima tem que trazer o documento dele. Ok, se houver próxima vez ele mesmo virá, pensei. Às 8h30 fui chamada. Ou melhor, o Sebastião foi chamado. Me olharam torto. Expliquei a situação. É meu avô, quero mostrar o exame e saber as alternativas pra explicar pro resto da família. Ok. 

Vieram às perguntas. Fuma? Não, parou há 40 anos (confirmei, ele fumou mesmo e mentiu pro médico). Toma remédios? Pra nada. Sente dor? Não. Fez cirurgia? De catarata, há mais de dez anos. Estado civil? Viúvo. Tem certeza? Tenho. (Nunca conheci minha avó, então sim, acredito que ele seja viúvo, a menos que tenham me mentido a vida toda,) Razão do exame? A enfermeira da Unidade Básica estava há anos preocupada com uma pequena anemia. Depois de ser chamada de louca e chata umas quantas vezes, ela decidiu marcar um especialista. Descobrimos anemia de B12. Tratamento feito e exames pedido. Aí está. Ok. O doutor não chegou. Te chamamos quando ele chegar.

Sebastião. Lá fui eu de novo. Logo entra o doutor seguido de dois, mais as duas gurias que estavam na sala, mais uma que chegou atrasada. O Plantão Médico não era exagerado, afinal de contas. O doutor olha a tomografia depois de ouvir um resumão que a guria que me entrevistou fez. Consultou os universitários (de verdade). Ele não sente dor? Não. Ele tá tão bem que até resolveu plantar milho, sabe-se lá porquê, mas ele resolveu plantar milho! E é por isso que a gente tem receio de tirar ele da vida no campo e meter ele num hospital. Ok, eu não falei assim, mas podia ter sido. E essas lesões? Ele quebrou três costelas em março de 2015 quando subiu no sótão e as madeiras podres cederam. Passou seis meses ruim (e brigando com as pessoas, cá entre nós), mas agora não reclama de dor. Fala o doutor.

Pode ser algo em relação à esse acidente. Só uma biópsia vai mostrar. Se for câncer, está no começo e podemos tirar sem complicações. Como é essa biópsia? Anestesia geral? Sim e ele tem que ficar internado. Na minha opinião, tu tem que trazer esse rapaz pra nós. O procedimento é com laser e blábláblá (não entendi muito mais). Ufa, pode mesmo não ser nada. Ok, obrigada. Levanta-se o doutor e sai com dois da sua comitiva. Era tanta gente saindo que eu me perguntei se tinha que sair junto. Por via das dúvidas fiquei ali mesmo. Três moças agora se encarregavam da ordem. Qual era mesmo o nome do exame? Tomo ou tomate? Definitivamente ele disse tomate (ou algo parecido e mais comprido). Ok. Telefones pra contato? Está mais tranquila? É, pode não ser nada. É rápido pra liberar o exame, questão de dias. É só levar no Postão no segundo andar e... Não é o terceiro? É acho que é. Vai ali na recepção e te explicam e carimbam pra ti. Fui. É só levar no Postão. E o carimbo? Lá eles carimbam. 

Hoje fui no Postão. Não sei que horas cheguei (depois descobri que foi antes das 15h, já que eles só liberavam senhas até essa hora). Me deram a senha 86, estava na 34. Viva o Resende na minha bolsa. Li de pé por falta de lugar pra sentar. "Que é que, querendo, a gente faz na vida? Por mim digo que só fiz o que não quis; e poucas vezes quis o que fiz?", li eu no texto Poeira sonâmbula sobre Rosário Fusco. Quem sou eu pra contradizer Otto Lara Resende? Lá num cantinho eu poderia sentar no chão e ler tranquilamente. Espero mais um pouco. Terminei o texto, postei outra frase bonita do Resende no Facebook e garimpei uma cadeira pra sentar. Pronto, resolvido. Posso esperar os 50 na minha frente serem chamados. 

"Não leia demais aí." Era uma colega do magistério que há tempos não via. Quando vamos tomar uma cerveja? Ora, é só marcar. Todo mundo me cobra, mas ninguém marca. Me chama quer estarei lá. Mais um pouco de Resende. Helena Antipoff, "Conseguiu liberar o exame?" Alguém, em pé, passando pela minha frente, tocava no meu joelho. Era o médico. Aquele mesmo que no dia anterior tinha quatro sombras, opa, cinco sombras quando me atendeu. Como ele lembrou de mim? Mal eu lembrei dele! Antes que eu assimilasse e respondesse que havia 50 na minha frente, ele seguiu uma mulher pra dentro de uma salinha. Foi estranho não ver ninguém seguindo-o. Quase inacreditável na verdade. Mais um pouco de Resende. A sala foi esvaziando. Quase lá. 84. 85. 86. Entrego os papéis. Grampeia aqui, digita ali, preenche uma folhinha. 

Volte dia 18. 

2 comentários:

Pandora disse...

Tomara que não seja nada grave, tomara que não seja nada grave, tomara que não seja nada grave... Só consigo pensar isso!

Erica Ferro disse...

Fiquei mais tranquila ao ler isso. Se bem que no fundo, desde que você comentou sobre o caso, eu senti que poderia não ser algo tão grave. Sou meio "sensitiva".
Que venham os outros resultados de exames e que o teu vô continue bem! :D